Saúde mental e quarentena

A pandemia trouxe para nossas vidas mais do que o isolamento e a mudança de rotina. Há o medo, a insegurança, a impossibilidade de negar a morte. Há a preocupação com a própria saúde e a dos familiares e amigos. Temos saudade dos que estão longe, falta de abraços, contato físico e olho no olho. O desejo de sair, esticar as pernas, passear, respirar outros ares e até mesmo trabalhar. Ver a cidade, pessoas, carros; sentimos falta da sensação de normalidade. Há o receio de perder o emprego, o desespero de ter perdido o emprego ou o medo de não conseguir mais emprego. A possibilidade da doença e da fome. Os dores da empatia pelo sofrimento dos outros. Temos ansiedade, depressão e angústia. Alguns já tínhamos ansiedade, depressão e angústia. A pandemia pode também afetar nossa saúde mental.

Pensando em como ajudar outras pessoas, disponibilizei meu livro Árvores Tímidas gratuitamente na plataforma Wattpad. Quem tiver interesse pode acessar no link abaixo:

 

Livro: Árvores Tímidas

 

Fragmentos #17

escrevendo

 

Tenho esse desejo de escrever sobre a vida das pessoas. Vejo alguém na rua e me pergunto que histórias incríveis já vivenciou, que histórias fantásticas já ouviu. Será que seus avós fugiram da guerra? Ou então ela se casou com o amor de infância após um reencontro acidental e arrebatador na vida adulta? Imagino as narrativas. Tenho vontade de contá-las. Só há uma barreira. Deixar minha posição extremamente confortável e segura de observadora invisível. É um lugar conhecido sair por aí de olhos e ouvidos abertos e descobrir pequenas frases e conversas e cenas cotidianas aqui e ali. É ter acesso ao que as pessoas compartilham comigo sem ter que pedir mais. Afinal, não sei se ainda conservo aquele espírito livre e corajoso da infância que seria capaz de perguntar a um desconhecido sobre sua vida e seus segredos. Ah, aquela jovem não teria tido problema algum em escrever 100 livros de histórias de outras pessoas. A menina que certa vez tocou a campainha de casas aleatórias para perguntar se alguém poderia emprestar um chinelo para a amiga cujo salto quebrou poderia fazer tudo. A menina que, para ajudar outra amiga que desejava escrever uma carta quilométrica de dia dos namorados, perguntou a pessoas na rua se conheciam frases bonitas de amor até descobrir uma moça que anotava várias num caderno poderia com certeza fazer qualquer coisa. Complementando essa última história, soube por uma menina que uma conhecida dela gostava de frases românticas. Ela me disse onde encontrá-la; na pequena loja de produtos de limpeza de seu pai. Entrei na loja, acompanhada de minha amiga, localizei a moça e explicamos o intuito da carta. Ela pediu autorização ao pai para deixar seu posto atrás do balcão por alguns momentos. Então fomos para sua casa e copiamos as três o conteúdo de seus cadernos de amor sentadas na calçada. Sim, antes de procurar histórias fantásticas devo trazer aquela menina de volta para dentro de mim.

 

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Cem anos de solidão

cem anos de solidão

 

“O Coronel Aureliano Buendía abandonou o quarto em dezembro, e bastou dar uma olhada na varanda para não voltar a pensar na guerra. Com uma vitalidade que parecia impossível na sua idade, Úrsula voltou a rejuvenescer a casa. “Agora vão ver quem eu sou”, disse quando soube que seu filho viveria. “Não haverá uma casa melhor, nem mais aberta a todo mundo, que esta casa de loucos.” Mandou-a lavar e pintar, trocou os móveis, restaurou o jardim e semeou flores novas, e abriu as portas e janelas para que entrassem até os quartos a deslumbrante claridade do verão. Decretou o fim dos numerosos lutos superpostos e ela mesma mudou os velhos trajes rigorosos por roupas juvenis. A música da pianola voltou a alegrar a casa. Ao ouvi-la, Amaranta se lembrou de Pietro Crespi, da sua gardênia crepuscular e do seu cheiro de lavanda, e no fundo do seu murcho coração floresceu um rancor limpo, purificado pelo tempo.”

Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez

 

“…floresceu um rancor limpo, purificado pelo tempo.” O tempo cura, é o que dizem, e concordo. Pode não apagar todas as mágoas e dores, mas essas se tornam tão distantes que já não ferem. E torna-se possível tirar o luto, abrir as janelas e deixar o sol entrar.

 

Para celebrar a Campanha Janeiro Branco, trarei todo dia aqui ao Bipolar e Afins uma série de postagens com trechos de livros para refletir sobre saúde mental. Siga o blog e não perca nenhum texto!

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A insustentável leveza do ser

insustentavel leveza do ser

 

“Porque a vida humana também é assim que é composta. É composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito (uma música de Beethoven, uma morte numa estação) e faz dele um tema que, em seguida, inscreverá na partitura de sua vida. Como o compositor faz com os temas de uma sonata, está sempre a voltar a ele, a repeti-lo, a modificá-lo, a desenvolvê-lo, a transpô-lo.”

A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

 

E não é assim mesmo que ocorre? Voltamos aos nossos temas, aos nossos padrões. Já percebeu como aquilo que nos marca acaba entrando em nossa vida e se repetindo em ciclos? Mas nós somos o compositor. Nós podemos modificar, desenvolver e transpor estes acontecimentos. A cada retorno podemos mudar tudo.

 

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