Setembro Amarelo

Estava recentemente conversando com um amigo. Saímos um pouco da conversa amena, aquela sobre as novidades e os filmes assistidos nas últimas semanas, e entramos num papo sobre como estávamos nos sentindo, o isolamento social e questões mais profundas.

Percebi que ele não estava bem; que, de verdade, não estava nada bem. Perguntei se estava com depressão. Ele disse que sim, mas que sempre ficava melhor sozinho, sem causar preocupações a ninguém e que eu era a primeira pessoa para quem ele contava como se sentia.

Então falamos sobre essa vontade de querer resolver sozinho, sobre como achamos que conseguimos esconder nossos sentimentos das pessoas próximas, mas que isso não é verdade. Sobre a importância procurar ajuda profissional, de se cuidar antes que fique ainda mais difícil.

E por causa dessa conversa que venho aqui hoje lhe fazer um pedido nesse Setembro Amarelo:

Se você não estiver se sentindo bem, converse com alguém! Busque ajuda, busque apoio. É muito importante não se isolar na dor.

Mas, caso contrário, você sentir que está bem e lidando com esse período terrível da melhor forma possível, olhe para dentro de si e pergunte se você pode ajudar outra pessoa. Se está disposto e preparado para acolher alguém que esteja sofrendo. Às vezes tem alguém perto de você precisando de uma conversa, apenas uma conversa significativa, para se sentir melhor.

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Setembro Amarelo

Ligue 188 – CVV Centro de Valorização da Vida

O Código Penal e o suicídio

lei suicídio

 

Um mês atrás, em pleno setembro amarelo, li uma reportagem sobre um relato que me impactou. O motorista Henrique Romero testemunhou dezenas de pessoas gritando “pula, pula”, além de insultos e xingamentos, para um homem que, pendurado numa ponte, pensava em cometer suicídio. É terrível a falta de empatia, que se mostra claramente na impaciência com a demora e o trânsito causados pelo incidente, nas piadas, nas ofensas.

Suicídio é um tabu em nossa sociedade. A própria menção a ele é muitas vezes suprimida ou sussurrada. Por outro lado, há total falta de respeito e compreensão. Aquele que tenta acabar com a própria angústia de forma drástica e desesperada recebe mais tormento no encontro com o outro.

Mesmo quando busca ajuda, o indivíduo que tentou suicídio, que passa por um avassalador sofrimento, não encontra apoio nem na equipe de profissionais que o atende. Uma pesquisa realizada pelo psiquiatra Carlos Eduardo Leal Vidal aponta as falhas no atendimento a sobreviventes do suicídio. Falta orientação psicológica e acolhimento a longo prazo. Salva-se o corpo do paciente, e este é encaminhado para casa. Além disso, muitos médicos e outros profissionais zombam dos pacientes, não acreditam em seu sofrimento, dizem que é tudo besteira e até expressam o desejo de morte em relação a esses pacientes. Uma das entrevistadas relatou: “Eles falaram assim ‘não é possível, tanta coisa pra gente fazer e socorrer e fulano tentando morrer… e tem que fazer lavagem, que frescurada, aí é que dá vontade de matar mesmo’”.

 

Mas é válido lembrar que instigar o suicídio é crime, previsto no Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940):

Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio
     Art. 122. Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça:
Pena – reclusão, de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de um a três anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave.

Parágrafo único. A pena é duplicada:

Aumento de pena
     I – se o crime é praticado por motivo egoístico;

     II – se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência.

 

Sempre achei bizarro ver como é necessário ter tantas leis para fazer com que as pessoas façam o que é bom para elas mesmas (como usar cinto de segurança) ou para impedir que cometam ações horríveis contra outros indivíduos (como instigar suicídio). Isso me faz lembrar como a maldade faz parte daquilo que é humano. Só me resta ter esperança de que outra característica humana — a bondade — possa um dia prevalecer.

O cérebro do bipolar e a psicofobia

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Quando olho para o céu estrelado penso na vastidão do universo e nos mundos inexplorados que ele abriga. Mas a verdade é que conhecemos mais outros planetas, constelações e galáxias do que nosso próprio cérebro. Temos dentro de nós um mundo particular desconhecido. Por isso é importante que se faça mais e mais pesquisas sobre o funcionamento da nossa mente, como a citada em meu último texto (Doenças psiquiátricas, neurológicas e a genética).

Dentre o pouco que sabemos sobre as particularidades da neuroanatomia de pessoas portadoras de transtorno bipolar, há indicativos de menor quantidade de massa cinzenta, em especial nas regiões frontal e temporal do cérebro. São áreas ligadas à motivação e ao controle da inibição, o que explicaria a falta de energia na depressão e a impulsividade nas crises de mania. Além disso, nota-se um déficit mais acentuado nos casos em que o indivíduo também apresenta episódios de psicose.

É possível observar um comprometimento do hipocampo após algumas crises, sendo esta a principal explicação do porquê bipolares costumam relatar dificuldades relacionadas à memória.

Mas a descoberta que considero mais impressionante em relação ao funcionamento do cérebro dos bipolares é que a progressão da doença, seu agravamento, não é definida pelo passar do tempo, mas sim pelo número de crises e intensidade delas. Ou seja, não é a quantidade de anos desde o surgimento dos sintomas que define a gravidade do quadro, mas sim quantas crises a pessoa sofreu.

Dessa forma, não tratar a doença e continuar apresentando sintomas é destrutivo para o cérebro. Não tratar pode piorar o transtorno e causar perdas irreversíveis. E isso me faz pensar em quantos indivíduos não procuram ajuda, não recebem nem diagnóstico nem tratamento, por causa do preconceito da sociedade. Pelo receio do julgamento, por temerem serem considerados loucos, ou fracos, ou preguiçosos. Buscar ajuda é vital em casos de transtornos mentais. O tratamento, ainda que seja único e específico em cada caso, é essencial para todos.

 

*** Setembro Amarelo é o mês de conscientização para a prevenção de suicídio. Busque ajuda. Ligue 188 e entre em contato com o CVVFalar é a melhor solução.

Doenças psiquiátricas, neurológicas e a genética

cerebro pesquisa

 

Recentemente li um artigo no Jornal da USP chamado Doenças psiquiátricas e neurológicas podem ter mesma base genética. O artigo fala sobre uma pesquisa, publicada na Revista Science, que investigou 25 doenças cerebrais e suas possíveis conexões genéticas em mais 260 mil pacientes.

Essa pesquisa queria verificar se haveria uma mesma base genética entre doenças psiquiátricas (ou mentais) e doenças neurológicas. Doenças psiquiátricas englobam transtornos do humor, da personalidade e de ansiedade e psicoses, ou seja, transtornos mentais como bipolaridade, depressão, ansiedade, TOC e esquizofrenia. Já as neurológicas incluem doenças como Parkinson, Alzheimer, epilepsia e esclerose múltipla. A premissa era que alguns sintomas, como as alucinações, apareciam nos dois tipos de doenças, o que poderia indicar uma correlação entre essas condições.

Concluiu-se, entretanto, que a correlação genética entre doenças psiquiátricas e neurológicas é muito baixa. Temos então que essas doenças podem ser causadas por fatores distintos. Outro dado interessante é mesmo dentro das doenças neurológicas, quando comparadas entre si, a correlação genética é baixa.

O oposto foi observado entre as doenças psiquiátricas. Pode-se concluir que os transtornos mentais, embora possuam suas diferenças, compartilham uma mesma base genética. Na verdade, esse estudo comprova algo que muitos portadores de transtornos mentais e profissionais especialistas nessas doenças já observavam. Fala-se bastante em hereditariedade relacionada a transtornos. Mas nem sempre se constata que familiares de bipolares, por exemplo, possuem o mesmo transtorno. Existem bipolares cujas famílias possuem membros com depressão, ansiedade generalizada, dentre outras. Em minha própria família pude observar que sou a única bipolar, embora haja presença de outros transtornos.

Toda vez que sai uma pesquisa sobre transtornos mentais, como esta, é algo importante. Ela pode comprovar uma hipótese ou trazer uma informação totalmente nova, mas sempre será relevante. É necessário ter mais informações que facilitem o diagnóstico, uma vez que não existe um exame clínico para descobrir qual transtorno o paciente possui. As perguntas são essenciais — irão determinar não apenas o diagnóstico e o tratamento, mas também como o indivíduo se sentirá em relação a si mesmo e seu transtorno.

 

 

*** Setembro Amarelo é o mês de conscientização para a prevenção de suicídio. Busque ajuda. Ligue 188 e entre em contato com o CVVFalar é a melhor solução.

Quando a morte está na mente

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A vida esmaga, amassa. Então me tornei uma colecionadora de esperanças. Algo dá errado, penso numa alternativa. A vida decepciona, me volto para a fantasia. Tudo para não voltar para aquele lugar ruim, dentro de mim, em minha própria mente, onde a morte está presente, onde os pensamentos me dizem que minha vida não tem valor, que nada nunca dará certo, que é melhor desistir.

Às vezes a morte está na mente, na vontade de morrer. E pensar em morrer é se matar, de certa forma. É desistir aos poucos. É acreditar que você não vale a pena, que os problemas e obstáculos são maiores e mais importantes do que tudo o mais, do que você mesmo. É um lugar sombrio. E pegajoso. Esses pensamentos se agarram a você, envolvendo o seu ser com gosma e sofrimento. É difícil sair, é fácil retornar. O cérebro cria caminhos, trajetos previamente memorizados, e os usa sempre que possível, mesmo que levem ao pior destino.

Penso no mar. Nas coisas reais não presto tanta atenção. Eu enxergo melhor com a imaginação. Tanto o bom quanto o ruim.

Penso nas dores. Deixo para lá. Penso no mar. Água batendo nas rochas. Areia em meus pés descalços. A calma, a brisa suave no rosto. Calor do sol na pele. E o barulho das ondas cobrindo meus pensamentos, o barulho das ondas impedindo que a mente volte para aquele lugar. Água do mar lavando, água fria, salgada, revigorante. E deixo as angústias no mar.

Retorno para casa purificada. A mente é novamente um lugar que posso habitar. Posso escolher os pensamentos bons. E fingir que nunca mais cairei no abismo, mesmo sabendo que tenho um percurso ruim memorizado. E que leva tempo para criar novos caminhos. Que é preciso percorrer os novos mais vezes do que andou pelo ruim. Até que se torne tão automático quanto o primeiro. Para que, quando o mundo ruir e a vida esmagar e amassar, a mente me conduza sem pestanejar, sabendo exatamente a localização do abrigo. Leva tempo até os pensamentos escolherem a praia ao invés do abismo da morte.

Enquanto isso, coleciono esperanças. E as deixo cair do bolso na areia. Uma por uma, como na história da infância, formando uma trilha para quando, novamente, eu me perder.

 

 

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