Bifurcações

Haveria de haver assento diante de cada encruzilhada da vida, nas bifurcações de nossas decisões. Talvez até um sofá com manta e xícara de bebida quente ao lado para escolhas em dias frios. Quem sabe um refresco e uma boa vista do horizonte ensolarado, para distinguir qual o melhor caminho a seguir.
Quisera eu não ter vendido minha juventude em troca de uns poucos momentos de prazer. Quisera o deleite de hoje não fosse espremido entre obrigações e decepções. Haveria de haver um tempo curto para os dias ruins e um tempo longo, quase eterno, para a felicidade e as alegrias que nos visitam.
Quem sabe me fosse dada a oportunidade de virar pássaro ou gato vez ou outra, e recuperar o brilho entre voos ou saltos cheios de energia. Talvez eu pudesse, ainda que humana, deixar o vento bagunçar meus cabelos e sentir o cheiro das flores que ainda florescem no inverno.
Pode ser que haja sofá e bebidas e esperança a cada nova bifurcação que aparece em nossa jornada. Talvez só precisemos olhar melhor, deixando os voos e os saltos livres dentro de nós.
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Estresse, ansiedade, insônia e finalmente a calmaria

Eu sumi. Confesso de primeira. Abandonei o blog. Perdi o hábito da escrita. E isso aconteceu porque eu não estava bem. Um fato importante sobre ter um transtorno como a bipolaridade é que você pode acabar desenvolvendo outro. É um combo. Promoção: leve dois ou mais transtornos na compra de um. Eis que estava com problemas e enfrentava algumas situações estressantes. Coisas da vida mesmo. Então percebi os sintomas de ansiedade. E a ansiedade atrapalhou meu sono. E a insônia piora os sintomas dos transtornos. Um maravilhoso efeito dominó que se retroalimenta em looping (quase) infinito.

Mas tudo passa. Nota mental: “tudo vai passar” é o meu mantra mais eficaz.

Nesse período eu não escrevi. Isso faz parte de um acordo que fiz comigo mesma (e com todos vocês, embora nunca tenha dito). Eu não publico quando não estou bem o suficiente. É preciso ter responsabilidade. De tempos em tempos recebo mensagens privadas, quase sempre por e-mail, falando sobre como os textos deste blog ajudaram alguém no pior momento. Já houve quem me disse que continuou vivo por causa do meu trabalho, que passou uma noite inteira lendo ao invés de colocar em prática os pensamentos sombrios. E essa responsabilidade é enorme! Faz diferença saber que entro na vida de outras pessoas, que podemos nos comunicar de forma tão intensa e significativa. Por isso jamais colocaria em risco meus leitores publicando qualquer bobagem escrita no calor de um momento de crise e/ou tristeza.

E agora estou aqui, de volta. E com uma companhia!

 

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Minha gatinha Neeko 

Amar um pet é um melhores bálsamos para nossa saúde mental.

Em poucos dias a Neeko já transformou minha vida — e meu celular, que agora que está cheio de fotos e vídeos da gata. 🙂 Por isso mesmo que criei um Instagram dela, para compartilhar as travessuras e doçuras da pequena. Quem quiser conferir é só clicar neste link:

Instagram gataneeko

 

The true cost

Em breve um documentário sairá do catálogo da Netflix e me senti motivada a falar sobre esse tema tão relevante.

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Escrito e dirigido por Andrew Morgan, The True Cost (2015) é um documentário sobre o impacto das indústrias, especialmente a da moda, no planeta e na vida das pessoas. O objetivo é nos fazer repensar nossos hábitos de consumo. Se pessoas trabalham em condições análogas à escravidão para atender a um mercado cuja lógica capitalista exige competição e preços baixos (fast fashion) a ponto de tornar os produtos descartáveis qual o nosso papel e responsabilidade nesse cenário?

A reflexão começa com nossos hábitos de consumo, mas se expande para nosso modelo econômico que faz com que o trabalho nas fábricas conhecidas como “fábricas de suor” seja a melhor opção para as pessoas que vivem em regiões pobres. Mas será que não existe mesmo outra forma de produzir e consumir, de empregar e vender?

Não se trata apenas das lojas de roupas, mas de todo um modelo de pensamento que vai muito além daquilo que podemos enxergar no produto final. Há o plantio de algodão e o monopólio de sementes para garantir a venda de pesticidas. Fazendeiros, endividados, viram reféns das indústrias químicas. Há o aumento de doenças na população exposta a essas substâncias. Há a contaminação do solo, da água, da natureza. Depois entra fabricação em locais insalubres e sem segurança. Há a exploração do trabalho. Há trabalho infantil e trabalho escravo também. Há fábricas desmoronando e queimando, e muitas vidas perdidas. Eis que embrulham tudo isso em papel de presente, em lojas vistosas, em luxo, grifes, marcas e desfiles. Há pressão estética e baixa autoestima. Há desperdício e acúmulo de lixo. E depois mais plantio, produção e venda.

Devemos perceber que existem dois tipos de produtos: aqueles que você usa por muito tempo (como televisão e máquina de lavar) e aqueles que você consome (como alimentos e outros perecíveis). Mas o consumismo quer que você trate tudo aquilo que você usa da mesma forma que os produtos que você consome. Os objetos se tornaram descartáveis e nos acostumamos a comprar o tempo todo na expectativa de ter os desejos e necessidades satisfeitos.

Será que ter mais coisas nos deixa mais felizes? Não, pelo contrário. Quanto maior o materialismo (e a exposição à publicidade) maior a infelicidade (e também depressão e ansiedade). Mas podemos refletir sempre: de onde vem nossa roupa? E nossa comida? E tudo aquilo que levamos para dentro de nossas casas? Assim podemos fazer escolhas melhores, tanto para nós quanto para outras pessoas e a natureza.

Autoestima e outros pensamentos

Aceitar a vulnerabilidade. Baixar a guarda. Rejeitar o impulso pelo perfeccionismo. Rever meus conceitos sobre o que é melhorar a autoestima.

Fortalecer a autoestima é essencial para: combater os momentos de desânimo e insegurança; dissipar as dúvidas sobre minha capacidade e meu valor; combater a tendência a desistir dos objetivos no primeiro obstáculo; deixar de usar a agressividade como defesa; desfazer a necessidade de controle, que me impede de relaxar e faz os problemas ficarem girando em minha mente sem utilidade; combater o hábito de remoer situações passadas; enfrentar a dificuldade em assumir os erros; diminuir as oscilações de humor e a instabilidade; repensar a tendência a me culpar mais que o necessário. E muitas outras vantagens.

 

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Mas talvez a solução não seja tentar o tempo todo, a qualquer custo, aumentar a confiança, ou mergulhar sem reflexão no discurso da positividade. Faz parte do processo aceitar a insegurança. Temos falhas. E podemos evoluir, certamente. Por outro lado, nem tudo podemos controlar. É preciso aceitar que nem sempre alcançaremos o resultado desejado, mesmo dando o nosso melhor. E tudo bem.

Não precisamos completar o nível máximo em todos os aspectos da roda da vida ou em outras ferramentas de desenvolvimento pessoal, tão disseminadas nesses tempos de insatisfação vigente. Ter para onde ir faz você continuar andando; sempre buscar o que não tem faz você nunca sentir as conquistas.

Equilíbrio. É frágil, assim como eu. Significa que combinamos.

Sou forte e frágil. Confiante e insegura. Tímida e comunicativa. Aceito minhas partes, reúno minhas sombras e personas.

Pensei num texto justamente sobre elas: sombras e personas, e também anima e animus. Conceitos junguianos. Como utilizá-los na prática. Surgiu a frase inicial em meu pensamento, e a seguinte, e a seguinte. Um texto mental. Não anotei. Esqueci. Começarei do zero, outro texto, mesmo tema. Talvez melhor, talvez pior, diferente. E tudo bem.

Tatuagem

tattoo
Eu tenho uma tatuagem no pé
Uma frase gravada na pele
Um aviso, um lembrete, uma lembrança
Que já desbota
Agora, sempre que avisto estas letras já quase ininteligíveis,
Penso que tudo é perene
Inclusive aquilo que julgamos durar eternamente
Tudo o que há desbota, some, vira pó
E também se transforma
A mensagem que antes era um sinal para a memória,
Forma de evitar o esquecimento,
Homenagem pós-morte, pós-crise, depois que o sangue já foi lavado,
Torna-se não mais representação dos desafios passados e superados,
das lágrimas que criaram sulcos na face,
Mas sim dos passos futuros
Um pé diante do outro, com ou sem tatuagem,
Vida que segue dia após dia,
Até não existir mais.