Efeito Placebo

Assisti ontem ao último episódio da série A Indústria da Cura (2020, Netflix). Antes de mais nada, preciso dizer que esse tipo de conteúdo me fascina: o que leva pessoas a buscarem tratamentos alternativos, na maioria das vezes sem nenhuma comprovação científica? O que leva muitos a investirem uma soma considerável de dinheiro em promessas de cura? Indicações de amigos? Descrença na ciência e na medicina? Fé? Ao assistir à série meu primeiro pensamento foi: “efeito placebo”.

Faz poucos meses li o livro Ciência Picareta, do escritor e psiquiatra britânico Ben Goldacre. Nesse livro, o autor explica grandes fake news e enganações envolvendo a temática da saúde. É sabido que a indústria farmacêutica utiliza artimanhas como divulgar somente as pesquisas que favorecem seus medicamentos e ocultar as desfavoráveis, além de campanhas de marketing agressivas para convencer médicos a prescreverem suas pílulas. Isso justifica certa desconfiança a respeito da medicina tradicional. Mas é preciso lembrar que a indústria do bem-estar é igualmente multibilionária e usa estratégias similares para prosperar.

Mas isso não é tudo. Remédios são testados em relação ao efeito placebo, ou seja, são aprovados quando se mostram mais eficazes do que o placebo. Pois sempre há esse efeito e um medicamento deve ser a soma do placebo com os princípios ativos. Mas o que, afinal, é efeito placebo? É quando a crença no tratamento resulta em efeito psicológico observável. Dessa forma, a pessoa tem melhora na saúde pelo simples fato de receber um tratamento, ainda que este não tenha efetividade alguma.

Você pode receber um pílula de açúcar e sentir-se melhor ou até mesmo curado. E você pode até mesmo saber que está tomando um placebo e ainda assim sentir um efeito terapêutico. Podem dizer a você “isto é uma pílula de açúcar” e você sentirá a melhora. Ou, em outra situação, você pode dar uma pílula sem qualquer propriedade terapêutica a seu filho ou animal de estimação e eles apresentarão uma melhora. Como? É efeito placebo por procuração; significa que eles irão responder à sua expectativa de cura e à atenção que você está dedicando a eles.

E aqui temos um fator chave em nossa reflexão: dedicar atenção. Veja bem, quando você procura um terapeuta de uma prática alternativa ou religiosa é comum que obtenha um acolhimento muito maior do que aquele que normalmente recebe num atendimento médico. Há também um sentimento de pertencimento, de fazer parte de um grupo que crê em tal prática ou de um grupo que finalmente descobriu algo fantástico, um tratamento desconhecido ou oculto, e que trará uma cura milagrosa.

Há abraços e sorrisos e entusiasmo. Há acenos compreensivos e calor humano.

Há também muita enganação e modus operandi que se assemelham aos de seitas.

Há perigos e danos causados por profissionais não capacitados e tratamentos nocivos.

Há sensação genuína de bem-estar e melhoria da saúde das pessoas. Tem-se a renovação da esperança daqueles que já estavam desistindo de encontrar uma forma de sobreviver sem dor.

Então que lado escolher? Como seguir com as angústias? Como tratar as dores?

Quando falamos em saúde mental e transtornos afetivos é particularmente significativo como nos sentimos em relação à cura. Se plantar bananeira lhe traz bem-estar ou dar três pulinhos acalma sua ansiedade então por que não usar essas “técnicas”? Mas aqui mora um perigo enorme. Por se sentir bem com três pulinhos pode ser que você pare de ir ao médico pensando que, afinal de contas, não precisa mais dele, não é mesmo? Mas e se vier uma crise grande e três pulinhos não derem conta? Ou talvez você dê os três pulinhos e também quatro espreguiçadas e dois polichinelos. Aí qual te curou: os pulinhos, as espreguiçadas ou os polichinelos?

Outro fator interessante de ser observado é que comumente vemos a busca por tratamentos alternativos associada a uma mudança de estilo de vida. E talvez seja importante para você ter o incentivo de outra pessoa ou de um grupo de pessoas para que você passe a adotar hábitos que são até óbvios como ter uma alimentação saudável, praticar exercícios físicos, etc., etc. São hábitos notadamente benéficos, mas que nem sempre relacionamos à melhoria no quadro de nossa saúde física e mental, pois podem nos parecer muito simples. Ou que sabemos ser eficazes, mas acabamos deixando de lado por falta de disciplina, falta de entusiasmo, preguiça ou qualquer outro obstáculo.

Voltando ao tema do título, a questão é: se há efeito placebo, por que não nos aproveitarmos dele? Aqui vale um alerta. Sendo o efeito placebo algo que funciona mesmo quando conhecemos sua existência, é essencial que estejamos o mais conscientes e cientes possível dos riscos de optar por tratamentos que possam ser prejudiciais. É preciso buscar informações para não cair em golpes nem se deixar vulnerável diante de profissionais sem formação e conhecimento.

E, se o que vale é mesmo acreditar, prefiro crer numa mistura equilibrada e consciente de ciência e práticas de bem-estar que não irão me fazer mal. 😉

E você? Quais atividades pratica para melhorar sua saúde?

14 comentários em “Efeito Placebo”

  1. O que mais vemos hj são gurus. Coaching e tantas coisas. Podem ajudar, mas o tratamento medicamentoso e especializado é essencial pra quem tem um transtorno mental.

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  2. Já fui receitada com placebo.Rsrs Penso q eu não tinha sintomas suficientes para ser receitado um medicamento forte, pois a interrupção do sintoma dependia de outro fator.
    Gostei muito do seu texto.
    Recentemente, ouvi falar na terapia da constelação familiar, mas li que não há comprovação cientifica. Os que a defendem dizem que é pq o seu idealizador morreu cedo.
    O que vc acha da hipnose Ericksoniana?
    Bia, eu penso que algumas pessoas estão doentes, e querem apenas serem ouvidas, conversar. Principalmente, no momento atual de pandemia.

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    1. Hahaha que sensacional! Como você descobriu que era placebo? E funcionou?? Me conta tudo!!
      Eu conheço pessoas que fazem constelação familiar. Eu, pessoalmente, não gosto. Não tem comprovação e, para mim, a própria premissa não faz sentido. Não vejo como pode ser efetiva. Assim como a homeopatia, por exemplo, que para mim já parte de uma teoria que não se sustenta. Mas o principal problema que eu vejo são as declarações absurdas do criador da constelação familiar. Sem contar que dizem que ele era nazista!!!
      Sobre hipnose, de forma geral, a questão é nem todos serão hipnotizados. Sem contar que muitas vezes quem faz um curso de hipnose não tem outra formação para dar suporte terapêutico, então é preciso ser cuidadoso com isso.
      Também acho que na maioria das vezes a escuta é essencial e concordo que especialmente agora isso é muito importante!

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      1. Rsrsrs Passou já posso rir.
        Eu estava sobre stress emocional e tinha vontade frequente de vomitar. Eu sabia q um comprimidozinho para enjoo não passaria, mas tb eu não queria algo mais forte. Mentalizei q i placebo ia ajudar, mas não curar.

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  3. Bia, desde já tenho que te dizer que te adoro ler e ouvir. Trazes sempre temáticas muito interessantes e com abordagens que fazem reflectir.
    No meu caso, ajuda muito escrever, pintar e falar (não propriamente sobre os meus problemas) mas gosto de pensar neles, ver todos os prós e contras, várias abordagens e mentalmente tentar resolver. Quando não dá para resolver, bem, deixo o tempo tratar do assunto porque nada é eterno, as coisas vão e vêm e receber cada sentimento e percebe-lo dessa forma é como me tem ajudado.
    Conforme já te disse à uns tempos, eu tive uma depressão grave, há 3 anos atrás, receitaram-me diversos tipos de medicação. Fui a psicóloga e psiquiatra. Depois desta depressão surgiram os meus “problemas” – um pouco de OCD e hiperactividade – diariamente lido com estas questões, a forma como as abordo e levo a vida é que mudaram muito.
    Hoje em dia já tomo pouca medicação, só mesmo a essencial, tenho sempre que ter muito cuidado com o inverno porque se não tiver tratada leva-me à psicose. Mas de ano para ano tenho melhorado imenso. Muitas dos nossos problemas podemos resolver, é só direccionarmos o nosso foco para tal e experimentar outras abordagens.
    Meditação, yoga, leitura, escrita, pintura, aprofundamento de conhecimento de coisas que desconheço e levanto questões é o que me faz mover no dia a dia.
    Um beijo enorme.

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    1. Fico muito feliz por você estar tão melhor! E acho que isso se deve justamente ao cuidado que tem com a própria saúde. Ir a médicos e terapeutas é muito importante, saber o diagnóstico, fazer corretamente o tratamento. Assim como prestar atenção à nossa mente e saber o que nos faz bem e o que nos faz mal! Inverno é um período que mexe com muitas pessoas, é sempre bom se fortalecer nessa estação 🙂
      Sou suspeita para falar sobre os benefícios da arte, né. Fiz pós em Arteterapia, dou um curso de Escrita Terapêutica…!! kkkkkk Amo muito mesmo e vejo muito resultado na arteterapia! ❤
      E faz uma diferença enorme a gente buscar aquilo que nos traz bem-estar e também conhecimento (pois parte de nós é sombria mesmo e negar isso só cria mais problemas; temos que nos conhecer e acolher nossos vários aspectos e só assim iremos nos curar). É parte vital do tratamento em saúde mental!! ❤

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  4. Com autoconhecimento a gente vai construindo um filtro né? Eu fui desenhando um caminho que “se aproveita” de tudo aquilo que é capaz de me conceder mais clareza, conexão. Medicamentos quando foram necessários e todas as outras ferramentas e estratégias que pude encontrar no processo. Já leu o livro “Curar” do Dr. David Servan-Schreiber? Ele abarca uma série de práticas para saúde mental corroboradas por estudos científicos. É muito bom.
    Parabéns pelo trabalho!

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