A saúde física e os transtornos mentais

saude_fisica

 

Quem tem um transtorno mental sabe que sua doença não é algo que afeta apenas a mente e o psicológico, mas também algo que afeta seu corpo físico. E são vários os sintomas físicos relacionados aos transtornos mentais, tais como fadiga, taquicardia, insônia, perda de apetite, dores musculares, dor de cabeça. Ainda assim, muitas pessoas não dão tanta importância aos cuidados com a saúde do corpo, especialmente se for portador de uma doença mental, como depressão, transtorno bipolar, ansiedade, esquizofrenia.

Costumamos separar corpo e mente; essa divisão, entretanto, deveria ocorrer somente para fins didáticos, não na prática. Pois um influencia o outro. Somos um único ser com corpo e mente atuando de forma coordenada. Dessa forma, os desequilíbrios afetam todo o nosso funcionamento. Tanto o pesar emocional terá uma consequência no seu corpo quanto as doenças físicas irão influenciar sua saúde emocional.

Quando temos um transtorno mental toda a nossa atenção geralmente se volta para os sofrimentos psíquicos. Analisamos todas as emoções, rotulamos tudo o que sentimos como sintoma, percebemos nossa personalidade como consequência de uma doença. E deixamos de lado a saúde, o bem-estar, a alimentação. Mas, na verdade, quem tem um transtorno precisa cuidar ainda mais da saúde física.

Deixamos de perceber que, por exemplo, quando temos um simples resfriado podemos sofrer uma consequência em nosso quadro mental. Um resfriado nos deixa vulneráveis, desanimados. Pode vir acompanhado de perda de apetite e dificuldade para dormir. Mas as noites insones são um dos principais gatilhos para crises de depressão, mania e ansiedade. Então, se você já tem um transtorno tudo o que acontece com o seu corpo precisa despertar um sinal de alerta. Da mesma forma, uma crise de depressão pode causar os mesmos sintomas de alteração de apetite e do sono. Cada pessoa experiencia uma crise à sua maneira, mas vamos imaginar alguém que não consegue nem comer nem dormir durante a depressão. Ou seja, a saúde desse indivíduo será impactada pela crise depressiva. E esses sintomas físicos da doença podem fazer com que essa pessoa fique vulnerável a outras doenças.

Os cuidados com saúde mental podem ser resumidos em dois tópicos: observar e agir. Observar os sintomas, as mudanças, estar atento. Se fiquei uma noite sem dormir, presto atenção. Uma noite pode significar uma preocupação, um desconforto. Mas é algo que acontece e não necessariamente causa grande prejuízo. Porém, se eu não dormir na noite seguinte, e na próxima, e não der atenção a esses eventos, estarei deixando de notar algo significativo que pode ser sintoma de uma crise que se aproxima. Não é preciso entrar em desespero ou avaliar neuroticamente cada mínimo sinal ou incômodo. Observar não é criar outro problema ou doença, mas sim estar presente em seu próprio corpo e em sua própria mente. Se você passou uma noite em claro, tudo bem. Se você teve um dia ruim, está triste e chorou, tudo bem. Permita-se sentir. E observe. Observe até ser possível chegar a uma conclusão.

Mas se você não dorme há uma semana ou chorou compulsivamente por uma besteira, é hora de agir. Pois esse choro compulsivo pode não ser apenas por aquela bobagem. Então você irá agir. E como fará isso? Você pode marcar uma consulta com seu psiquiatra, com seu psicólogo, fazer algo que faça com que se sinta melhor, buscar se alimentar de forma mais saudável, tirar um tempo de folga, sair com os amigos. As atitudes serão de acordo com aquilo que foi observado. E é assim que nós nos cuidamos. Sabendo que este é um processo contínuo, de atenção constante tanto com a mente quanto com o corpo. Dessa forma nosso bem-estar será completo.

Anúncios

Black Mirror e os finais felizes

Minha análise da 5ª temporada da série Black Mirror (Netflix)

 

Siga o canal Bipolar e Afins no YouTube! 😉

Escrita Terapêutica

Um comentário recente num texto antigo fez com que eu refletisse sobre os benefícios da escrita terapêutica.

escrita_terapeutica

 

Sempre que me perguntam formas para lidar com um transtorno mental (e recebo essa pergunta com frequência) coloco a escrita na lista das dicas. Escrever é uma maneira excelente de acessar e lidar com nossos sentimentos, não apenas para quem tem depressão, é bipolar ou tem outra doença, mas para todas as pessoas.

Tanto que, já faz um bom tempo, surgiu um termo específico para descrever a escrita com fins curativos — a Escrita Terapêutica. Outras expressões, ligadas à escrita terapêutica, passaram a circular por aí, como expressive writing e morning pages. Mas, antes de abordar essas e outras técnicas, vamos refletir sobre como escrever pode nos ajudar.

 

Benefícios da escrita terapêutica

Escrever sobre si mesmo, deixar o fluxo de pensamentos correr livremente e anotar suas emoções no papel contribuem para o autoconhecimento. Podemos descobrir sentimentos que ficaram escondidos dentro de nós, compreender melhor nossos medos e também nossos desejos. Quais as suas motivações? Por que você hesitou em marcar aquele compromisso? E outras perguntas como essas ficarão mais claras. Além disso, escrever frequentemente estimula a criatividade, a comunicação, a concentração e a disciplina. Sem contar que é uma forma de manejar as emoções mais intensas e repensar nossas decisões antes de agir por impulso. Quando, por exemplo, sentimos raiva, é útil desabafar no papel e ver como isso faz nosso coração acalmar. A raiva é sublimada, é direcionada para um objeto, ao invés de ficar borbulhando dentro de nós. Podemos transformar emoções negativas em texto e até mesmo em arte. Escrever nos dá a possibilidade de alcançar nossos sentimentos negativos, nossas emoções obscuras e nossas pulsões inconscientes, ou seja aquilo que insistimos em negar e reprimir, de forma segura, num ambiente controlado, antes que tudo exploda de forma violenta. Escrever, por fim, melhora o nosso humor e aumenta nossa autoestima.

 

Como praticar

Para aproveitar todos os benefícios listados acima é muito fácil. Você precisará de um local tranquilo (um escritório, seu quarto), com o mínimo possível de barulho e de interrupções. Mas não se preocupe em ter um lugar perfeito para escrever, o mais importante é praticar os exercícios. E também precisa de ferramentas para escrever, de preferência papel e caneta, mas também pode ser o celular ou um notebook. Recomendo ter um caderno só para a escrita terapêutica. Depois é só reservar um tempinho, 10 ou 30 minutos, e começar a escrever. É importantíssimo lembrar que, embora escrever ajude a lidar com os conflitos e sentimentos, essas técnicas não substituem o tratamento convencional. Continue fazendo o acompanhamento com seu médico e seu terapeuta. Mas você poderá levar as questões que surgirem na escrita para a consulta com o psiquiatra e com o psicólogo, e isso vai contribuir para o seu tratamento.

 

Técnicas de escrita terapêutica

A melhor técnica é aquela que serve ao seu objetivo e às suas necessidades neste momento presente. Durante um período da minha vida, dos 10 aos 20 e poucos anos, tive vários cadernos, onde anotava e analisava meus sonhos, transcrevia trechos de livros e letras de música, desenvolvia ideias e anseios e desabafava quando necessário. Houve meses em que escrevia diariamente. Houve períodos de menor frequência ou de puro silêncio. Hoje, em contrapartida, anoto as preocupações que ocupam minha mente em minha agenda, bullet journal, bloquinho ou celular, sem a necessidade de um caderno específico para esta finalidade.

Para o autoconhecimento e a criatividade, um método interessante é conhecido como morning pages, que consiste em escrever três páginas à mão logo após acordar (ou logo após tomar o café) colocando no papel tudo aquilo que passar pela sua mente. Não há conteúdo certo nem errado, nem precisa elaborar o que vai escrever, basta anotar o que estiver em seus pensamentos. Ao contrário desta técnica, é possível também escrever à noite, antes de dormir, e anotar tudo aquilo que o incomode ou preocupe, ou seja, as questões que podem atrapalhar seu sono. Além de possibilitar que você durma melhor, escrever antes de deitar pode diminuir a ansiedade quando houver muita expectativa para um compromisso no dia seguinte. Podemos também ter um caderno sempre por perto para desabafar nos momentos de angústia ou tristeza, e escrever sobre a briga com o parceiro ou sobre um dia estressante no trabalho. Ou ter aquele bloquinho dos bons sentimentos, onde anotamos as coisas boas que nos acontecem ou fazemos uma lista da gratidão. Talvez você escolha a expressive writing therapy, e reserve 20 minutos por dia, durante quatro dias, para escrever sobre seus sentimentos mais profundos, traumas ou outros assuntos pessoais e importantes. Pode ser que você deseje também se conectar com outras pessoas e explorar seu lado artístico. Você poderá encontrar uma oficina de escrita ou saraus de poesia para estudar literatura e compartilhar textos com professores e colegas de classe.

Eu mesma já testei todas essas formas, e cada uma delas me ajudou muito. Seja qual for a sua escolha, com certeza continuarei recomendando escrever sempre sentir vontade. ❤

Felicidade, ato de resistência

sol-979325_1920

 

Olho as notícias diárias com as retinas arregaladas, a língua queimada no café quente, os dedos deslizando velozmente entre absurdos e violências. Vejo infinitas tragédias que nos comovem e causam indignação. O ar permanece preso na garganta, até fugir num longo suspiro. O sol nasce, como sempre, e brilha contra meu celular cinzento.

Em tempos de extremismos, ter empatia é revolucionário. Em meio a tanto sofrimento, felicidade é ato de resistência. Então resisto, insisto; eu vivo.

Vou te contar uma história…

Normalmente, após escrever um texto ou gravar um vídeo eu penso “Poderia ter ficado melhor”. Muitas pessoas possuem uma autocrítica dura, ou cultivam expectativas grandiosas. Não sei em qual categoria me encaixo, mas quase sempre penso que não ainda não cheguei onde gostaria, não fiz o suficiente, que outros textos e vídeos são melhores que os meus, etc. Quando gravei o vídeo abaixo, entretanto, eu me senti bem. Então, recomendo que você assista e, se gostar dele assim como eu gostei, compartilhe com os amigos, compartilhe no grupo da família, envie para as pessoas queridas, pois também é importante apreciar e valorizar nosso trabalho. É importante olharmos para aquilo que criamos e pensar “Ficou muito bom.”. ❤

 

Prevenir (ainda) é o melhor remédio

g-okeefe-rams-head-white-hollyhock-little-hills

 

O tempo devora a cauda da serpente, mais e mais, pedacinho a pedacinho, até sobrar somente pele e esqueleto. O tempo é a erosão da rocha, a água que seca e se transforma em deserto. O tempo é um quadro de Georgia O’Keeffe, chifres e flores, vida que é e vida que foi. O chão permanece abaixo de nós ainda que já não estejamos mais aqui para nele pisar. Corremos maratona implacável e sem vencedor.

De repente, a mente ágil, feita para aprender, começa a esquecer. Vai perdendo partes e neurônios. Perde o nome daquele ator, como era mesmo?, aquele que fez aquela novela que passava, sabe. Perde o almoço de ontem. Perde os filhos adultos, que logo novamente são criança, e depois já nem existem mais. Perde a si mesmo.

Uma vida de mágoas e ressentimentos. Não é preciso se preocupar com essa raiva que brota, ainda sou jovem. Os efeitos só sentimos quando é noite e as luzes foram apagadas. Vivemos dia após dia descuidados, embalados pelo nosso senso infantil de imortalidade. Pior que morrer é perder a vida.

Mas prevenir (ainda) é o melhor remédio. Não se vende em farmácia; já está dentro de nós. É deixar a alma lavar. Seguir a caminhada sem pressa. Apreciar o calor do sol que ainda brilha.