Fragmentos #16

receios

 

Síndrome do Impostor. Aflige pessoas que não acreditam que seu sucesso é consequência de sua inteligência e competência. Elas se convencem que apenas tiveram sorte, e que em breve o mundo descobrirá que são uma fraude. Posso me transportar para o momento em que ouvi falar dessa síndrome pela primeira vez. Pensei que deveria ser difícil não ser capaz de sentir-se orgulhoso e satisfeito com seu próprio trabalho. Imaginei pessoas talentosíssimas imersas em medo, lutando para não sentir o temor de serem descobertos como desprovidos de criatividade e inteligência. Imaginei gênios vendo a si mesmos como farsas. Vi outras pessoas; tal síndrome somente pertencia aos talentosos. Não vi a mim mesma. Mesmo agora me coloco no grupo dos sem talento. Por consequência, concluo que não posso ter síndrome do impostor. E se questiono todos os dias se deveria escrever sobre transtornos mentais — se eu possuo experiência e conhecimento o suficiente — é porque faz sentido questionar. E quando questiono se deveria escrever de forma geral, dado que alguém pode acabar percebendo que não tenho habilidade para isso, é porque sou consciente de minhas limitações. Mas não posso negar que os padrões de pensamento combinam. Continuo com minhas perguntas internas martelando. Sou boa o suficiente? Ajudo alguém de fato, ou minhas palavras são vazias e não trazem alívio algum aos sofrimentos? É interessante, e assustador, como, mesmo após tantos anos, ainda há tanto que não sabemos sobre nós mesmos.

 

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Fragmentos #9

poeira

 

A poeira se acumula, impiedosa. E limpam, e limpam. Mas a poeira volta. E repousa serena no topo de armários e nas molduras de quadros. E se acomoda até mesmo no ventilador de teto que ainda ontem estava a girar e revirar o mesmo ar quente, e a mesma poeira de sempre. O pó. Fragmentos de tudo que um dia já foi e já não é.  

 

As emoções passam, ao vento. As circunstâncias nos influenciam. De forma quase grotesca, como se fôssemos marionetes. Lembrei de um experimento. As “cobaias” haviam sido convidadas para algum tipo de entrevista, se bem me lembro. O “entrevistador” as deixava, uma por uma, numa sala de espera, cheia de outras pessoas, todos atores. Pouco depois a cobaia via uma fumaça entrando por baixo da porta fechada, mas ninguém parecia notar ou até mesmo se importar. Isso já era o bastante para aquele indivíduo ficar ali, passivo diante de um provável perigo. Algumas pessoas até tentavam alertar os companheiros de espera — “Olha essa fumaça. Será que está pegando fogo?” — para somente receberem a indiferente resposta “Não deve ser nada.”. Outras, raríssimas, visivelmente preocupadas, iam além. Abriam a porta, tentavam chamar alguém. Mas todas terminaram sentadas, resignadas, obedientes, acompanhando o grupo, em conformidade com o entorno. É fácil ver, pensando bem, o tamanho do desafio que é manter algo de si, intocável, diante da urgência e da pressão de todo o que vem de fora.  

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