10 dicas e 1 segredo para conviver com a bipolaridade

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Aprendi muito ao longo de duas décadas convivendo com o transtorno bipolar. Aqui estão algumas dicas muito importantes, que fazem toda a diferença, mas que nem todos seguem. Além delas, compartilho o meu segredo para vencer o transtorno bipolar.

1. Tenha um psiquiatra de confiança para dar o diagnóstico e prescrever o tratamento medicamentoso.

2. Se não estiver satisfeito com o tratamento, explique os motivos e peça para mudar.

3. Se não estiver satisfeito com o atendimento, procure outro médico.

4. Não tenha receio de fazer perguntas ao seu psiquiatra. Não saia do consultório com dúvidas.

5. Não tente esclarecer suas dúvidas com o coleguinha que também é bipolar; ele pode acabar passando informações erradas.

6. Siga corretamente as orientações médicas. É muito perigoso se automedicar e tomar doses de psicotrópicos maiores dos que as indicadas. Da mesma forma, é extremamente perigoso interromper o tratamento medicamentoso sem orientação profissional.

7. Faça terapia! E faça com vontade, não apenas porque o psiquiatra indicou. A psicoterapia demora a dar resultados e depende do seu esforço, mas o que você aprende muda sua vida para sempre.

8. Busque informações sobre sua doença: leia livros, blogs, artigos. Vá a palestras. Entenda como funciona seu transtorno e quais são os sintomas.

9. Aprenda a monitorar os sintomas e distinguir as oscilações de humor e as diferentes características da depressão e da mania. Assim será possível identificar quando uma crise se aproximar.

10. Melhore sua qualidade de vida! Busque ter uma alimentação melhor, praticar exercícios, fazer meditação, ter hobbies interessantes, valorizar seus laços afetivos, ter um animal de estimação, além de cultivar várias outras formas de cuidar da saúde mental.

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E qual o meu segredo?

Bom, muito se fala sobre identificar os gatilhos e quando as crises se aproximam, e isso realmente é importantíssimo. Mas ninguém fala sobre o quanto é essencial saber reconhecer a estabilidade. E o que fazer neste momento. Pois é necessário saber de forma consciente o momento em que a crise vai embora e você volta a se sentir bem, para agir e prolongar esse período. Usando a última dica, melhorar a qualidade de vida é vital. E fazer isso quando estamos bem torna possível fazer com que a estabilidade que duraria semanas passe a durar meses. Mais que isso, quando você dá valor ao período de estabilidade faz com que a próxima crise possa vir menos intensa. Então uma crise que poderia durar meses pode ir embora em dias, e você voltará logo a mais um período de estabilidade e bem-estar. E é isso que faz portadores de transtornos mentais terem uma vida melhor.

Qual o seu segredo para conviver com uma doença mental? Compartilhe suas dicas nos comentários!

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Como diferenciar personalidade de sintoma (com áudio)

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Às vezes é preciso inovar. Verdade. Caso contrário, ficamos estagnados. Por isso, hoje resolvi fazer algo diferente. E, ao invés de escrever um texto, gravei minha própria voz para conversar com você sobre a importância de diferenciar entre aquilo que é uma caraterística de nossa personalidade e os sintomas de transtornos mentais. Peço desculpas pela gravação caseira e pela voz um pouco anasalada – estou no meio de um resfriado, mas pensei “faço agora ou acabo não gravando”, e fui com resfriado e tudo! Eu espero que gostem!

 

Leia os posts citados no áudio:

Pessoas Altamente Sensíveis

Além do remédio e da terapia: outras formas de cuidar da saúde mental

 

Gostou do áudio e dos textos e quer saber mais sobre Transtorno Bipolar? Confira meu livro Árvores Tímidas, disponível na Amazon

Livro Árvores Tímidas: Um livro sobre Transtorno Bipolar

Já leu o livro e gostou (ou não)? Avalie na Amazon, pois sua opinião é importante para outros leitores. E também para eu saber o que você achou do livro! 😉

 

Abraços! E até mais!

A bipolaridade e a libido

Falamos bastante sobre as oscilações de humor que ocorrem na bipolaridade. Mas há outro tipo de oscilação no bipolar, uma bem menos comentada, uma ligada a um grande tabu – o sexo. Sim, ocorrem grandes mudanças no desejo sexual do bipolar em cada fase da doença. Temos um aumento da libido na mania, e diminuição na depressão. Além de uma grande diminuição do desejo associada ao uso da maioria dos medicamentos antidepressivos e estabilizadores de humor.

Mas, antes de falar mais sobre essas oscilações na vida sexual, vamos pensar um pouco sobre o conceito de libido. Libido, para Freud, era uma energia obtida através dos instintos de sobrevivência e sexualidade. Estava ligada à pulsão de vida e pulsão de morte – Eros e Tânatos. Na mitologia grega Eros é o deus do amor, e Tânatos o da morte. Então temos que a pulsão de vida é uma tensão que nos leva a continuar vivendo, buscando nossa autopreservação, nossa sobrevivência e de nossa espécie – em Eros está contido o desejo sexual. Mas do outro lado há Tânatos, cujo objetivo é a morte, é cessar todas as tensões. E então temos dentro de nós esse conflito entre os opostos.

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Nos transtornos afetivos o conflito é expresso através da vontade de recuperação versus a ideia de desistir do tratamento. E no transtorno bipolar as crises tanto alimentam Eros quanto Tânatos.

Na mania a busca pelo deus do amor, filho de Afrodite, conhecido como Cupido pelos romanos, reina e nos afasta dos pensamentos. Tudo é energia e excesso de energia, libido e compulsão. Não é apenas o desejo sexual que aumenta na mania. É a busca incessante por tudo aquilo que possa manter a empolgação – sexo, bebidas, drogas, compras, jogos. Há um vazio que é preenchido pela diversão, mas só por alguns segundos. Depois, é preciso mais e mais. E não importa a que preço. É onde entra Tânatos – na irresponsabilidade e exposição ao risco do bipolar em mania.

A depressão, por outro lado, é governada pelo deus da morte, que nos prende à cama onde lentamente definhamos. Falta vontade e energia para tomar banho e comer. O sexo, então, fica no fim da lista de tudo aquilo que não interessa mais ao depressivo. O que antes era prazer virou pressão, obrigação ou algo que não tem mais graça nem faz sentido. Eros só aparece no amor pelo outro idealizado e ausente, naquele que não possui um parceiro, mas deseja ter um. Ou na figura de apoio do parceiro que ajuda o bipolar a sair da depressão.

É fazendo a comparação com a depressão que o efeito dos medicamentos se torna mais claro. Parece lógico que alguém que não tem ânimo nem para levantar da cama não queira fazer sexo. Mas e quando a pessoa inicia o tratamento e começa a desempenhar as atividades diárias e não volta a sentir desejo sexual? Fica difícil para o parceiro e até mesmo o bipolar compreender como o aumento da substância da felicidade no cérebro pode diminuir a do desejo.

Mas somos muito mais que neurotransmissores agindo sobre nossas emoções. A libido não vem apenas do instinto sexual, mas também do de sobrevivência. E é assim que podemos reencontrar Eros em sua plenitude: no desejo de se sentir bem e na escolha pela vida. Eros traz o prazer de volta quando queremos senti-lo. A atração pelo outro é maior quando nos sentimos igualmente atraentes. E a libido aumenta na mesma medida em que for melhor seu relacionamento – não apenas com o outro, mas principalmente com você mesmo.

 

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Este post é especialmente dedicado a Mariah Hoffmann, do Blog da Mariah, que sugeriu o tema bipolaridade e desejo sexual.

Acho que sou bipolar. E agora?

Não é incomum uma pessoa ler ou ouvir sobre as características de transtornos mentais, como o transtorno afetivo bipolar, e se identificar com elas. Não é raro enxergarmos nossas emoções nos momentos mais intensos como uma enorme montanha-russa. Então como agir se passamos a crer que tal montanha-russa acelera e faz curvas muito mais intensas, e que quase nos arremessa para fora de nosso assento, como ocorre na bipolaridade? O que fazer quando o sofrimento deixa de ser uma consequência administrável dos obstáculos da vida e se torna algo incapacitante? Por ser o diagnóstico um assunto tão complexo, trago aqui algumas orientações e sugestões, quase um passo a passo para começar a tratar uma doença mental.

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1. Devemos ter um mente que um diagnóstico de doença mental só pode ser realizado por um profissional. Portanto, o primeiro passo é não tentar se autodiagnosticar através de pesquisas na internet, e tampouco permitir-se ser diagnosticado por aquele amigo ou conhecido do Facebook que é bipolar.

2. Agora é a hora de marcar a consulta com o especialista, que deve ser um psiquiatra. Você pode pesquisar um psiquiatra de confiança e boa reputação, pedir recomendações a amigos e familiares, ou pedir um encaminhamento psiquiátrico para o seu médico clínico geral. Lembrando que o sistema público de saúde garante o atendimento psiquiátrico. Assim, se houver uma queixa e o paciente desejar se consultar com um psiquiatra é seu direito ser diagnosticado por um especialista.

3. Cabe neste momento pedir apoio a pessoa de confiança, caso você se sinta confortável para isso, e pedir que esta pessoa o acompanhe na consulta. É natural, entretanto, que quem busca o tratamento psiquiátrico tenha receio de falar sobre o assunto, por conta de todo o preconceito que acompanha os transtornos afetivos. Se este for o seu caso, tudo bem se quiser passar diretamente ao próprio passo. Ter um familiar ou amigo presente neste momento pode ajudar a lidar com o diagnóstico. Mas o fator essencial aqui é buscar o entendimento e o tratamento da doença, com ou sem esse suporte familiar.

4. Passar por uma consulta médica pode nos deixar nervosos e desconfortáveis, sem saber bem como agir ou o que dizer. Por isso, é interessante anotar antes seus sintomas e tudo aquilo que o levou a buscar ajuda. Você tem insônia, sente raiva desproporcional e incontrolável diante de problemas, tem pensamentos suicidas, sente desânimo e não consegue desempenhar suas atividades cotidianas? Tudo isso pode entrar nas suas anotações, e poderá facilitar o diagnóstico.

5. Chegou a hora da consulta. Conte ao psiquiatra suas queixas, fale sobre suas anotações e responda as perguntas que ele lhe fizer. Neste momento, o médico dirá qual a hipótese diagnóstica – bipolaridade, depressão, transtorno de ansiedade, etc. – e explicará como será o tratamento. Friso que o diagnóstico ainda é uma hipótese, pois é necessário mais de um encontro para confirmá-lo. Doenças mentais podem possuir sintomas parecidos e muitas vezes os pacientes têm mais de um transtorno agindo ao mesmo tempo. Por isso um diagnóstico pode levar anos para ser confirmado corretamente. Mas não se desespere; tendo cuidado e observando sempre os sintomas esse período pode sim ser consideravelmente encurtado, e um diagnóstico poderá ser feito em bem menos tempo.

6. Nessa primeira consulta é essencial que o médico peça uma série de exames que deverão ser feitos antes do início do tratamento com a medicação. Tais exames clínicos são fundamentais, uma vez que os remédios possuem efeitos colaterais consideráveis e não poderão ser ingeridos quando o paciente possui uma condição médica anterior que poderá ser agravada pelo princípio ativo e componentes da medicação. Por exemplo, alguns remédios aceleram o batimento cardíaco; assim, se você tiver um problema no coração, essa medicação seria muito prejudicial à sua saúde. Então, de acordo com seu diagnóstico, intensidade dos sintomas e outros fatores, o psiquiatra avaliará qual a melhor medicação, e quais exames serão necessários para garantir que você possa usá-la. Caso o médico lhe dê as receitas de remédios antes de realizar qualquer exame, desconfie. E sugiro que volte ao item 2 dessa lista.

7. Agora você já passou com psiquiatra, fez os exames e começou a tomar os remédios prescritos. O próximo passo é retorno com o psiquiatra. Ele vai analisar sua resposta ao medicamento e, se necessário, ajustar a dose ou até mesmo mudar a medicação. Pode ser muito útil continuar anotando como você sente após começar a tomar os remédios. Um ótimo método para registrar os seus sintomas é fazer um diário em tópicos, sobre o qual eu já falei aqui: Como usar um diário em tópicos para monitorar sintomas.

8. O tratamento medicamentoso é apenas uma parte da caminho para lidar com uma doença mental. Outra peça fundamental para fazer girar bem essa engrenagem – o nosso cérebro – é a aceitação da doença. A partir daí podemos compreender como funciona nossa condição e desenvolver estratégias para vivermos melhor. Podemos criar ferramentas extremamente eficazes para evitar que uma nova crise se aproxime e para ter maior controle sobre nossos pensamentos, emoções e ações. E há um profissional que pode nos auxiliar nessa gigantesca tarefa, o psicólogo. Então é altamente aconselhável buscar a psicoterapia nesta fase do tratamento. Para isso, é bom conhecer as diferentes linhas da Psicologia e descobrir com qual se identifica mais. Não precisa se tornar especialista, mas ter uma ideia das diferenças entre as abordagens ajuda muito na hora da escolha. Sei que muitas pessoas têm resistência quando falamos em psicoterapia, mas torno a ressaltar que entender a doença é fundamental. E este passo é essencial para o bem-estar futuro. E digo futuro porque precisamos entender que leva tempo para a terapia promover mudanças. Tempo e dedicação. Tempo, dedicação e entrega. E a lista continua. Mas, olhando por outro lado, recordo a fala do psiquiatra e psicanalista Alfredo Simonetti ao afirmar que uma pessoa pode tomar remédio por 5 anos, mas após parar de tomá-lo voltará a ser como antes. Uma pessoa, entretanto, que fez psicoterapia durante 5 anos e parou não volta a ser como antes. O remédio não nos ensina nada, mas a terapia promove transformações para a vida inteira.

9. Chegamos ao estágio em que você toma suas medicações e faz terapia. Mas pode ser que esses tratamentos não funcionem para você, ou que sejam insuficientes para que tenha qualidade de vida. E agora? Bom, você pode aliar os tratamentos convencionais para doença mental – medicamentoso e psicoterapia – a outros fatores que contribuem para o bem-estar. Fiz uma lista deles aqui: Além do remédio e da terapia: outras formas de cuidar da saúde mental.

10. O último passo é como continuar cuidando da saúde mental. Perguntas continuarão em sua mente, tais como “preciso tomar remédio para sempre?” ou “por que continuo tendo recaídas?”. A resposta é que cada diagnóstico (e prognóstico) é único e as doenças mentais se manisfestam de forma específica em cada pessoa. Em alguns casos, é possível que a pessoa deixe de tomar remédios, com auxílio dos passos 8 e 9 (mas somente se já estiver estabilizada e com orientação do médico, ok?). Noutros casos é necessário continuar com a medicação, mas talvez possa diminuir a dose. Tudo irá depender de um enorme conjunto de fatores. O que não muda é a importância de cuidar de nós mesmos, estar atento aos sintomas, buscar ajuda quando precisar e tentar sempre se sentir melhor.

Pessoas Altamente Sensíveis

Mesmo correndo o risco de soar repetitiva, acabo sempre frisando a importância de falar sobre doença mental. Em textos, conversas e comentários destaco a necessidade que ainda temos de explicar como de fato são os transtornos psíquicos, para desfazer equívocos e diminuir a psicofobia. Mas falar sobre saúde mental não é importante somente para que entendamos melhor as doenças e seus sintomas e possamos combater o preconceito e o estigma associado aos transtornos. Falar mais e mais também estimula e realização de mais pesquisas na área da Neurologia voltada para doenças mentais. Ainda há muito a descobrir sobre o cérebro, as causas e a cura de transtornos afetivos. Na verdade, as causas da maioria das doenças mentais ainda são desconhecidas, e só temos hipóteses do porquê surgirem e de que forma. Também não sabemos exatamente como os medicamentos agem no cérebro, apenas observamos resultados, sem conhecer todos os efeitos. Recordo minhas aulas de Neuroanatomia e Neuropsicologia na faculdade, há quase uma década. E vejo que poucas descobertas relevantes foram feitas desde então. O cérebro é misterioso, e impõe a nós uma série de obstáculos para desvendá-lo.

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Mas, ao olhar ao redor, vejo um interesse cada vez maior em conhecer as doenças psíquicas, desvendar como ocorrem as emoções e descobrir as características de nossos traços de personalidade. E é sobre este último que falaremos agora. Especificamente sobre um traço de personalidade que corresponde a cerca de 20% da população, conhecido como Pessoas Altamente Sensíveis (PAS).

Durante muito tempo as PAS foram chamadas, de forma equivocada, de excessivamente emotivas ou extremamente tímidas. Mas as pessoas altamente sensíveis na verdade são indivíduos que possuem uma grande capacidade de empatia e, por isso, acabam absorvendo a energia do ambiente. Sabe quando você está conversando com uma pessoa que só reclama da vida e começa a se sentir mal ou desanimado? Uma pessoa altamente sensível sente esse efeito de forma muito intensa, o que a abala emocionalmente. E sentem-se muito desconfortáveis quando cercadas por negativismo, tristeza e/ou violência. Até mesmo filmes e jogos violentos podem causar aflição a alguém com esse traço de personalidade.

A sensibilidade das PAS se manifesta também de forma enfática através dos sentidos – visão, audição, olfato, paladar e tato. Um ambiente barulhento e caótico, com muitas pessoas e situações ocorrendo ao mesmo, sobrecarregam as PAS. Por isso pessoas altamente sensíveis preferem ambientes calmos e passar mais tempo sozinhas. Essa necessidade de espaço e sossego faz com que sejam consideradas tímidas. A timidez, entretanto, surge do receio de um julgamento negativo por parte do outro, o que cria uma barreira para a pessoa tímida desenvolver relações. As PAS, por outro lado, podem ser comunicativas, mas, por sentirem tudo mais intensamente, precisam de um tempo a sós para recuperarem a energia.

Muitos são os equívocos relacionados às caraterísticas desse traço de personalidade. Engana-se quem pensa que somente mulheres são pessoas altamente sensíveis; as características de PAS são igualmente observadas em homens e mulheres. Também não são pessoas fracas, apenas sentem com mais intensidade e preferem evitar conflitos. Mas PAS podem se sentir pressionadas pela sociedade, dependendo também da cultura em que estão inseridas, a mudar suas características. PAS podem chorar com maior facilidade e reagir mais intensamente a críticas, o que costuma ser mal visto. PAS também podem acreditar que deveriam ser mais sociáveis, e acabam se colocando em situações desconfortáveis. Mas é preciso ter atenção e respeitar seus limites. E também ficar atento, pois pessoas altamente sensíveis podem ser mais propensas a desenvolver depressão e ansiedade se tiverem sido expostas a muitas situações traumáticas e sofrimento. Além disso, vale destacar as características das PAS se devem a questões biológicas que fazem com que o cérebro processe as informações e reaja a elas com maior intensidade. Assim, é essencial para a saúde das PAS que se protejam do estresse e da sobrecarga emocional.

Por outro lado, as características das PAS podem ser benéficas à saúde mental, caso vivam num ambiente saudável. Pessoas altamente sensíveis conseguem expressar seus sentimentos com facilidade e de forma mais precisa. Também sentem-se bem sozinhas e podem tirar grande proveito dos momentos a sós. Elas analisam com frequência os próprios sentimentos. No trabalho, podem se destacar pela atenção aos detalhes, criatividade e grande senso artístico. Pessoas altamente sensíveis também são capazes de fazer uma leitura apurada do ambiente e das outras pessoas, percebendo o que o outro sente e pensa, e notando rapidamente o que pode causar desconforto às pessoas. Por exemplo, notam se a luz do ambiente está muito forte e se isso está incomodando as pessoas. Além disso, por conta do forte sentimento de empatia, PAS estão mais dispostas a ajudar outros indivíduos.

Você se identifica com essas características ou conhece uma pessoa altamente sensível? Então me conta aqui nos comentários!

 

 

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Texto escrito especialmente a pedido da Gerlusa, do blog Agridoce ❤

Autobiografia e o coletivo

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Escrever um livro é tarefa árdua. Dia após dia palavras se somam na tela ou no papel. Cria-se um conjunto de significados, uma história que espera-se ter relevância. E dia após dia, mais e mais palavras na tela ou no papel. Em certos momentos a frase não surge, a folha permanece em branco. E pensamos em desistir; e relemos nosso trabalho e não o consideramos bom o bastante; e esbarramos em conjuntos de obstáculos. Por isso é preciso ter um motivo forte que o faça continuar.

Quando comecei a escrever meu livro, sabia que contar minha própria vida significava contar uma história que não era só minha. Uma história que pertencia a todos que passaram pela mesma experiência. E é justamente sobre essa função da autobiografia – como uma literatura que vai além de falar de si mesmo – que fala o texto de minha amiga Elaine Rodrigues, do blog e-Redigindo (link abaixo). O texto também cita meu livro como exemplo! ❤

Como escrever uma autobiografia?

Além do remédio e da terapia: outras formas de cuidar da saúde mental

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Quando falamos em doença mental, logo pensamos em Psiquiatria e Psicologia. Pensamos em medicamentos e psicoterapia. E estes são, de fato, os principais tratamentos para transtornos de humor e de personalidade. Mas, infelizmente, têm se mostrado insuficientes. Muitos pacientes não respondem à medicação, ou tomam e não apresentam melhora significativa. Além do mais, os medicamentos atuam nos sintomas, não nas causas das doenças, que ainda permanecem desconhecidas em sua totalidade pela ciência. Retirada a medicação, os sintomas retornarão. Temos aqui outra questão preocupante: muitos remédios, como os benzodiazepínicos, causam grande prejuízo aos indivíduos quando tomados de forma abusiva e/ou a longo prazo. Outros possuem graves efeitos colaterais, se apresentam de forma mais pronunciada após anos de ingestão.

Quanto à psicoterapia, podemos encontrar outras problemáticas. O tratamento requer um longo período para começar a aliviar os sintomas. As pessoas desanimam antes mesmo de começarem a fazer progressos. Além disso, é necessário que o esforço venha do indivíduo em tratamento – a disposição para compreender os sintomas, aprender a lidar com eles e, até mesmo, “cutucar” as feridas psíquicas. E um paciente em meio a sofrimentos tão incapacitantes normalmente não conseguem enxergar a possibilidade de melhora num prazo tão distante.

Há também outras questão que dificultam essas formas de tratamento, como preço elevado de remédios e consultas com especialistas, grandes falhas no sistema público de saúde e, muitas vezes, uma formação e atuação deficientes nas duas áreas. Claro que também podemos encontrar o oposto – bons profissionais que indicam e orientam os pacientes em tratamentos que trazem grande melhoria à sua qualidade de vida. Mas, pelo que observo, ainda que em tratamento, as pessoas não estão se sentindo melhores, suas crises não se mostram menos intensas e mais administráveis, o risco de suicídio não está diminuindo, e as pessoas não estão recuperando o controle de suas vidas.

Observo também uma busca e indagação maior acerca de outras formas de tratamento, que podem ser complementares aos medicamentos e psicoterapia. Tais práticas atuam na melhora da saúde mental e podem tanto ajudar a aliviar sintomas quanto prevenir o aparecimento de doenças mentais. Por isso trago hoje uma lista de hábitos saudáveis para uma boa saúde mental.

 

Sono de qualidade

Dormir bem é o principal fator para começar a falar de saúde mental. A falta de boas noites de sono causa irritação, confusão mental e mal-estar, e, em muitos casos, desencadeia crises em portadores de transtorno bipolar, depressão, ansiedade e outras doenças. É também a falta de sono que leva ao abuso de medicamentos, o que pode comprometer a saúde como um todo. Dessa forma, é importante valorizar uma rotina de sono – se possível, sem o uso de remédios – e criar suas próprias estratégias para dormir melhor. Recomendo deixar o celular de lado e ler um livro antes de dormir. Também é válido deixar as preocupações de lado. Se a mente não conseguir parar de remoer tristezas, preocupações e arrependimentos, escreva os principais num papel. É sinal para a mente de que aquilo tudo está agendado para outro momento. Então pense numa cena tranquila, uma paisagem ou imagem que traga relaxamento – e bom sono!

 

Boa alimentação

Estamos cansados de ouvir que uma alimentação ruim, cheia de gorduras e composta de fast food e frituras, faz muito mal ao nosso organismo. Mas já parou para pensar que esse tipo de alimentação nada nutritiva pode fazer mal à sua mente também? E se eu disser que uma alimentação equilibrada pode fazer o oposto e promover bem-estar físico e mental? Há algum tempo compartilhei aqui no blog minha experiência com a ingestão de açaí para melhorar os sintomas do transtorno bipolar – Eu testei: açaí para bipolaridade e Eu testei: açaí para bipolaridade (parte 2). Mas muitos outros alimentos podem melhorar o nosso humor, como os ricos em triptofano (leite e derivados, banana, abacate, ovos e outros), os com poder anti-inflamatório (os ricos em ômega 3, frutas cítricas, alho, gengibre e outros) e os probióticos. De qualquer forma, vale lembrar que o que faz bem ao nosso corpo pode fazer bem à nossa mente.

 

Exercícios físicos

Praticar atividades físicas e esportes é uma maneira eficaz de cuidar da saúde mental. Dentre os benefícios estão: previne a demência, melhora o humor, diminui o risco de acidente vascular cerebral e promove mais energia e motivação. São várias as modalidades de esportes que podemos praticar – tanto em ambiente fechado, como academias, quanto ao ar livre. É válido encontrar as atividades que combinem com suas preferências e rotinas, para evitar abandonar a prática após pouco tempo.

 

Arteterapia

Temos aqui outra forma de terapia, conduzida por um profissional. Produzir arte é sempre benéfico – seja pintar, escrever, desenhar, produzir artesanatos, tocar instrumentos, atuar, etc. – mas na arteterapia o foco está em tratar as questões psíquicas através da arte. Dessa forma, o ato de interagir com a arte facilita que os conteúdos do inconsciente apareçam e possam ser analisados e compreendidos.

 

Hobbies e aprender algo novo

Ter aquele tempinho de lazer para fazer aquilo que faz bem é essencial. Pode ser desde ler um livro a cuidar de um jardim, passando por todo passatempo que lhe traga satisfação e possibilite ter um tempo para se desconectar dos problemas e recarregar a bateria. O aprendizado e a descoberta de novas atividades é tão saudável quanto praticar um hobby, e pode levar à descoberta de outras atividades estimulantes.

 

Animais de estimação

Ter um pet pode ser como ter um melhor amigo morando na mesma casa. E também nos ajuda a ter uma boa saúde mental. Os animais que nos fazem companhia afastam a solidão, nos dão amor e carinho e criam em nós um senso de responsabilidade – temos ali um ser vivo que precisa que estejamos bem para cuidar dele.

 

Meditação

Muitas pesquisas científicas foram realizadas para comprovar os efeitos da meditação em nossos corpos e mentes. Hoje sabemos que a meditação pode melhorar o sono, diminuir a ansiedade, melhorar o humor e reduzir o estresse. A meditação também atua no cérebro nas áreas ligadas à cognição e memória, retardando o envelhecimento. A prática de meditação, assim como observado em algumas práticas de oração, estimula o hipotálamo, gerando uma sensação de prazer. E aumenta a interconexão entre as áreas cerebrais, o que promove maior equilíbrio emocional.

 

Laços sociais

Nós somos seres sociais. Precisamos estar em contato com o outro. Mas vemos uma mudança significativa em nossa forma de criar laços. Antes vivíamos em pequenas comunidades onde todos se conheciam e apoiavam. Hoje vivemos em metrópoles, megalópoles, imensos centros urbanos nos quais vivemos isolados, cada um em sua própria bolha de espaço pessoal. A tecnologia também trouxe mudanças em nossos relacionamentos – por um lado, encurtou distâncias e aproximou os que estavam longe; por outro, diminuiu o contato físico e colocou as interações no campo do virtual, do impalpável. Talvez tais mudanças estejam contribuindo para o adoecimento e o aumento do sofrimento das pessoas. O que posso afirmar, sem dúvida, é que uma rede de apoio – ter pessoas queridas e presentes que forneçam apoio, carinho e compreensão – é essencial para a recuperação daqueles que possuem um transtorno afetivo e para garantir uma boa saúde mental.

 

Significado e lugar no mundo

Trabalhar é importante. É mais do que poder pagar as contas todo mês. É mais do que ter uma renda que possibilite comprar algo que queira ou pode viajar nas férias. Mais do que ter um salário que permita sair para comemorar com amigos e pagar aquela pizza da sexta ou sábado à noite. Mais do que criar laços com colegas de trabalho. É ter um propósito e ser produtivo. É sentir-se útil na sociedade. Mas nem todos os empregos proporcionam esse significado. Às vezes só enxergamos neles a possibilidade de pagar as contas. Noutras vezes desempenhamos uma função que até nos causa desconforto e mal-estar. Mas sempre há uma forma de nos sentir fazendo o bem através de nosso trabalho, através do nosso esforço. Podemos criar algo que traga melhorias para a sociedade, ou buscar uma forma de ajudar outras pessoas (talvez, quem sabe, escrever sobre saúde mental rs). E podemos fazer trabalho voluntário – o que pode, além de promover uma boa causa e ajudar quem precisa, nos fazer muito bem.

 

Atitude mental

Sim, a vida pode ser terrível, destrutiva, desoladora. Pode dar tudo errado, e você pode se sentir péssimo o tempo todo. Mais que isso, você pode ter uma doença mental que distorce suas emoções, paralisa sua vida, rouba sua alegria e disposição. Mas não será possível enfrentar tudo isso sem desejar de verdade ficar bem. É uma batalha, e só é possível vencê-la usando todas as armas. E isso inclui desenvolver uma atitude mental positiva. É evitar ficar reclamando dos problemas. É começar a dar valor a pequenas coisas que nos fazem bem: um belo dia de sol, um chocolate quente antes de dormir… Não digo que seja fácil. Vou logo avisando, requer esforço diário e gigantesco. Mas é possível. E vai ficando cada vez menos difícil. É começar a correr: no primeiro dia você desaba após poucos metros, totalmente sem fôlego; no segundo, consegue um pouco mais; e depois, com muito treino, é capaz de correr uma maratona.

 

São inúmeros os caminhos para aprender a correr esta maratona. Em meu livro eu cito a importância da fé e da religião para lidar com doença mental, no sentido que promovem uma confiança na recuperação e uma comunidade com as quais as pessoas podem se relacionar e encontrar apoio. Terapias alternativas também estão sendo muito difundidas e, embora não haja comprovação científica de sua eficácia, quando falamos em saúde mental não podemos descartar o valor daquilo que pode trazer conforto e bem-estar. Conforto é uma das palavras-chave do Hygge, conceito trazido da Dinamarca, que fala sobre encontrar prazer e felicidade nas pequenas coisas (algo bem parecido com o que citei acima, mas que vai além e busca ativamente trazer o conforto para nossas vidas). O importante é saber que não precisamos escolher um único caminho, uma única prática, um único tratamento. A maravilha desses hábitos é que podemos incluir quantos quisermos em nossas vidas, que eles podem ser complementares à medicação e psicoterapia, e que quanto mais pontos de apoio tivermos mais rápida e fácil será a recuperação de nossa saúde mental.

 

 

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Este post é dedicado à minha amiga Cristileine Leão, do blog Depressão com Poesia ❤