Ismos

Me convidam para falar sobre minha cor

Ganho palco e microfone

“Diga”, me pedem

“Ensine”, demandam

Sigo a cartilha e ganho aplausos sem valor

Sem mudança, sem compreensão

Acabou meu tempo, cronometrado

Quero dizer das flores, dos amores

Que há céu e terra, oceanos e estrelas

Mas só tenho permissão para discutir

Meu lugar social apertado

 

Me convidam para falar sobre meu sexo

Minha voz ecoa no silêncio

Os olhares que me admiram

São os mesmos que me cobiçaram

E me cobiçarão

Então saio falando de números,

de planetas, de animais, de minerais,

De tudo o que trago em mim.

Escolho ignorar

Que escolhem me ouvir

Só em dias específicos do ano.

 

A casa

A casa continua em pé

Vejo uma rachadura na parede

E me desespero

Passadas algumas horas, no entanto,

Já sou capaz de sentar-me no sofá para apreciar

Os desenhos complexos

Tempos depois, é preciso mudar

Se estoura um cano

Será inevitável deixar a água jorrar,

Fluir, seguir por corredores,

Encharcar pisos, sair pelas brechas,

Até encontrar o solo, a terra

Mas temos então, é claro,

Que quebrar azulejos

Trocar canos, cabos, estruturas

Remendos não duram muito tempo.

A casa continua em pé

Eu ainda estou inteira.

Um diálogo imaginado

— Pedrão!

— Olha se não é o grande Carlinhos!

— Rapaz, quanto tempo! O que você tem feito?

— Ah, eu continuo lá na repartição. Bom, bom não é. Mas é seguro, sabe como é: concursado, né. E você?

— Abri meu próprio negócio! Uma casa de rocamboles gourmet.

— Aderiu à moda, Carlinhos! E tá indo bem?

— Dá pra pagar as contas…

— E ‘cê viu a Flavinha?

— Pois é, Flavinha youtuber… 15 milhões de seguidores…

— Quem diria a Flavinha, hein… quem diria…

— E como passou a quarentena?

— Cara, você não vai acreditar. Passei com a patroa, mas a coisa desandou. Dizia que eu não fazia nada em casa, que só atrapalhava, sabe como é. No fim acabou me mandando embora. Aluguei uma casinha lá na rua de trás dos meus pais. E a sua?

— Mas pelo menos tinha alguém junto! Eu passei sozinho! Rapaz, pensei que fosse enlouquecer!! 72 dias sozinho, só saindo pra ir no mercado uma vez por mês. Daí quando afrouxaram eu já tava vendo a hora da morte. Meu irmão resolveu fazer um churrascão, reunir a família…

— Sei.

— Mas foi a pior coisa que a gente podia fazer… 12 pegaram o vírus. Eu escapei, mas meu irmão ficou duas semanas na UTI. E a tia Marlene não resistiu, que Deus a tenha!!

— Sinto muito, amigo. Eu também perdi dois primos e minha avó, mas ela já tava com 89 anos…

— É, é a vida, né…

— É como dizem: Deus escreve certo por linhas tortas…

— Mas vamos marcar alguma coisa!

— Com certeza, vamos marcar.

***

Imagino que, daqui um par de anos, diálogos como esse que criei se tornem comuns pelas ruas da cidade. Muita coisa irá mudar após esta quarentena, entretanto, no fim, pouca coisa irá mudar…

A presa

grace

 

O texto a seguir contém spoilers!

 

Estou assistindo a uma série chamada Alias Grace (2017). A história se baseia no livro homônimo de Margaret Atwood (autora de O Conto da Aia), o qual, por sua vez, trata de um crime real. Em 1843, James McDermott, 20, e Grace Marks, 16, foram presos e acusados de assassinar Thomas Kinnear e Hannah Nancy Montgomery. McDermott foi enforcado. Marks recebeu a sentença de prisão perpétua.

A questão central para mim, desde o início, não se trata da culpa ou inocência de Grace. Se ela matou ou não o patrão e a governanta. Se ela engana ou não seu psiquiatra. Não é tão vital quanto uma perspectiva de gênero.

Sim, pois Grace é uma mulher. Muitos apontam que tal fato foi decisivo em sua pena, na clemência de um juri composto por homens diante de uma jovem de 16 anos. Dizem que Grace usou esta “vantagem”, que tirou proveito, que “se safou” de seu crime.

Digo que ser mulher, ao contrário, provavelmente só lhe trouxe problemas. Grace passou a vida presa, passou a vida como uma presa, um alvo para homens. Assim como outras mulheres na trama e na vida.

Seu pai a violentou como violentava sua mãe quando ainda estava viva. O filho da primeira patroa a assedia após seduzir outra empregada, e amiga de Grace, Mary Whitney. Mary, grávida de um homem que não iria assumir a paternidade, não vê alternativa a não ser buscar um médico para um aborto cruel que a faz sangrar até a morte. Grace, sozinha, decide trabalhar na casa do fazendeiro Thomas Kinnear. Nancy, a governanta, mantém um relacionamento com o patrão. Ela deseja ser uma dama, mas não percebe que Kinnear não irá propor o casamento. Pelo contrário, o patrão já está de olho na nova empregada. Grace se encontra na mira de Kinnear, de McDermott, de todos os homens.

Grace foge de um predador para cair na casa de outro.

Então é condenada por assassinato. Anos depois é enviada a um manicômio, onde sofre abusos físicos e sexuais de médicos e assistentes. De volta à cadeia os abusos se repetem. Até mesmo o gentil Dr. Simon Jordan, um psiquiatra chamado para provar sua inocência, tem devaneios nos quais imagina um contato mais íntimo com Grace.

É justamente Mary, sua única amiga, quem a alerta sobre a condição da mulher. Diz que os mestres, os patrões, acreditam que as empregadas devem servi-los 24 horas por dia e fazer o trabalho principal deitadas. Grace sabe, e nós também sabemos, que não importa se é inocente ou não, uma mulher sempre será culpada. E ser salva da forca não é o mesmo que ser salva de sua condição ou de seu destino.

Grace Marks, mais que uma representação do que é ser assassina ou louca, é uma representação do que é ser mulher.

Não é o bastante?

Hoje não trago apenas uma indicação de série, mas sim uma reflexão sobre saúde mental. Assisti recentemente à série River (2015), que conta a história de John River (Stellan Skarsgård), um policial sueco que vive há muitos anos em Londres e investiga o assassinato de sua parceira enquanto lida com as alucinações que o acompanham desde a infância.

A série aborda diversos temas, como imigração, relacionamento com a família, relações profissionais, solidão. Mas irei focar aqui sobre a questão dos transtornos mentais. Para não “entregar” muito do enredo (ou seja, para não dar mais spoilers), trago duas falas proferidas durante o drama policial que me fizeram voltar para revê-las:

“É uma pergunta que me perturba. ‘Eu sou louca, ou são os outros?’. Eu vou te falar como alguém que te conhece… conhecia. Você é pirado. Louco, louco de pedra, doido, pinel, biruta, insano. Doente, maluco. Desequilibrado. Demente. Desvairado. Distraído, aloprado, pancada, lelé, tantã. Com um parafuso a menos. Sem nenhuma noção. Ruim da cabeça. Pra lá de Bagdá. Desmiolado. Você? Fora da casinha. Muito fora, sem juízo, sem noção. Desatinado, instável. Raivoso, um show de horror, um lunático. Encontre o caminho em meio à loucura. Encontre a ordem no caos.”

São tantos os nomes para definir a loucura. Insultos, piadas, ironias, expressões, eufemismos. Palavras. Conjuntos de letras, de sílabas, de sons. Que buscam explicar o desconhecido. O outro. O louco. Aquele cuja diferença me assusta. O que vive em outro mundo. No mundo da lua, da fantasia, da insensatez. Mas se faço questão de nomear e renomear sua estranheza é pelo temor de que a loucura esteja no lado de cá, não no de lá. Dou nome ao que quero afastar. Dou nome para isolar, separar, aprisionar, rejeitar, esconder. Esconder de mim que dentro de todos também existe caos. E ordem em meio ao caos.

“Quando foi a última vez que falei com um amigo? Eu não tenho nenhum. (…) Eu sou um bom policial. Nesse mundo, isso não é o bastante. Nesse mundo você tem que acenar, sorrir, tomar cerveja, e dizer: ‘Como foi seu dia?’. Nesse mundo, ninguém pode ser diferente ou estranho. Ou sofrer. Ou… Eles te internam.”

O mundo, esse mundo, este nosso mundo, cobra uma fachada. Sorrisos calcificados na face, ainda que se queira chorar. Perguntas vazias e respostas falsas. É preciso tirar fotos bonitas, ter o último modelo de celular, conversar sobre futebol e fazer churrasco. É preciso aparentar confiança, ego inflado, conhecimentos sobre as últimas modas da última semana.

A exigência de normalidade bate na porta, e não só dos que fogem das normas pré-estabelecidas. Não somente os que possuem um transtorno mental são julgados e estigmatizados. Todos vivem sob a mira da metralhadora de uma sociedade que finge que tudo está normal enquanto todos nós estamos desmoronando.