Setembro Amarelo

Estava recentemente conversando com um amigo. Saímos um pouco da conversa amena, aquela sobre as novidades e os filmes assistidos nas últimas semanas, e entramos num papo sobre como estávamos nos sentindo, o isolamento social e questões mais profundas.

Percebi que ele não estava bem; que, de verdade, não estava nada bem. Perguntei se estava com depressão. Ele disse que sim, mas que sempre ficava melhor sozinho, sem causar preocupações a ninguém e que eu era a primeira pessoa para quem ele contava como se sentia.

Então falamos sobre essa vontade de querer resolver sozinho, sobre como achamos que conseguimos esconder nossos sentimentos das pessoas próximas, mas que isso não é verdade. Sobre a importância procurar ajuda profissional, de se cuidar antes que fique ainda mais difícil.

E por causa dessa conversa que venho aqui hoje lhe fazer um pedido nesse Setembro Amarelo:

Se você não estiver se sentindo bem, converse com alguém! Busque ajuda, busque apoio. É muito importante não se isolar na dor.

Mas, caso contrário, você sentir que está bem e lidando com esse período terrível da melhor forma possível, olhe para dentro de si e pergunte se você pode ajudar outra pessoa. Se está disposto e preparado para acolher alguém que esteja sofrendo. Às vezes tem alguém perto de você precisando de uma conversa, apenas uma conversa significativa, para se sentir melhor.

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Setembro Amarelo

Ligue 188 – CVV Centro de Valorização da Vida

Efeito Placebo

Assisti ontem ao último episódio da série A Indústria da Cura (2020, Netflix). Antes de mais nada, preciso dizer que esse tipo de conteúdo me fascina: o que leva pessoas a buscarem tratamentos alternativos, na maioria das vezes sem nenhuma comprovação científica? O que leva muitos a investirem uma soma considerável de dinheiro em promessas de cura? Indicações de amigos? Descrença na ciência e na medicina? Fé? Ao assistir à série meu primeiro pensamento foi: “efeito placebo”.

Faz poucos meses li o livro Ciência Picareta, do escritor e psiquiatra britânico Ben Goldacre. Nesse livro, o autor explica grandes fake news e enganações envolvendo a temática da saúde. É sabido que a indústria farmacêutica utiliza artimanhas como divulgar somente as pesquisas que favorecem seus medicamentos e ocultar as desfavoráveis, além de campanhas de marketing agressivas para convencer médicos a prescreverem suas pílulas. Isso justifica certa desconfiança a respeito da medicina tradicional. Mas é preciso lembrar que a indústria do bem-estar é igualmente multibilionária e usa estratégias similares para prosperar.

Mas isso não é tudo. Remédios são testados em relação ao efeito placebo, ou seja, são aprovados quando se mostram mais eficazes do que o placebo. Pois sempre há esse efeito e um medicamento deve ser a soma do placebo com os princípios ativos. Mas o que, afinal, é efeito placebo? É quando a crença no tratamento resulta em efeito psicológico observável. Dessa forma, a pessoa tem melhora na saúde pelo simples fato de receber um tratamento, ainda que este não tenha efetividade alguma.

Você pode receber um pílula de açúcar e sentir-se melhor ou até mesmo curado. E você pode até mesmo saber que está tomando um placebo e ainda assim sentir um efeito terapêutico. Podem dizer a você “isto é uma pílula de açúcar” e você sentirá a melhora. Ou, em outra situação, você pode dar uma pílula sem qualquer propriedade terapêutica a seu filho ou animal de estimação e eles apresentarão uma melhora. Como? É efeito placebo por procuração; significa que eles irão responder à sua expectativa de cura e à atenção que você está dedicando a eles.

E aqui temos um fator chave em nossa reflexão: dedicar atenção. Veja bem, quando você procura um terapeuta de uma prática alternativa ou religiosa é comum que obtenha um acolhimento muito maior do que aquele que normalmente recebe num atendimento médico. Há também um sentimento de pertencimento, de fazer parte de um grupo que crê em tal prática ou de um grupo que finalmente descobriu algo fantástico, um tratamento desconhecido ou oculto, e que trará uma cura milagrosa.

Há abraços e sorrisos e entusiasmo. Há acenos compreensivos e calor humano.

Há também muita enganação e modus operandi que se assemelham aos de seitas.

Há perigos e danos causados por profissionais não capacitados e tratamentos nocivos.

Há sensação genuína de bem-estar e melhoria da saúde das pessoas. Tem-se a renovação da esperança daqueles que já estavam desistindo de encontrar uma forma de sobreviver sem dor.

Então que lado escolher? Como seguir com as angústias? Como tratar as dores?

Quando falamos em saúde mental e transtornos afetivos é particularmente significativo como nos sentimos em relação à cura. Se plantar bananeira lhe traz bem-estar ou dar três pulinhos acalma sua ansiedade então por que não usar essas “técnicas”? Mas aqui mora um perigo enorme. Por se sentir bem com três pulinhos pode ser que você pare de ir ao médico pensando que, afinal de contas, não precisa mais dele, não é mesmo? Mas e se vier uma crise grande e três pulinhos não derem conta? Ou talvez você dê os três pulinhos e também quatro espreguiçadas e dois polichinelos. Aí qual te curou: os pulinhos, as espreguiçadas ou os polichinelos?

Outro fator interessante de ser observado é que comumente vemos a busca por tratamentos alternativos associada a uma mudança de estilo de vida. E talvez seja importante para você ter o incentivo de outra pessoa ou de um grupo de pessoas para que você passe a adotar hábitos que são até óbvios como ter uma alimentação saudável, praticar exercícios físicos, etc., etc. São hábitos notadamente benéficos, mas que nem sempre relacionamos à melhoria no quadro de nossa saúde física e mental, pois podem nos parecer muito simples. Ou que sabemos ser eficazes, mas acabamos deixando de lado por falta de disciplina, falta de entusiasmo, preguiça ou qualquer outro obstáculo.

Voltando ao tema do título, a questão é: se há efeito placebo, por que não nos aproveitarmos dele? Aqui vale um alerta. Sendo o efeito placebo algo que funciona mesmo quando conhecemos sua existência, é essencial que estejamos o mais conscientes e cientes possível dos riscos de optar por tratamentos que possam ser prejudiciais. É preciso buscar informações para não cair em golpes nem se deixar vulnerável diante de profissionais sem formação e conhecimento.

E, se o que vale é mesmo acreditar, prefiro crer numa mistura equilibrada e consciente de ciência e práticas de bem-estar que não irão me fazer mal. 😉

E você? Quais atividades pratica para melhorar sua saúde?

Inacreditável

inacreditavel

[Contém (um pouco de) Spoilers]

Uma moça faz uma denúncia de estupro. Relata uma agressão tão grande, tão destrutiva, tão devastadora. E conta de novo e de novo. Pois não é suficiente dizer os detalhes logo após o ocorrido para o policial, para o investigador, para a médica que a atende. Ela é agredida várias vezes. Há o exame, o “kit estupro”; há a rememoração de evento traumático em detalhes; há o compartilhamento de questões íntimas e assustadoras com completos desconhecidos. E também a desconfiança e o questionamento da política, da autoridade. Até, por fim, ser desacreditada e julgada por todos que a rodeiam.

No episódio seguinte, outra moça denuncia um estupro. Mas aqui o cenário é bem diferente. Existe a compreensão e o acolhimento da investigadora e da equipe médica, que se preocupam em explicar os procedimentos. Isso significa que ficou fácil seguir em frente? Não mesmo! Mas o cuidado faz com que algo extremamente difícil não seja ainda pior. Esta é uma questão muito significativa em Inacreditável (2019), série recém indicada ao Emmy nas categorias Melhor minissérie, Melhor atriz coadjuvante para minissérie ou filme para a tv (Toni Collette) e Melhor roteiro em minissérie ou filme para a tv (Episódio 1).

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Acredito que a mesma questão possa ser aplicada à saúde mental. Já estive em diversos consultórios (psiquiatras, psicólogos, médicos) e não é uma experiência agradável, especialmente quando estamos muito fragilizados. Especialmente na primeira consulta. Especialmente quando o profissional parece não se importar com você. Especialmente quando parecem duvidar de você, do seu relato, da sua sanidade, da sua sinceridade.

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E vocês? Já passaram por uma situação em que a falta de acolhimento fez com que se sentissem mal? Assistiram à minissérie, gostaram? Vamos conversar nos comentários

Tudo bem não estar bem

Diz-se que na vida devemos buscar o equilíbrio. Mas, se pensarmos numa escala das emoções humanas, ou melhor, dos humores, veremos uma linha lá no alto representando a felicidade extrema e outra, lá embaixo, representando a tristeza e a dor em sua maior intensidade. Equilíbrio, vendo dessa forma, talvez fosse andar bem no meio? Traçar uma linha neutra? Porém, você poderia me dizer que isso seria entediante, sem graça, sem emoção.

Quem sabe o tal do equilíbrio, ao contrário do que costumamos pensar, seja ter uma variedade de sentimentos e experiências, além de um tanto de vivências positivas e felizes que compensem as inevitáveis desilusões.

As inevitáveis tristezas, as tragédias que se abatem sem que possamos controlar, as perdas, as derrotas, nossas falhas, as faltas alheias. Por isso que acredito que exigir de si mesmo viver o tempo todo naquela linha mais alta, na felicidade completa e imperturbável, é, mais do que impraticável, uma genuína forma de tortura e de gerar, mais cedo ou mais tarde, sofrimento e decepção.

Se a vida lá fora é feita de altos e baixos, por que nos obrigamos a almejar uma linha reta, única, impenetrável?

Só seria possível conquistar tal façanha em meio às condições mais adequadas e favoráveis, com toda a sorte, riqueza e fama. Com todas as facilidades e o luxo que a riqueza pode comprar. Mas poderá a fortuna subornar a morte? Ou mesmo desfazer os anseios internos que nem sempre se referem a bens materiais?

Mas, caso você insista, e se pudermos manter nossa felicidade sempre no alto apesar das mazelas externas? Seria possível ter alegria entusiasta em meio ao sofrimento alheio? Acho que somente com certo grau de psicopatia… Ou de cegueira autoimposta para evitar olhar ao redor.

A questão mais relevante aqui é que não precisamos disso. Não é necessário almejar a mais sublime perfeição. Pois tudo bem não estar bem. Não precisamos negar ou afastar todas as tristezas. Nem conter as lágrimas. Hoje há choro. Amanhã haverá o riso novamente.