Fragmentos #18

bordados

 

Minha avó sempre me contou essa história surreal. Chega a ser difícil de acreditar. É uma história antiga, daquelas que ninguém mais recorda, daquelas que a maioria dos envolvidos já não vive mais. Aconteceu em sua cidade natal, no interior do Ceará. Ela ainda era moça, uma jovem alegre de cabelos lisos e negros, de brilho azulado sob a luz do sol forte. Trabalhava numa loja de sapatos. O dono era muito amigo do dono da loja em frente, a loja de tecidos. Era costume quando uma funcionária faltava num dos estabelecimentos, ou se houvesse muita demanda de trabalho, que um patrão emprestasse uma menina para o outro. Assim trocavam Joana por Maria e vice-versa. E todas as meninas acabavam trabalhando em ambos os comércios. Vez ou outra chegavam clientes muito elegantes, de vestidos longos e unhas pintadas de vermelho. Não havia dúvida, eram do cabaré. As senhoras compravam sapatos de salto e rolos de tecidos bordados, tudo da melhor qualidade para encantar seus clientes. Elas também tinham funcionárias, mas estas não andavam de longo, e sim de saias bem curtas e decote generoso, que era para chamar a atenção dos homens na rua. Assim os bordados mais finos se destinavam às donas do bordel, e os proprietários das lojas as rodeavam como zangões atrás de uma abelha-rainha. Nessas transações nem Joana nem Maria ganhavam comissão. Nem deixavam as moças se aproximarem das senhoras; diziam que elas não podiam ver meninas bonitas que já queriam atraí-las para o seu negócio. Mas, ainda assim, o patrão também não dividia o lucro de suas vendas, alegando que colocava na conta das senhoras e nem sabia se iria receber o valor depois. E assim correu o tempo, com as meninas correndo lá e cá, e as mulheres comprando sapatos e tecidos. Até que o dono da loja de calçados se enamorou por uma das funcionárias. Era uma moça baixinha de cabelos dourados; parecia uma boneca de tão linda. Havia chegado do Pará para ficar na casa de parentes. Ela não correspondeu ao interesse do homem bem mais velho, e ele enlouqueceu de obsessão e fúria. Na direção de sua lambreta importada, recém-chegada, perseguia a jovem sem descanso. Um dia botou a moça na sua garupa e ela nunca mais foi vista. Ele, homem rico e influente, nunca foi investigado pela polícia. Ah, o dinheiro. E todo mal que ele causa. Anos mais tarde, como é comum em casos de abusadores, o dono da loja de calçados fixou sua atenção em outra jovem. Era uma moça muito devota, que desejava ser freira, e era vista indo a igreja sempre na companhia de sua melhor amiga. Esta nova rejeição libertou toda a ira e o horror de dentro do homem que, munido de orgulho e maldade, atirou e acertou fatalmente não aquela que recusou suas investidas, mas sim a melhor amiga. E foi bem diante de todos; não havia como negar. Os olhos das testemunhas esperavam por justiça. As bocas nas ruas relembravam o desaparecimento da moça bonita de madeixas loiras. As pessoas comentavam o caso, também abafado, envolvendo o mesmo homem. Sua mulher descobriu que ele comprou um apartamento para a amante, que, por acaso ou não, era uma das moças do cabaré. A esposa traída, espumando mágoa e vingança, pegou os dois filhos do casal, os colocou no carro e partiu em direção ao ninho de amor proibido. Já tinha no carro dois botijões de gás e conseguiu explodir o apartamento. Depois do crime espetacular, voltou calmamente para casa com as crianças. A amante teve a sorte de não estar em sua nova casa. E tudo ficou por isso mesmo. Mas agora, com o crime público e mortal do marido, desejava-se a penitência. Naqueles tempos, contudo, e ainda hoje, temo dizer, a justiça pode ser caolha. Durante os dias o dono da loja de calçados andava livremente, vendia e lucrava. Somente à noite seu quarto era a cela da cadeia.

 

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Fragmentos #17

escrevendo

 

Tenho esse desejo de escrever sobre a vida das pessoas. Vejo alguém na rua e me pergunto que histórias incríveis já vivenciou, que histórias fantásticas já ouviu. Será que seus avós fugiram da guerra? Ou então ela se casou com o amor de infância após um reencontro acidental e arrebatador na vida adulta? Imagino as narrativas. Tenho vontade de contá-las. Só há uma barreira. Deixar minha posição extremamente confortável e segura de observadora invisível. É um lugar conhecido sair por aí de olhos e ouvidos abertos e descobrir pequenas frases e conversas e cenas cotidianas aqui e ali. É ter acesso ao que as pessoas compartilham comigo sem ter que pedir mais. Afinal, não sei se ainda conservo aquele espírito livre e corajoso da infância que seria capaz de perguntar a um desconhecido sobre sua vida e seus segredos. Ah, aquela jovem não teria tido problema algum em escrever 100 livros de histórias de outras pessoas. A menina que certa vez tocou a campainha de casas aleatórias para perguntar se alguém poderia emprestar um chinelo para a amiga cujo salto quebrou poderia fazer tudo. A menina que, para ajudar outra amiga que desejava escrever uma carta quilométrica de dia dos namorados, perguntou a pessoas na rua se conheciam frases bonitas de amor até descobrir uma moça que anotava várias num caderno poderia com certeza fazer qualquer coisa. Complementando essa última história, soube por uma menina que uma conhecida dela gostava de frases românticas. Ela me disse onde encontrá-la; na pequena loja de produtos de limpeza de seu pai. Entrei na loja, acompanhada de minha amiga, localizei a moça e explicamos o intuito da carta. Ela pediu autorização ao pai para deixar seu posto atrás do balcão por alguns momentos. Então fomos para sua casa e copiamos as três o conteúdo de seus cadernos de amor sentadas na calçada. Sim, antes de procurar histórias fantásticas devo trazer aquela menina de volta para dentro de mim.

 

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O que é ter autoestima

Como nos vemos e o que sentimos a respeito de nós mesmos influencia diretamente nosso modo de nos colocar no mundo. Todos sabemos disso. Compreendemos o quanto é importante ter uma boa autoestima. Vemos dicas e mais dicas de como aumentar nossa autoestima. Mas nem sempre isso funciona. O que geralmente não nos contam sobre a autoestima é como ela de fato funciona.

 

 

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Fragmentos #16

receios

 

Síndrome do Impostor. Aflige pessoas que não acreditam que seu sucesso é consequência de sua inteligência e competência. Elas se convencem que apenas tiveram sorte, e que em breve o mundo descobrirá que são uma fraude. Posso me transportar para o momento em que ouvi falar dessa síndrome pela primeira vez. Pensei que deveria ser difícil não ser capaz de sentir-se orgulhoso e satisfeito com seu próprio trabalho. Imaginei pessoas talentosíssimas imersas em medo, lutando para não sentir o temor de serem descobertos como desprovidos de criatividade e inteligência. Imaginei gênios vendo a si mesmos como farsas. Vi outras pessoas; tal síndrome somente pertencia aos talentosos. Não vi a mim mesma. Mesmo agora me coloco no grupo dos sem talento. Por consequência, concluo que não posso ter síndrome do impostor. E se questiono todos os dias se deveria escrever sobre transtornos mentais — se eu possuo experiência e conhecimento o suficiente — é porque faz sentido questionar. E quando questiono se deveria escrever de forma geral, dado que alguém pode acabar percebendo que não tenho habilidade para isso, é porque sou consciente de minhas limitações. Mas não posso negar que os padrões de pensamento combinam. Continuo com minhas perguntas internas martelando. Sou boa o suficiente? Ajudo alguém de fato, ou minhas palavras são vazias e não trazem alívio algum aos sofrimentos? É interessante, e assustador, como, mesmo após tantos anos, ainda há tanto que não sabemos sobre nós mesmos.

 

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Fragmentos #15

abelha

 

Uma abelha. Do tipo europeia, aquela de bundinha amarela com listras pretas, a dos desenhos. Uma abelha que faz bem seu trabalho, e produz mel, e poliniza, e ajuda na preservação da natureza. Uma dessas entrou em minha sala ontem à noite. Voou de forma desajeitada. Talvez estivesse doente, pensei. Ou voava como bêbada, outro observador diria. Uma abelha sem rumo, mas por pouco tempo. Fez um giro largo desde onde estava, bem ali na minha frente, passando pela televisão e depois pela mesa, e voltou. Sem pousar, errante. Observei atenta. Esperando (ou torcendo) o momento em que se acalmasse ou saísse pela janela. Para não haver feridas entre as duas. Mas a abelha não leu meus pensamentos. Passou refletida em frente ao espelho e embaixo do ventilador. E aí decidiu-se. Subiu da altura mediana do voo de reconhecimento para o teto num rasgante. Um pá quase a atingiu. Então ela voltou, se posicionando da mesma forma. Eu me encolhi prevendo o resultado, ou a intenção. Não houve tempo de desligar o ventilador. Dessa vez ouvi o som do choque. A abelha se suicidou. O outro observador concordaria. Por desgosto, afirmaria, após ver toda essa destruição que causamos. Deixei seu corpinho miúdo num vaso de flores, bem ao lado de um trevo de quatro folhas. Quem sabe isso nos dê sorte.

Acabamos por afastar aquilo que desejamos com entusiasmo excessivo. Algo como apertar forte um gatinho num abraço. O bichano se incomoda e se desprende de nossos braços num pulo. E arranha mãos, braços e rosto se for preciso. Mas lá vamos nós em seguida agarrar outro gatinho, e apertar tão forte quanto. Pois queremos, e queremos muito, e queremos do nosso jeito. O mesmo ocorre com a felicidade. O sujeito quer tanto ser feliz que busca com afinco. Faz o que for possível para ter aquela felicidade que viu outro dia num perfil qualquer de Instagram e que tanto o cativou. Quer uma igualzinha. Então paga fotógrafo profissional para fotos com a mesma pose. Compra as mesmas roupas. Bebe o mesmo vinho no mesmo local. Mas nada disso basta. Aí se inscreve em terapias. Alguém haverá de explicar como ter aquela felicidade. Faz cursos, toma vitaminas. Corre três vezes por semana porque leu ser essa a quantidade ideal. Toma café (só duas doses), come uma banana, não esquece do pedacinho, um quadradinho, de chocolate, o amargo, claro. E anota todas as regras num planner muito bacana. São muitas, não quer esquecer nenhuma. Talvez seja hora de um suplemento de ômega 3 também. Anota a data para comprar. Os dias passam. Chegam as datas de todos os compromissos. Mas nada de chegar a hora da felicidade. Não entende, o sujeito, que a felicidade, assim como o gato, não gosta dos que apertam forte demais.

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Fragmentos #14

morador de rua

 

É uma cidade agradável para se viver. Os moradores sempre se orgulharam de suas ruas limpas e cheias de flores e da tranquilidade de seus bairros. Mas o governo sempre quer ir além no desejo de autopromoção. E de mais votos e mais arrecadação de riquezas. Não se podia dizer nada de negativo na mídia. Um fato antigo. Não que não houvessem crimes, cabe dizer. Roubos de veículos em sua maioria. Um ou outro acontecimento mais grave. Mas eram como miragem. Passavam a notícia no boca a boca mesmo, em filas de banco, bancos de bares, caixas de mercado. Vizinhos comentavam isso ou aquilo. E só. Nem jornal local, muito menos as grandes imprensas nacionais. Na televisão? Nem pensar! Reputação impecável. Para atrair mais moradores, imagino. Mais gente e mais impostos. Mas somente gente que possa pagar esses impostos. Agora há novamente essa ação. Chamam de social, mas não é disso que se trata. Consiste em abordar os moradores de rua, os desabrigados, e oferecer ajuda. Um tipo de bem específico de ajuda, sempre acompanhada de uma pergunta. Desejam saber de onde vieram. Em cidade tão rica e tão benquista não há pobreza. Nem favelas cabem em seu diminuto espaço. Obviamente essas pessoas não são residentes desse local tão prodigioso. De onde vieram, perguntam. Qual sua cidade “originária”, desejam saber. O objetivo é um só: mandá-los de volta. Aqui não há teto para quem não pode comprá-lo (e pagar muito pelo metro quadrado mais caro da região). Mas não pensem que isso é coisa recente. Que é invenção do atual prefeito. Não, isso é algo passado de padrinho a apadrinhado. Os mais jovens não sabem, ou se sabem ouviram como lenda urbana. É aquela história sobre um antigo prefeito, já falecido, que ordenava oferecerem dinheiro, quantia para um lanche ou no máximo dois, aos sem teto para que aceitassem entrar numa kombi (a lenda é bem específica, vejam) que os levaria para certa cidade litorânea. E lá os deixaria, claro. Eu mesma cheguei a esboçar um texto sobre o assunto, e o encontrei salvo no aplicativo do celular: “Talvez tenha economizado com o abrigo para, como seu mentor, mandá-los de volta para a tal cidade litorânea. Ou talvez até para algum destino mais distante. Quem sabe. Pois, ao que parece, morador de rua não vota.”. Não deu tempo de falar do passado; o presente se repete outra vez. Agora eu me pergunto para onde será enviada a menina com um bebê de colo (sendo ela mesma ainda uma criança) que me pediu um trocado na entrada do supermercado.

 

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Fragmentos #13

feliz

 

Sabe aquelas pessoas que estão sempre de bom humor? Pessoas cuja alegria é tão vistosa que a sentimos como uma eletricidade que faz as luzes acenderem mais forte. Pessoas cuja risada preenche todo o ambiente. Pessoas que pensamos nunca ter tido qualquer problema ou pesar na vida. Hoje, por mero acaso, algo que trouxe à memória a figura de uma pessoa assim. Engana-se quem pensa que ela não tinha suas dores e obstáculos. Muito pelo contrário. O amor de sua vida foi assassinado brutalmente ao seu lado; um latrocínio. O sangue jorrou em seu corpo como se ela mesma tivesse sido ferida. E tinha, na alma. Depois enfrentou um câncer de mama. Lembro de seu entusiasmo ao receber de minha avó, que na época vendia lingerie, enchimentos para igualar o tamanho de seus seios. Pessoas assim são especiais, nos inspiram. E mostram que às vezes temos que impor nossa felicidade em meio a esse mundo caótico.

Coisas que não faço mais: deixar de comer quando as coisas não estão bem; deixar de ler um bom livro para gastar o tempo com algo sem sentido; remoer problemas antes de dormir; achar que tudo é pessoal; seguir o trabalho de pessoas que só querem lucrar; perder a esperança; deixar de acrescentar itens a essa lista.

 

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