Uma duas

uma duas

 

“Vasculha a bolsa em busca do celular. Desculpa por não avisar antes, minha mãe teve um enfarte. Não, não, está tudo bem agora, mas vou precisar ficar no hospital. Amanhã já vou estar aí e resolvo tudo. Não, não, eu não preciso de nada. Está tudo sob controle. Desliga e por um momento se vê do alto, na esquina, uma mulher ainda jovem com marcas milenares no rosto, o longo cabelo vermelho solto como sangue vivo, deslocado em seu corpo cinzento. E, sim, está tudo sob controle. Sempre esteve. Não são todos bons em faz de conta? Aquelas pessoas todas ali que a culpam não pelo seu estado, mas porque sua miséria as revela? Podem ficar tranquilos, tem vontade de gritar. Minha tragédia não vai denunciar ninguém. Eu apenas preciso chegar em casa e tomar um banho. E então, pronto, estaremos de novo todos salvos.”

Uma Duas, Eliane Brum

 

Que tal não se fazer de forte por um dia? E se tudo bem pedir ajuda quando for preciso? Será que é possível não jogar esse jogo do “pergunto por educação, mas não me conte nada” e “minto por educação, mas me deixe chorar sozinho”? Com certeza seria bom, seria libertador. Não disse, entretanto, que seria fácil. Pois a tragédia desmascara a farsa, o teatro tão bem articulado, no qual fingimos que a tristeza não existe.

 

Para celebrar a Campanha Janeiro Branco, trarei todo dia aqui ao Bipolar e Afins uma série de postagens com trechos de livros para refletir sobre saúde mental. Siga o blog e não perca nenhum texto!

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Planos futuros

planos futuros

 

Todo dia olho ao redor e vejo pessoas sofrendo. Pessoas lutando para encontrarem um sentido na vida. Imersas numa rotina que as consome. Buscando felicidade em migalhas, em fantasias, em fotos produzidas e curtidas de desconhecidos. E mais e mais casos de depressão, ansiedade e outros transtornos mentais são diagnosticados. E mais e mais pessoas tomam remédios na esperança de uma cura que não chegará. Enquanto isso aumenta a violência, a intolerância, o extremismo. E as discussões pela internet. E as brigas de trânsito. E os desentendimentos dentro de famílias. Todo o mundo desmoronando, e as pessoas se sentindo cada vez mais infelizes.

Submersa nesse caos de dor, num oceano de sofrimento, me esforço para chegar à superfície. Respiro, ou melhor, reaprendo a respirar. Encontro alívio. Mas vejo outros sufocando. E recordo que conhecimento guardado só para si perde o valor, fica fraco, diluído. Por isso existe este blog. Por isso tenho postado diariamente. E pelo mesmo motivo criei um canal no YouTube. Porque são tantos os que precisam conversar sobre suas angústias e não encontram espaço e compreensão dentro de suas casas, no trabalho, entre amigos. Porque em minha página do Facebook encontro pessoas que agradecem minhas palavras, que só buscavam um olhar de carinho, um alento positivo.

Mas para desenvolver o canal é necessário apoio, é preciso editar (o que ainda não sei fazer rs). Para manter o blog e a frequência das postagens preciso de tempo, empenho (e inspiração!). E agora estou com vários planos para o futuro do blog, e gostaria muito de realizá-los. Então criei uma campanha no Padrim! O Padrim é uma plataforma de financiamento coletivo que permite que pessoas ajudem produtores de conteúdo a desenvolverem seus projetos. 🙂

 

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Bonequinha de luxo

bonequinha de luxo

 

“Ela continuava abraçada ao gato.          

“—Pobre desgraçado… – lamentou-se, coçando-lhe a cabeça. — Pobre desgraçado sem nome. Não é muito correto que ele não tenha um nome. Mas eu não tenho qualquer direito de lhe pôr um nome, vai ter de esperar até pertencer a alguém. Nós apenas nos encontramos um belo dia à beira-rio, não pertencemos um ao outro, ele e eu somos independentes.”

Bonequinha de Luxo, Truman Capote

Esse trecho de Bonequinha de Luxo ficou para sempre em minha memória. Talvez seja porque sempre tive gatos na infância. E lhes dar nome era a primeira coisa que fazia. Olhar em seus olhos, e bigodes, e pelagem, e escolher o nome que combinasse com aquele gato, sua aparência e seu jeito. Dessa forma, o gato não passava a me pertencer, como coisa, já que sempre os admirava independentes, mas se tornavam meus conhecidos. Deixava de ser um gato qualquer para ser aquele gato específico. Dar nome era criar um elo, cultivar afeto. Por outro lado, conheço bem esse sentimento da Holly, esse desencantamento com a vida, a perda da ilusão, que a faz não dar nome ao gato, não querer criar qualquer tipo de laço, não sentir afeto, e justificar como independência.

 

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Os transtornos mentais e as tintas

Os leitores mais antigos do Bipolar e Afins devem conhecer o texto Uma metáfora sobre transtornos mentais, no qual falei sobre a influência dos transtornos mentais em nossa personalidade. Agora temos a versão dele em vídeo! Quem ainda não conhece pode conferir abaixo:

 

Mulheres que correm com os lobos

mulheres que correm com os lobos

 

“Nesse conto, a mulher-foca resseca por ter-se demorado demais. Suas aflições são as mesmas que experimentamos quando ficamos além do tempo. A sua pele se resseca. A nossa pele é o nosso órgão dos sentidos mais extenso. Ela nos diz quando estamos com frio, com calor, quando estamos com medo. Quando a mulher passa tempo demais longe de casa sua capacidade de perceber como está se sentindo a respeito de si mesma e de todas as outras coisas começa a secar e a rachar.

“Há muitas formas de voltar ao lar. Muitas são rotineiras; algumas são sublimes. (…) Assistir ao nascer do sol. Ir de carro até um lugar em que as luzes da cidade não prejudiquem a visão do céu noturno. Orar. Estar com uma amiga especial. Ficar sentada numa ponte com as pernas balançando no ar. Segurar um bebê no colo. Sentar-se junto a uma janela num café e escrever. Sentar-se num círculo de árvores. Secar o cabelo ao sol. Pôr as mãos num barril cheio de água da chuva. Envasar plantas, fazendo questão de enlamear muito as mãos. Contemplar a beleza, a graça, a comovente fragilidade dos seres humanos.”

Mulheres Que Correm Com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés

 

Às vezes nos desconectamos de nós mesmos. Deixamos os dias passarem, a rotina seguir seu curso e os calendários serem trocados. Não estamos mais em nós, não vivemos mais em nosso lar. Saímos e passamos tempo demais fora. Sabe aquela sensação gostosa de chegar em casa após um dia longo, tirar os sapatos e sentar no próprio sofá? Sabe aquele sentimento que temos quando retornamos de uma viagem e sabemos que foi muito divertido e prazeroso, e que certamente gostaríamos de viajar mais, porém estar em casa é reconfortante? É assim que nos sentimos quando estamos em nossa própria pele. Quando cuidamos dela e não a deixamos secar e rachar. E, da mesma forma que percebemos o mal-estar de ficar longe de nossa pele, podemos descobrir o que nos leva de volta para casa.

 

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Ensaio sobre a cegueira

ensaio sobre a cegueira

 

“Surdas, cegas, caladas, aos tombos, apenas com vontade suficiente para não largarem a mão da que se seguia à frente, a mão, não o ombro, como quando tinham vindo, certamente nenhuma saberia responder se lhe perguntassem, Por que vão vocês de mãos dadas, tinha calhado assim, há gestos para que nem sempre se pode encontrar uma explicação fácil, algumas vezes nem a difícil pôde ser encontrada.”

Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago

 

Os gestos, o toque, o contato humano. Em momentos difíceis, em catástrofes, buscamos conforto e apoio. Encontramos suporte em quem nos compreende. E podemos dar as mãos, assim como fazíamos quando pequenos, segurando as mãos de nossos pais, de nossos protetores. Pois, por mais crítica que seja a situação, o afeto, mesmo que apenas ir de mãos dadas, surdas, cegas, caladas e aos tombos, sempre poderá apaziguar nossa solidão.

 

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Perdas necessárias

perdas necessárias

 

“Quando pensamos em perda, pensamos na morte das pessoas que amamos. Mas a perda é muito mais abrangente em nossa vida. Pois perdemos não só pela morte, mas também por abandonar e ser abandonado, por mudar e deixar coisas para trás e seguir nosso caminho. E nossas perdas incluem não apenas separações e partidas dos que amamos, mas também a perda consciente e inconsciente de sonhos românticos, expectativas impossíveis, ilusões de liberdade e poder, ilusões de segurança — e a perda do nosso próprio eu jovem, o eu que se julgava para sempre imune às rugas, invulnerável e imortal.”

Perdas Necessárias, Judith Viorst

 

Lembro de quando era criança e imaginava o futuro. Havia uma certa expectativa sobre quem eu seria, onde gostaria de estar e o que gostaria de ter feito. Mas, definitivamente, não realizei todos aqueles sonhos de infância. Acumulei perdas em meu trajeto. Algumas escolhas me trouxeram tristezas; outras, alegrias. Mas todas significavam tomar partido, seguir por um lado, e deixar tudo o que poderia conquistar em outro caminho. E também deixar algo para trás. Com o tempo, cada luto que carregamos começa a pesar. Sentimos dores nas costas, nas pernas, nos braços, fica difícil continuar. Para seguir em frente, é preciso aceitar essas perdas necessárias e entender que cada perda pode significar um novo ganho.

 

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