Sobreviventes

O texto abaixo aborda o tema do suicídio.

 

Não imaginava que, naquela tarde comum de domingo, sentada preguiçosamente na cadeira que adoro, na sacada da sala de casa, com o celular na mão, de frente para meu companheiro, naquele ato corriqueiro que fazemos ao ler em voz alta, um para o outro, as mais recentes, importantes ou interessantes notícias do dia, me depararia com um acontecimento que me marcaria de forma tão profunda e pessoal. Ali estava aquela nota, pequena, para não expor a identidade dos envolvidos. Uma menina cometeu suicídio. Uma menina de dez anos. Com a arma do pai. Meses após a morte da mãe. Uma menina, uma arma. Uma vida, um tiro. E fim.

Li sem som. Só depois a voz saiu, assim meio fraca, meio sem compreender a náusea que me tomava. Náusea triste, bile ácida subindo pela garganta. De repente, era como se eu a conhecesse. Num instante não era uma menina que nem eu sabia o nome. Era uma menina como eu. Com o mesmo impulso. Voltei no tempo; lembrei de ter aquela idade e sentir aquela dor imensa, assim como ela deve ter sentido. A diferença é que ela tinha uma arma. Eu, não.

Afastei a memória, sem me permitir nem tentar digerir a sensação. É fácil, afinal, voltar para o presente quando se tem notícias novas a cada instante, e horários, e compromissos, e ter que se arrumar, colocar sapato, não ficou bom, trocar por outro, pegar a bolsa, trancar a porta. Sair, andar, entrar em carros, chegar, conversar, comer, beber. Os dias passam e nos esquecemos. Não deixamos a mente quieta, o tempo livre. Sempre há música e séries e livros e filmes para preencher o espaço. Textos, fotos, redes sociais. Mas sempre chega a hora em que voltamos e nos sentamos novamente naquela cadeira. Então nos lembramos.

Olhei para o céu, escuro, olhei para a noite que envolvia. E a menina voltou aos meus pensamentos. E se ela, como eu, tivesse sobrevivido? Será que teria tido alívio em seus sofrimentos? Talvez pudesse se sentir feliz. Pensei em tudo o que a menina poderia ter vivido, os sorrisos, os passeios, os estudos. Que livros teriam conquistado seu coração? Quais filmes a teriam encantado? Pensei nos amores, encontrar uma carreira, desenvolver um talento, construir uma família. As lágrimas que teria enxugado brotaram em minha face. Veria as mesmas estrelas que eu ali tão perto.

Minhas próprias angústias estavam misturadas na confusão de sentimentos que não me abandonava. Precisava falar sobre isso. Era algo grande, muito maior do que a nota num jornal local. Algo que ia além da necessária discussão sobre armas e leis sobre seu porte que pulsava e inflamava nos últimos dias. Além dos vídeos na internet com instruções que induziam crianças a tentarem suicídio. Era sobre saúde mental, dor, sofrimento, sobre aquilo que permeava todos os outros assuntos urgentes.

Fiquei semiobcecada, se é que isso é possível. Pesquisei mais. Li as igualmente pequenas reportagens sobre o caso em outros veículos. Descobri o nome da escola da menina. Pensei em procurar familiares e amigos, entrevistá-los, escrever um texto ou gravar um vídeo. Não seria difícil encontrá-los, afinal. Mas seria quase impossível, para mim, pedir que falassem com uma desconhecida num momento tão traumático. Desisti. E a história da menina continuou comigo somente em pensamento.

Nas semanas seguintes foram diversas as ocasiões que me fizeram voltar ao assunto. Pois a primeira vez que pensamos no suicídio abre uma porta. Porta que somente com muito esforço será fechada; sendo que teremos que ficar vigilantes durante toda a vida para que as mágoas não entrem pelas frestas e buraco da fechadura, ou para que ninguém tente arrombar e invadir nossa residência num momento de fragilidade. A ideação suicida se forma em situação de extremo desespero e dor insuportável. Aí se espalha e contamina todos os outros pensamentos. Passamos a acreditar que nossa morte será a solução de nossos problemas, assim como o de outras pessoas, que imaginamos sofrer com nossa existência ou inabilidade para existir dentro dos padrões que nos impomos. A depressão distorce a realidade, e não percebemos o absurdo de acreditar que familiares e amigos ficarão melhor sem nós, ou até mesmo aliviados com nossa partida. E tal pensamento se entranha nas células, passa de neurônio em neurônio, modifica as substâncias que nos compõem e, depois, com a melhora em nosso ânimo, se disfarça e se esconde, hiberna nas profundezas de nossa mente até se despertado por outro momento de angústia. Por isso não surpreendem, infelizmente, as múltiplas tentativas de suicídio de uma mesma pessoa. Surpresa ainda menos causa a série frequente e insistente de ideações suicidas que brotam diante de causas cada vez menos relevantes. De repente, toda tristeza e insatisfação já nos fazem considerar a desistência fatal.

Mas a figura menina, imaginada sem nunca ter sido vista, a menina enquanto símbolo de meu eu passado, me sussurrou ao ouvido durante dias. E cada momento, cada segundo de instabilidade e pesar passou a ser acompanhado de questionamento. Mais que isso, toda a minha história pessoal foi reanalisada, revista sob novo prisma. Aquela tentativa de suicídio, tantos anos distante, que sempre foi pensada como medo da morte acima do desejo de aplacar a dor, que me levou a dissipar a ideia de que um dia eu teria a capacidade de superar o pavor do ato irreversível, e que considerei fortuita por ter ocorrido tão jovem e tão inexperiente, o que certamente me salvou a vida, deixou de ser apenas mais um episódio no conjunto de sintomas e sentimentos que acompanham até o presente minha jornada diante da minha bipolaridade e da vida em si. Tornou-se, assim, episódio central de minha narrativa.

Como quem escapa da morte após um acidente de carro ou de avião, como quem supera e se cura de alguma doença terrível — o que não deixa de ser verdadeiro — passei a me enxergar enquanto sobrevivente. A autoidentificação com o sobrevivente faz oposição à visão comum do fracasso do suicídio. É um diferente recorte, uma diferente interpretação. Fracasso ou sucesso, a depender da perspectiva. Ver-se como sobrevivente também pode ter efeito transformador, ressignificando as experiências posteriores. Sonhos são trazidos de volta à superfície, lá de onde foram enterrados pelas necessidades do dia a dia. Vem a vontade de dar valor àquela vida salva, pelo destino, pela sorte ou pelo divino. Não há agora que se desperdiçar a segunda chance obtida. Mas, para ter o efeito transformador, é preciso dizer-se sobrevivente em voz alta. E isso não ocorre com o suicida. O tabu faz ser evitado nas pautas, é escondido, trancado em todos os armários e só consegue autorização para sair em meio a seus pares.

Em grupos de apoio, em geral os que tratam de transtornos mentais, o suicídio é citado em voz baixa, ainda que tenha espaço, com vergonha, sinal de um momento de fraqueza. Seguem-se cabeças balançando, concordando ou relembrando a própria experiência. O suicida recrimina-se, vê na tentativa falha de caráter, falta de força, falta de fé. Ou então brada o lamento por ter sobrevivido, acompanhado da promessa de nova tentativa mais eficaz. Desta vez os ouvintes, pensativos, questionam quando eles próprios terão a mesma coragem para buscar o fim da vida. Mas raramente o suicida se encontra na posição do afortunado que escapou da foice.

O que engana a morte em acidentes e catástrofes, em tragédias humanas e ambientais, ganha espaço na televisão. Nada mais justo comemorar a vida em meio a tantas notícias violentas e perturbadoras. Mas o suicida só aparece, quando aparece, quando deixa de existir. Em notas sem nome. Nenhum espaço é dado a quem tenta e continua vivo. O sucesso do suicida é a morte. Mas isso não muda a verdade que agora trago em meu espírito: não morrer é sobreviver. É ser sobrevivente. E também merece manchete. E pode ser dito com orgulho, e deve ser visto como algo que pode mudar radicalmente sua vida. Podemos falar em voz alta. Podemos escrever nossa história. Eu posso dizer agora: sou uma sobrevivente.

 

 

O pensamento suicida é algo sério. Se ele estiver presente em sua mente, procure ajuda!

Eu gostaria de contar mais histórias sobre sobreviventes do suicídio e mudar a visão que temos sobre o assunto. Quem quiser e puder dividir sua experiência pode entrar em contato comigo através do e-mail bipolareafins@gmail.com. E quem quiser apoiar este projeto pode compartilhar esse texto nas redes sociais. Obrigada!

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Fragmentos #19

Tenho um aplicativo em meu celular, um local para anotações rápidas, no qual costumo escrever frases e trechos de textos que surgem. Está ali ao alcance da mão, onde hoje sempre estão os celulares, mesmo quando nos dispomos a tentar esquecê-los. Eu estico um pouco o braço e pronto. Ou tateio no escuro, a cabeça já no travesseiro, e logo a tela já pode me cegar. Afinal, geralmente a inspiração surge sem aviso. É como um raio. Espalhafatoso, mas dura um piscar de olhos. Se você olhar poderá ver seu risco furioso. Caso se distraia, terá que esperar o próximo. Então é bom anotar essa ideia; quando você acordar a tempestade terá passado e não haverá mais raios para observar. Ideias são forças da natureza, incontroláveis. Podem ser raios, e também estrelas cadentes ou um eclipse raro. Os raios, sempre os vejo de minha janela. Já com eclipses lunares ou luas vermelhas nunca dou a mesma sorte. Certa vez, na adolescência, fiquei horas observando o céu noturno do telhado do vizinho (não contem que fiz isso!), de onde tinha boa visão, para ver uma única estrela cadente. Por isso deixo a tela me cegar apesar do sono, deixo cada olho se habituar, faço o corpo trabalhar. E lá está minha ideia, imortalizada no clique perfeito, a foto salva, o pequeno texto escrito para depois se tornar algo mais. No dia seguinte, ou vários dias depois, volto a essa ideia, trabalho o conceito, faço o raio gerar energia suficiente para outras ideias, e mais outras, e um texto completo pode nascer. Mas, em certos casos, ali fica minha ideia armazenada; não era um raio que combinasse com outros parecidos, que pudesse ser agrupado num conjunto coerente. Certas vezes eu pego um eclipse solitário. Tenho um agora, bem na palma da mão. Ali ficou durante meses; mas, sem ser visto, seu encanto começa a desaparecer. Meu eclipse é uma carta triste, de amor e de despedida, que nunca coube num conto ou romance. Trago-o aqui para libertá-lo. Quem sabe, ao mandar uma ideia para o universo, o céu possa me recompensar com outro evento cósmico. Talvez eu tenha mais sorte com um eclipse solar.

“Clarita,

Tenho aqui o livro que você me emprestou. Esqueci de levar em todas as vezes que nos vimos depois. Ou então, percebi só agora, quis ficar com ele. Quis ter algo. Era a única coisa palpável sua, após cada encontro. Nem mesmo fotos tiramos.
Eu me lembro bem daquela conversa sobre esse livro, logo quando te contei que havia terminado de ler. Naquela praça pequena onde não tem nada para fazer; apenas bancos para sentar e falar, o que já é mais que o suficiente. E mesmo assim as pessoas continuam andando, indo para lugar algum sem pensar em nada. Invejo todas elas. Odeio cada uma.
Mas você disse que tinha se identificado, que era algo como quando a comida ou o vazio te preenchiam. Dentro de você todo esse conflito, mas por fora parecia tudo normal, como no livro. Vou discordar de você. Para mim, a identificação é com o amor, ou a paixão, não sei. E, se por fora pareço normal, por dentro há algo que toma conta de meu ser. Algo estranho a mim. Acho que amor é algo que nunca é inteiramente nosso, pois não se pode controlar ou prever ou mudar. E não nos pertence. Se fosse nosso poderia ser para sempre, enquanto vivêssemos. Talvez nisso possa encontrar um motivo oculto, ou uma razão mais válida para minha decisão. Não fique triste (embora eu saiba que escrever isto será em vão), mas pelo menos não fique muito triste a ponto de se culpar ou qualquer bobagem do tipo. Você sabe bem os meus motivos. Mas pelo menos assim terá sido até o fim da vida.”

 

Fragmentos #10

perder

 

Nem toda ideação suicida é planejar a morte. Às vezes é apenas deixar-se. É não se importar mais. Não ligar para a falta de prazer, e desistir de procurá-lo. É imaginar como seria não mais existir. Atravessar a rua e imaginar como seria se um carro o acertasse em cheio. É imaginar a morte em muitas formas, sem compromisso, sem escolher, sem planejar; é morrer dentro da mente. É deixar de apreciar a vida. Olhar o mundo da altura da cama. Perder a estima por si mesmo. É perder a esperança de um dia melhor. É sentir raiva e não tentar controlá-la. É sentir tristeza e não mais se surpreender com seu tamanho, sua intensidade, sua persistência. É sentir desânimo e convidar o desânimo para jantar, para dormir, para o café da manhã, para se hospedar em sua casa.

O antropólogo Joseph Campbell notou um padrão se repetia nas histórias, nas ficções e lendas. Era o mito da jornada do herói. Através de seu livro O Herói de Mil Faces, publicado em 1949, essa jornada arquetípica tornou-se conhecida. Nós a reconhecemos nos livros e filmes, nas séries e espetáculos. Ali está o personagem vivendo sua vidinha num lugar comum, mas algo terrível acontece e ele é chamado para empreender uma aventura que poderá salvar a humanidade. Primeiro o herói recusa. Mas então encontra seu mentor (sempre há um mentor), e resolve aceitar o desafio. Seguem-se provações, inimigos, aliados, combates, e a grande batalha final. Por fim, o herói retorna vitorioso.

Mas tais acontecimentos, a jornada, não ocorrem somente com protagonistas de filmes hollywoodianos. Todos nós temos um chamado à aventura. Muitos, aliás. Talvez não seja matar um dragão ou proteger um anel, mas temos que deixar nosso lugar comum, o conhecido, e sair por aí, e superar obstáculos, e resolver o problema. Para, quem sabe, voltar vitoriosos para casa.

 

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Fragmentos #3

notícias

 

Vendo as notícias do dia. Descubro que em minha cidade, razoavelmente perto da minha casa, bem pertinho de onde estive dois dias atrás, um rapaz cometeu suicídio. Pulou de um prédio bem no meio da semana, no fim do horário de almoço. As pessoas trabalhando, voltando para o trabalho, fazendo compras, pensando no final de semana que se aproxima. As tarefas, os planos, os sonhos, alegrias e tristezas. E um rapaz, cinco anos mais novo que eu, que talvez eu já tenha encontrado numa fila de supermercado, ali caído. Sua foto, não uma de seus dias felizes, não uma posada e com sorriso, não uma que ele mesmo tenha compartilhado e publicado, mas aquela trágica, de seu último momento, foi o que “ilustrou” as notícias sobre sua morte. Um rapaz, com sonhos parecidos com meus e angústias parecidas com as minhas, virou nota de rodapé. Agora fico sem reação, cercadas por tantas pessoas que também podem estar sofrendo, sem que ninguém perceba. E não são esses mesmos vizinhos que me veem feliz todos os dias, mesmo quando não estou?

Suicídio é um enorme tabu. Poucos querem comentar. Usam eufemismos: “tirou a própria vida”, “acabou com o sofrimento”, “desistiu de viver”, que me fazem lembrar que quando era criança as pessoas diziam “aquela doença” para se referirem ao câncer. Eu nunca entendi o motivo. Era como se, de forma mística, dizer o nome pudesse atrair a mazela. Assim como o suicídio. Mesmo quem pensa em cometê-lo não pensa no nome. Pensa-se em “aliviar o sofrimento”, “colocar um ponto final”, “encontrar a paz”. E continuamos sem falar o nome. E muitos continuam sem tocar no assunto. Ou então usam o suicídio. Neste mundo, tudo tem que dar lucro. Por que isso não daria? A morte dos poetas, dos artistas, dos rockstars. Então os olhos jovens brilham. Eu sei, já fui jovem. E imaginava que morreria aos 27 anos, como meus ídolos. Apenas teria que aguentar até os 27.

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O Código Penal e o suicídio

lei suicídio

 

Um mês atrás, em pleno setembro amarelo, li uma reportagem sobre um relato que me impactou. O motorista Henrique Romero testemunhou dezenas de pessoas gritando “pula, pula”, além de insultos e xingamentos, para um homem que, pendurado numa ponte, pensava em cometer suicídio. É terrível a falta de empatia, que se mostra claramente na impaciência com a demora e o trânsito causados pelo incidente, nas piadas, nas ofensas.

Suicídio é um tabu em nossa sociedade. A própria menção a ele é muitas vezes suprimida ou sussurrada. Por outro lado, há total falta de respeito e compreensão. Aquele que tenta acabar com a própria angústia de forma drástica e desesperada recebe mais tormento no encontro com o outro.

Mesmo quando busca ajuda, o indivíduo que tentou suicídio, que passa por um avassalador sofrimento, não encontra apoio nem na equipe de profissionais que o atende. Uma pesquisa realizada pelo psiquiatra Carlos Eduardo Leal Vidal aponta as falhas no atendimento a sobreviventes do suicídio. Falta orientação psicológica e acolhimento a longo prazo. Salva-se o corpo do paciente, e este é encaminhado para casa. Além disso, muitos médicos e outros profissionais zombam dos pacientes, não acreditam em seu sofrimento, dizem que é tudo besteira e até expressam o desejo de morte em relação a esses pacientes. Uma das entrevistadas relatou: “Eles falaram assim ‘não é possível, tanta coisa pra gente fazer e socorrer e fulano tentando morrer… e tem que fazer lavagem, que frescurada, aí é que dá vontade de matar mesmo’”.

 

Mas é válido lembrar que instigar o suicídio é crime, previsto no Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940):

Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio
     Art. 122. Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça:
Pena – reclusão, de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de um a três anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave.

Parágrafo único. A pena é duplicada:

Aumento de pena
     I – se o crime é praticado por motivo egoístico;

     II – se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência.

 

Sempre achei bizarro ver como é necessário ter tantas leis para fazer com que as pessoas façam o que é bom para elas mesmas (como usar cinto de segurança) ou para impedir que cometam ações horríveis contra outros indivíduos (como instigar suicídio). Isso me faz lembrar como a maldade faz parte daquilo que é humano. Só me resta ter esperança de que outra característica humana — a bondade — possa um dia prevalecer.

Quando a morte está na mente

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A vida esmaga, amassa. Então me tornei uma colecionadora de esperanças. Algo dá errado, penso numa alternativa. A vida decepciona, me volto para a fantasia. Tudo para não voltar para aquele lugar ruim, dentro de mim, em minha própria mente, onde a morte está presente, onde os pensamentos me dizem que minha vida não tem valor, que nada nunca dará certo, que é melhor desistir.

Às vezes a morte está na mente, na vontade de morrer. E pensar em morrer é se matar, de certa forma. É desistir aos poucos. É acreditar que você não vale a pena, que os problemas e obstáculos são maiores e mais importantes do que tudo o mais, do que você mesmo. É um lugar sombrio. E pegajoso. Esses pensamentos se agarram a você, envolvendo o seu ser com gosma e sofrimento. É difícil sair, é fácil retornar. O cérebro cria caminhos, trajetos previamente memorizados, e os usa sempre que possível, mesmo que levem ao pior destino.

Penso no mar. Nas coisas reais não presto tanta atenção. Eu enxergo melhor com a imaginação. Tanto o bom quanto o ruim.

Penso nas dores. Deixo para lá. Penso no mar. Água batendo nas rochas. Areia em meus pés descalços. A calma, a brisa suave no rosto. Calor do sol na pele. E o barulho das ondas cobrindo meus pensamentos, o barulho das ondas impedindo que a mente volte para aquele lugar. Água do mar lavando, água fria, salgada, revigorante. E deixo as angústias no mar.

Retorno para casa purificada. A mente é novamente um lugar que posso habitar. Posso escolher os pensamentos bons. E fingir que nunca mais cairei no abismo, mesmo sabendo que tenho um percurso ruim memorizado. E que leva tempo para criar novos caminhos. Que é preciso percorrer os novos mais vezes do que andou pelo ruim. Até que se torne tão automático quanto o primeiro. Para que, quando o mundo ruir e a vida esmagar e amassar, a mente me conduza sem pestanejar, sabendo exatamente a localização do abrigo. Leva tempo até os pensamentos escolherem a praia ao invés do abismo da morte.

Enquanto isso, coleciono esperanças. E as deixo cair do bolso na areia. Uma por uma, como na história da infância, formando uma trilha para quando, novamente, eu me perder.

 

 

*** Setembro Amarelo é o mês de conscientização para a prevenção de suicídio. Busque ajuda. Ligue 188 e entre em contato com o CVVFalar é a melhor solução.

Ouvir é uma arte

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Alguns chamam de era da informação. Outros, era da pós-informação. A verdade é que poderíamos considerar o nosso presente como a era da solidão. Em meio a mais de 7 bilhões de outros humanos, num mundo cada vez mais globalizado e “conectado”, a sensação angustiante de solidão continua crescendo. Os índices de transtorno mental e suicídio, que claramente se relacionam à forma como nos relacionamentos e nos configuramos socialmente, também crescem a cada dia. A solidão aparece enquanto o outro está ao nosso lado. A solidão aparece em nossos diálogos desconexos, desencontrados. Falamos e ninguém ouve de verdade. E nós — celulares a postos — acreditamos ouvir enquanto olhos e dedos deslizam pelas telas.

Quantas vezes você se pegou pensando na resposta enquanto a pessoa na sua frente ainda falava? Raramente dedicamos toda a nossa atenção àqueles com quem conversamos. Nossa mente pula de pensamento em pensamento. E isso acontece porque nos acostumamos à ideia de que podemos lidar com vários estímulos e informações ao mesmo tempo. Mas isso não funciona. Relembro quão limitado é o meu poder de atenção toda vez que assisto a uma série ou filme com celular na mão, mandando mensagens e conferindo notificações. De repente percebo que cenas e cenas passaram sem eu notar. É preciso parar, voltar, focar.

Mas ouvir o outro vai muito além de prestar atenção. Envolve empatia, compreensão. Segurar o impulso do ego, que insiste em ver tudo a partir de seu próprio ponto de vista. Ouvir é colocar-se no lugar do outro, calçar os sapatos do outro e sentir as pedras que causam bolhas em seus pés. É entender o que foi dito através da percepção de quem fala. Qual a dor do outro? Qual a alegria do outro? A vivência de uma experiência comum pode ser diferente para cada pessoa. O que é tristeza e o que é felicidade para mim pode não ter o mesmo significado para aquele que, olhando em meus olhos, me conta como foi seu dia. Falar nem sempre é fácil. Mas ouvir á uma arte. Esquecida num museu que ninguém visita.

Talvez a conexão que a tal era da informação necessita não seja passada digitalmente. Talvez a comunicação de que precisamos não seja a mais rápida possível — instantânea e distante. Pois aplacar a solidão exige tempo. O tempo da fala, de poder confiar ao outro as angústias da alma. O tempo do desabafo, palavra após palavra presa na garganta. E respeitar esse tempo, e permite-se falar, confiando e tendo atenção verdadeira, pode fazer toda a diferença para quem se vê soterrado por sofrimentos.

Falar é terapêutico. Ouvir também pode ser.

 

*** Setembro Amarelo é o mês de conscientização para a prevenção de suicídio. Busque ajuda. Ligue 188 e entre em contato com o CVVFalar é a melhor solução.