Manual de sobrevivência para dias terríveis

manual_bipolar2

Um guia com dicas simples e rápidas (que podem funcionar ou não) para quem tem um transtorno mental sobreviver aos dias mais difíceis.

Sabe quando a crise chega e se instala em seu sofá? Você quer que ela vá embora, mas parece que não irá se mover dali. Pior que isso, ela o obriga a ficar ao lado dela o tempo todo, enquanto faz seu discurso pessimista. No fim, depois de tanto criticar e humilhar todas as suas tentativas de resposta, ela vence. Você já nem lembra mais que tudo o que queria era que ela desaparecesse.

Nesse momento já não conseguimos fazer muita coisa. Falta energia para lutar. Nossas tentativas de melhora nessa fase precisam ser certeiras, simples, fáceis. Estamos em modo economia de energia. Ou melhor, estamos em modo escassez de energia. É o apocalipse. Por isso não darei dicas como praticar exercícios. Porque as dicas de hoje são para aqueles dias em que você está tão exausto que só de pensar em levantar e ir até a cozinha já sente náuseas. Sua cabeça está explodindo e seria impossível pensar em melhorar sua alimentação. A lista a seguir contém itens que levam 5 minutos para serem realizados e que eu mesma testei.

Respire. Apenas respire. Profundamente. Encha seu corpo de oxigênio, prenda a respiração por alguns segundos e, em seguida, solte todo o ar aos poucos. É possível encontrar vários artigos (científicos) que falam sobre a eficácia da respiração. Mesmo assim nem sempre damos valor a ela. Respiramos de forma errada, dizem os especialistas. Respiramos sem pensar (“ainda bem”, diria seu cérebro, já sobrecarregado de funções). Mas podemos nos concentrar em nossa respiração sempre que quisermos relaxar a mente e o corpo. Basta colocar a mão sobre o abdômen para sentir o diafragma encher de ar e inspirar somente pelo nariz. Você pode contar o tempo enquanto inspira, segura e expira. Por exemplo: conte lentamente até 3 ao inspirar; prenda o ar contando novamente até 3; e, por fim, expire contando até 6.

Toque. O contato físico com um ser vivo pode ser incrivelmente benéfico, especialmente em momentos de crise. Você pode abraçar seu cachorro, fazer carinho em seu gato. Pode abraçar um amigo ou familiar. Pode cuidar de uma plantinha. Não recomendo apertar forte os gatos, colocar a mão na boca de cachorro bravo, abraçar cactos ou esperar carinho de pessoas que não gostam de você. Fora isso, está tudo liberado. Mas precisa ser um contato físico. Ou seja, mandar emoji de beijo no WhatsApp não conta.

Fale. Esse item é o tal do desabafar. E é fato que colocar tudo para fora faz um bem danado! Além disso, você pode escolher a forma de fazer isso. É válido escrever, compor uma música, criar uma poesia, conversar com um amigo, ligar para o CVV (Centro de Valorização da Vida — ligue 188).

Ouça. Às vezes ficamos muito focados em nós mesmos e em nossos problemas, remoendo várias e várias vezes a mesma dor. Geralmente, agir dessa maneira só nos causa mais sofrimento. O oposto, entretanto, pode nos ajudar. Mude seu foco e ouça o mundo ao seu redor. Coloque uma música para ouvir. Pergunte a outra pessoa como ela está. Deixe sua voz interna de lado por um tempo.

Alimente. Precisamos de água e comida para sobreviver. Mais do que isso, nutrir o corpo faz bem para a mente. Então beba um copo cheio de água, coma uma fruta, saboreie sua comida favorita.

Acalme. Queremos respostas. Há um problema; queremos a solução. Infelizmente ficar pensando no problema não é garantia de conseguir resolvê-lo; muitas vezes acabamos sem respostas e com ainda mais perguntas. Dê um tempo para si mesmo. Acalme seus pensamentos. Medite, faça uma oração ou pense numa frase positiva. Deixe o problema ali no canto, e pode ser que a solução apareça quando você não estiver esperando.

Sorria. Bom humor faz tudo parecer mais fácil, mais simples, menos doloroso. E isso não é apenas uma impressão que temos, mas sim um efeito físico positivo que a risada nos causa. E você nem precisa estar com vontade de sorrir; basta mover os músculos da face em forma de sorriso que logo seu humor já irá melhorar. Se você tiver a habilidade de rir de si mesmo, pode fazer isso em frente a um espelho. Quanto mais bobo parecer, melhor. Mais engraçado será. Ou então prepare uma listinha de vídeos, filmes e séries divertidos para ver nos dias difíceis.

Por fim, ainda mais eficaz do que os itens acima é saber que dias terríveis sempre passam. Pode até demorar um pouco, mas a vida sempre está em movimento. Nós sempre estamos em movimento, em transformação. Talvez você precise de um tempo para chorar hoje, talvez já sinta que chorou demais. Talvez as lágrimas já nem caiam mais, ou então você nunca as deixa rolar pelo rosto. Pode ser que esteja no limite do cansaço, do estresse, da mágoa, do tédio, do sofrimento, das dificuldades. Mas não irá se sentir assim por muito tempo. Logo mais o coração deixará de ficar apertado, e será mais fácil ver a chegada dias melhores.

Anúncios

Ruídos

chuva depressão

 

Há ruído em toda parte. Dentro de mim. Em minha mente.

Meus neurônios estão cansados. Fios invisíveis trancam minha garganta. Minha voz é silenciada enquanto meus pensamentos gritam.

Há barulho fora de mim. Carros apressados, bombas atiradas, música estridente. Meus ouvidos são atingidos pelos berros dos que sempre querem falar mais alto.

Não ouço minha respiração profunda, mais uma vez.

Aumento o som da televisão. Não ouço meus pensamentos.

Desligo tudo. Os pássaros cantam de madrugada.

A chuva cai ritmada sobre as superfícies. E cada telhado produz um som.

Olho pela janela: vejo o mundo misturado com meu reflexo. As lágrimas, que poderiam se juntar às gotas de chuva, já não caem mais.

Encaro os barulhos internos. Converso com meus próprios gritos.

Encaro os barulhos externos. Os pássaros cantam ao amanhecer.

 

chuva bipolar

 

Eles

solidão depressão

 

Ela se sente impotente diante do mundo. Sua saúde e seu corpo a traíram. Sem dinheiro, ela fica à mercê dos que não precisam.

Ele está solitário. Seus pais se foram e não resta ninguém. Só existe o trabalho, a pressão e o estresse.

Ela come compulsivamente. Quer ocupar o vazio dentro de si. Depois expulsa todo o alimento do corpo. Precisa atender aos milimétricos padrões que cobram de todas.

Ela fala com desconhecidos no ônibus, para aplacar a solidão que nem sabe que sente.

Ele bebe mais do que deveria. Para acalmar a raiva e a angústia.

 

Ela agora corre maratonas.

Ela viajou com as amigas.

Ele mudou de emprego.

(Ou mudaram a dieta, ou começaram a meditar, ou agora encontraram o amor.)

Eles tentaram.

 

Ela, às vezes, chora; escondida.

Ele ainda se sente só quando está longe dos amigos.

Eles continuam vivos.

Duroneza

wonder-woman

 

Estou lendo O Ano em Que Disse Sim: Como dançar, ficar ao sol e ser a sua própria pessoa, da fantástica Shonda Rhimes, criadora, roteirista e produtora das séries Grey’s Anatomy, Scandal e How to Get Away With Murder. No livro, a escritora compartilha seus medos, angústias e ansiedades. Mostra que, apesar do que seria lógico imaginar de uma pessoa tão bem-sucedida, ela estava infeliz.

Então Shonda começou a investigar as causas desse sentimento e decidiu dizer “sim” para as oportunidades que antes negava.

 

Um trecho específico do livro me fez pensar muito:

“Posso ficar parada e fazer a pose da Mulher-Maravilha o dia todo, mas isso não me torna a Mulher-Maravilha. Porque, quando as mãos dela deixavam o quadril e ela ia embora, a Mulher-Maravilha jamais dizia à amiga: ‘Não, que isso, não sou heroína. O modo como o mundo foi salvo foi pura sorte.(…)’.

“A Mulher-Maravilha mataria essa versão de si. Ela atropelaria aquela vergonha de Mulher-Maravilha submissa e pudica com o avião invisível.

“A Mulher-Maravilha não finge.

“A Mulher-Maravilha é formada em duroneza.”

 

Shonda explica que “duroneza” é a sua palavra para a prática de conhecer e aceitar suas próprias realizações e habilidades. Duroneza é não se diminuir. Duroneza é valorizar o que você tem de bom. É abraçar a sua grandeza.

Mas, quando você tem um transtorno mental, torna-se difícil abraçar sua grandeza. Vejo muitas pessoas perguntando se algum dia encontrarão alguém que possa aceitá-las e conviver com seus defeitos. Vejo pessoas se criticando duramente. Muitos se sentem um fracasso total. Como se fossem um brinquedo quebrado, e sem conserto. Mas em todos há grandeza. Todos nós temos qualidades e habilidades. Só é preciso encontrar e praticar a duroneza.

15 minutos

ampulheta.jpg

 

“Não existem soluções mágicas.”. É o que penso toda vez que alguém me pergunta qual o melhor medicamento para determinado transtorno, ou como contar o diagnóstico para os amigos, ou como conseguir emprego, ou manter um relacionamento, ou qualquer outra pergunta direta para a qual se espera uma resposta definitiva. E milagrosa. E fácil. E acessível.

Não existe milagre. Nem “felizes para sempre”. Não há perfeição. E, para mim, saber disso já é como tirar o peso do mundo de minhas costas. Tudo bem se você falhar; sempre dá para recomeçar. Pois o que existe é trabalho árduo. E escolhas que você faz todos os dias.

Temos que lidar com as crises que espreitam, a carga mental que acompanha a doença e a falta de energia constante. Lidar com a desânimo que surge após um tempo, com uma visão um pouco pessimista sobre a vida. E então precisamos retomar a felicidade e o bem-estar.

Não há segredo. Não existe um método totalmente eficaz. Trata-se de pura resistência e equilíbrio. De encontrar algo que lhe dê satisfação. De tirar 15 minutos para recarregar. E usar esse tempo plenamente. Conversar com um amigo, familiar ou parceiro durante esses 15 minutos, sem ficar olhando para o celular. Meditar durante esse período. Brincar com seu animal de estimação. Ouvir músicas.

Não importa o que exatamente enche seu dia de alegria. Não importa qual é o seu “lugar feliz”. Basta lembrar de visitá-lo quando o ar ao redor ficar pesado. Quando o cansaço dominar seu corpo. Basta lembrar. Nós nos esquecemos de ser felizes no dia a dia. Deixamos de tirar um tempinho para nós. Não existem soluções mágicas. Mas às vezes 15 minutos fazem toda a diferença.

Depressão: uma questão socioeconômica

menino triste

 

Ainda hoje há quem diga que depressão é frescura. Com frequência já foi dito que depressão é uma “doença de rico”, ou de pessoas acomodadas e preguiçosas. E que gente trabalhadora não pode se dar ao luxo de ficar na cama. Mas a depressão nem sempre se manifesta da mesma forma. Além disso, as características pessoais e condições externas mudam a forma como reagimos aos sintomas.

Acima de tudo, os preconceitos relacionados aos transtornos mentais dificultam e até impedem que muitos casos sejam diagnosticados. Isso porque a disparidade econômica fica visível não só no acesso a médicos, terapeutas e tratamentos, mas também na percepção da doença.

Quando, por exemplo, uma pessoa olha ao redor e constata que suas condições de vida — tanto pessoais quanto profissionais — deveriam lhe proporcionar felicidade, mas que se sente infeliz, é fácil concluir que há algo errado. Se esse indivíduo tem tudo aquilo com que sempre sonhou, possui sucesso, beleza, amor, prestígio, e sente que nada disso faz sentido, que nada lhe dá prazer, logo irá desconfiar que pode ter depressão.

Por outro lado, quando uma pessoa olha ao redor e só enxerga miséria, dificuldades e sofrimentos, será improvável que imagine que seu desânimo e sua insatisfação com a vida têm origem numa doença mental. Parecerá lógico que sua infelicidade é consequência direta de uma vida infeliz. Afinal, depressão é “doença de rico” e, dessa forma, nunca será nem cogitada como uma possibilidade.

Mas os transtornos mentais afetam igualmente todas as camadas socioeconômicas da sociedade. As mais carentes, entretanto, seriam as mais beneficiadas por uma maior possibilidade de diagnóstico e tratamento. Quem já teve depressão grave sabe o quanto é devastador caminhar sem rumo e sem energia pela trilha sombria da doença. As dificuldades se colocam como gatilhos para mais e mais crises. O transtorno mental se entrelaça em sua mente, impossibilitando enxergar saída ou buscar uma mudança. Aqueles que se encontram cercados por miséria e dor entram numa espiral de mais sofrimento. E não conseguem lutar sozinhos contra tantos obstáculos.

Por isso é necessário falar mais — e sem preconceitos — sobre essas doenças. É essencial fornecer melhor atendimento e promover a saúde mental em todos os locais e para todas as pessoas.

 

Em O Demônio do Meio-Dia, Andrew Solomon aborda as correlações entre depressão e condições financeiras, visando demonstrar o quanto o tratamento adequado pode promover mudanças significativas na vida de muitas pessoas. O apoio necessário e a busca pela saúde mental pode efetivamente ajudar esses indivíduos a saírem da situação de pobreza. 

 

menino triste2

 

Serieterapia (parte 4)

happy

 

O que realmente importa para a felicidade? Essa é a pergunta central do documentário Happy (2011), disponível na Netflix. Foi dirigido por Roko Belic, cujo documentário de estreia, Genghis Blues (1999), foi indicado ao Oscar. O diretor e produtor também foi indicado por Long Night’s Journey Into Day (2000), no qual aborda o Apartheid na África do Sul. Conhecido por mostrar histórias impactantes ao redor do mundo, Roko Belic investiga a felicidade na Índia, Japão, Namíbia, Estados Unidos, Dinamarca, Brasil, Butão e outros países, intercalando a jornada dos entrevistados com o depoimento de psicólogos e neurocientistas.

Como o filme é de 2011, muitas das pesquisas científicas citadas já foram amplamente divulgadas pela mídia, e talvez você já saiba qual opção entre busca por dinheiro, imagem e status ou busca por crescimento pessoal, relacionamentos e sensação de comunidade traz mais felicidade. Mas saber não muda o efeito de tudo o que é dito e mostrado. Happy funciona com uma forte sacudida, um chacoalhão, quando mais precisamos.

O documentário já começa causando forte impressão ao mostrar a casa de um condutor de riquixá numa favela em Calcutá. Ele afirma ter uma boa casa. Um lado da moradia é coberto e protegido por uma lona, e o outro é aberto, permitindo a circulação de ar. “Durante a monção, temos problema com a chuva entrando. Exceto por isso, vivemos bem”, ele continua. Sua alegria é retornar ao lar e encontrar seu filho o esperando. Diante dessa declaração, o que resta ao espectador é começar a questionar o que é a riqueza e o que é a felicidade.

 

happy2

 

happy3

 

O filme ainda destaca a importância de nos unimos em comunidades e nos apoiarmos. Além disso, o empenho para tornar o mundo um lugar melhor pode contribuir para a nossa felicidade. Fica a reflexão sobre como podemos dar as mãos e trabalhar para aumentar os níveis de bem-estar, felicidade e saúde mental, tanto os nossos quanto daqueles ao nosso redor.