Uma série, um experimento, muitas reflexões

Dia desses assisti ao documentário Três Estranhos Idênticos (Three Identical Strangers, 2018/Netflix). E o que começa como uma história feliz vai escalando rapidamente para algo bizarro. Vamos conversar sobre saúde mental, ciência, transtornos e hereditariedade. Então haverá spoilers (bom, num documentário o fator chave é mais sobre compreender os acontecimentos e menos sobre ser surpreendido; ainda assim, caso prefira, veja primeiro e depois volte aqui ;)).

Conhecemos logo de cara Bobby, que nos conta sobre quando entrou na faculdade. Primeiro dia de aula, ele, um rapaz tímido, calouro, é recebido com entusiasmo, abraços e tapinhas nas costas. Mais um fato curioso: todos o chamam de Eddy. E assim, aos 19 anos, Bobby descobre que tem um irmão gêmeo. O acontecimento foi parar na capa de vários jornais locais. Então mais um rapaz, David, surge com um rosto idêntico. Eram na verdade trigêmeos, todos adotados pela mesma agência, a Louise Wise Services.

Bobby, David e Eddy (Getty Images)

Os rapazes ficaram animadíssimos com o reencontro, e logo ganharam notoriedade na mídia. Eles se tornaram inseparáveis, apareceram em diversos programas de televisão e até abriram um restaurante juntos. Os pais dos trigêmeos, por outro lado, estavam indignados por não saberem que os filhos possuíam irmãos no momento da adoção, por terem separado os bebês sem ao menos a oportunidade de irem para uma mesma família. Os representantes da agência Louise Wise, em reunião com os pais, disseram que seria, na opinião deles, muito difícil encontrar lar para os três juntos, e por isso tomaram a decisão de separar as crianças. Isso se mostraria uma enorme mentira!

Anos mais tarde, uma grande revelação foi feita. Os trigêmeos foram parte de um experimento do psiquiatra austríaco Peter Neubauer, e muitos outros gêmeos foram separados no nascimento e estudados durante anos. O estudo nunca foi publicado e o psiquiatra faleceu em 2008, sem revelar qual era o real objetivo dos experimentos. Fato é que, em parceria com a Louise Wise, foi dito aos pais adotivos que fariam testes para verificar os efeitos da adoção no desenvolvimento infantil. E os pesquisadores apareciam regularmente em suas casas, fazendo perguntas às crianças, aplicando testes de Q.I. e filmando tudo.

Um dos pesquisadores originais da pesquisa deu entrevista dizendo que o objetivo era investigar como o meio ambiente, ou seja, as diferentes formas de criar uma criança, faria ou não diferença frente ao fator genético compartilhado pelos gêmeos em relação ao desenvolvimento infantil e aprendizado. Uma evidência nesse sentido foi que a escolha dos lares dos trigêmeos poderia ter sido muito bem planejada, visto que as três famílias tinham filhas adotadas pelas mesma agência antes do nascimento dos trigêmeos. Dessa forma, seria possível que os pesquisadores tivessem acesso a informações relevantes sobre as famílias, tais como saber se os pais eram mais afetuosos ou mais rígidos na criação dos filhos. O indicador social também pode ter sido um critério de escolha: as famílias dos trigêmeos era de diferentes classes sociais. Mas o pesquisador entrevistado era recém-formado na época do experimento e participou da pesquisa por apenas 10 meses.

A outra hipótese sobre o objetivo da obscura pesquisa de Peter Neubauer me parece mais terrível e me motivou a sentar em frente ao notebook hoje. Os pais biológicos aparentemente sofriam com transtornos mentais. Eddy Galland, um dos trigêmeos, foi diagnosticado com transtorno bipolar e cometeu suicídio em 1995, meses antes dos experimentos serem revelados. Duas irmãs gêmeas, também separadas para os propósitos secretos do psiquiatra, foram diagnosticadas com depressão. Outras vítimas dessa pesquisa também cometeram suicídio. O objetivo então seria verificar a hereditariedade dos transtornos mentais e qual a influência do meio ambiente para o surgimento dos sintomas e desenvolvimento da doença? Talvez. De todo modo, vidas poderiam ter sido salvas caso essas pessoas soubessem da predisposição genética para sofrimentos psíquicos graves ao invés de separadas dos irmãos, enganadas e estudadas como ratos de laboratório.

Rato de laboratório… foi justamente essa descrição de Bobby sobre como se sentiu ao descobrir sobre a pesquisa. Um outro detalhe sombrio: a Louise Wise Services é uma agência voltada para a adoção de bebês judeus por famílias judias, e os experimentos realizados pelo psiquiatra Peter Neubauer remetem àqueles feitos pelos nazistas.

Mas onde está a pesquisa hoje e por qual motivo nunca foi publicada? Antes de falecer, o psiquiatra guardou os dados nos arquivos da Universidade Yale com acesso restrito até 2066 ou então somente com autorização da instituição Jewish Board (Conselho Judaico de Serviços para Famílias e Crianças). Vários gêmeos tentaram obter acesso à pesquisa, uma vez que foram o objeto de estudo da mesma, sem consentimento. Após o término das gravações do documentário, Robert (Bobby) Shafran e David Kellman, os irmãos de Eddy Galland, obtiveram autorização para ver a pesquisa e receberam milhares de páginas de dados, porém com trechos censurados e sem os objetivos do experimento nem os resultados e conclusões da pesquisa.

Esta não é apenas a história de Bobby, David e Eddy, mas uma necessária discussão sobre ética, ciência, saúde mental e a mente humana. É sobre mim e sobre você. Talvez o psiquiatra tenha feito descobertas surpreendentes a respeito da dicotomia ambiente x genética na atuação dos transtornos mentais. Mas não vale o custo das vidas afetadas e destruídas no processo. É preciso transparência ao falar sobre saúde mental. Já somos bombardeados com várias mentiras sobre os transtornos mentais: a horrível associação midiática entre doença mental e violência, a falácia do desequilíbrio químico cerebral, as curas “quânticas” vendidas como alternativas válidas e “científicas” para os tratamentos tradicionais… Enfim, é um assunto amplo que não será esgotado tão cedo. Por isso é essencial continuarmos falando sobre saúde mental.

E fica a dica do documentário, que traz muitas outras informações sobre essa história real e impressionante. Quem tiver assistido, me conta o que achou 😉

Inacreditável

inacreditavel

[Contém (um pouco de) Spoilers]

Uma moça faz uma denúncia de estupro. Relata uma agressão tão grande, tão destrutiva, tão devastadora. E conta de novo e de novo. Pois não é suficiente dizer os detalhes logo após o ocorrido para o policial, para o investigador, para a médica que a atende. Ela é agredida várias vezes. Há o exame, o “kit estupro”; há a rememoração de evento traumático em detalhes; há o compartilhamento de questões íntimas e assustadoras com completos desconhecidos. E também a desconfiança e o questionamento da política, da autoridade. Até, por fim, ser desacreditada e julgada por todos que a rodeiam.

No episódio seguinte, outra moça denuncia um estupro. Mas aqui o cenário é bem diferente. Existe a compreensão e o acolhimento da investigadora e da equipe médica, que se preocupam em explicar os procedimentos. Isso significa que ficou fácil seguir em frente? Não mesmo! Mas o cuidado faz com que algo extremamente difícil não seja ainda pior. Esta é uma questão muito significativa em Inacreditável (2019), série recém indicada ao Emmy nas categorias Melhor minissérie, Melhor atriz coadjuvante para minissérie ou filme para a tv (Toni Collette) e Melhor roteiro em minissérie ou filme para a tv (Episódio 1).

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Acredito que a mesma questão possa ser aplicada à saúde mental. Já estive em diversos consultórios (psiquiatras, psicólogos, médicos) e não é uma experiência agradável, especialmente quando estamos muito fragilizados. Especialmente na primeira consulta. Especialmente quando o profissional parece não se importar com você. Especialmente quando parecem duvidar de você, do seu relato, da sua sanidade, da sua sinceridade.

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E vocês? Já passaram por uma situação em que a falta de acolhimento fez com que se sentissem mal? Assistiram à minissérie, gostaram? Vamos conversar nos comentários

Não é o bastante?

Hoje não trago apenas uma indicação de série, mas sim uma reflexão sobre saúde mental. Assisti recentemente à série River (2015), que conta a história de John River (Stellan Skarsgård), um policial sueco que vive há muitos anos em Londres e investiga o assassinato de sua parceira enquanto lida com as alucinações que o acompanham desde a infância.

A série aborda diversos temas, como imigração, relacionamento com a família, relações profissionais, solidão. Mas irei focar aqui sobre a questão dos transtornos mentais. Para não “entregar” muito do enredo (ou seja, para não dar mais spoilers), trago duas falas proferidas durante o drama policial que me fizeram voltar para revê-las:

“É uma pergunta que me perturba. ‘Eu sou louca, ou são os outros?’. Eu vou te falar como alguém que te conhece… conhecia. Você é pirado. Louco, louco de pedra, doido, pinel, biruta, insano. Doente, maluco. Desequilibrado. Demente. Desvairado. Distraído, aloprado, pancada, lelé, tantã. Com um parafuso a menos. Sem nenhuma noção. Ruim da cabeça. Pra lá de Bagdá. Desmiolado. Você? Fora da casinha. Muito fora, sem juízo, sem noção. Desatinado, instável. Raivoso, um show de horror, um lunático. Encontre o caminho em meio à loucura. Encontre a ordem no caos.”

São tantos os nomes para definir a loucura. Insultos, piadas, ironias, expressões, eufemismos. Palavras. Conjuntos de letras, de sílabas, de sons. Que buscam explicar o desconhecido. O outro. O louco. Aquele cuja diferença me assusta. O que vive em outro mundo. No mundo da lua, da fantasia, da insensatez. Mas se faço questão de nomear e renomear sua estranheza é pelo temor de que a loucura esteja no lado de cá, não no de lá. Dou nome ao que quero afastar. Dou nome para isolar, separar, aprisionar, rejeitar, esconder. Esconder de mim que dentro de todos também existe caos. E ordem em meio ao caos.

“Quando foi a última vez que falei com um amigo? Eu não tenho nenhum. (…) Eu sou um bom policial. Nesse mundo, isso não é o bastante. Nesse mundo você tem que acenar, sorrir, tomar cerveja, e dizer: ‘Como foi seu dia?’. Nesse mundo, ninguém pode ser diferente ou estranho. Ou sofrer. Ou… Eles te internam.”

O mundo, esse mundo, este nosso mundo, cobra uma fachada. Sorrisos calcificados na face, ainda que se queira chorar. Perguntas vazias e respostas falsas. É preciso tirar fotos bonitas, ter o último modelo de celular, conversar sobre futebol e fazer churrasco. É preciso aparentar confiança, ego inflado, conhecimentos sobre as últimas modas da última semana.

A exigência de normalidade bate na porta, e não só dos que fogem das normas pré-estabelecidas. Não somente os que possuem um transtorno mental são julgados e estigmatizados. Todos vivem sob a mira da metralhadora de uma sociedade que finge que tudo está normal enquanto todos nós estamos desmoronando.