Pele de foca, pele da alma

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Fragmentos #17

escrevendo

 

Tenho esse desejo de escrever sobre a vida das pessoas. Vejo alguém na rua e me pergunto que histórias incríveis já vivenciou, que histórias fantásticas já ouviu. Será que seus avós fugiram da guerra? Ou então ela se casou com o amor de infância após um reencontro acidental e arrebatador na vida adulta? Imagino as narrativas. Tenho vontade de contá-las. Só há uma barreira. Deixar minha posição extremamente confortável e segura de observadora invisível. É um lugar conhecido sair por aí de olhos e ouvidos abertos e descobrir pequenas frases e conversas e cenas cotidianas aqui e ali. É ter acesso ao que as pessoas compartilham comigo sem ter que pedir mais. Afinal, não sei se ainda conservo aquele espírito livre e corajoso da infância que seria capaz de perguntar a um desconhecido sobre sua vida e seus segredos. Ah, aquela jovem não teria tido problema algum em escrever 100 livros de histórias de outras pessoas. A menina que certa vez tocou a campainha de casas aleatórias para perguntar se alguém poderia emprestar um chinelo para a amiga cujo salto quebrou poderia fazer tudo. A menina que, para ajudar outra amiga que desejava escrever uma carta quilométrica de dia dos namorados, perguntou a pessoas na rua se conheciam frases bonitas de amor até descobrir uma moça que anotava várias num caderno poderia com certeza fazer qualquer coisa. Complementando essa última história, soube por uma menina que uma conhecida dela gostava de frases românticas. Ela me disse onde encontrá-la; na pequena loja de produtos de limpeza de seu pai. Entrei na loja, acompanhada de minha amiga, localizei a moça e explicamos o intuito da carta. Ela pediu autorização ao pai para deixar seu posto atrás do balcão por alguns momentos. Então fomos para sua casa e copiamos as três o conteúdo de seus cadernos de amor sentadas na calçada. Sim, antes de procurar histórias fantásticas devo trazer aquela menina de volta para dentro de mim.

 

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Cem anos de solidão

cem anos de solidão

 

“O Coronel Aureliano Buendía abandonou o quarto em dezembro, e bastou dar uma olhada na varanda para não voltar a pensar na guerra. Com uma vitalidade que parecia impossível na sua idade, Úrsula voltou a rejuvenescer a casa. “Agora vão ver quem eu sou”, disse quando soube que seu filho viveria. “Não haverá uma casa melhor, nem mais aberta a todo mundo, que esta casa de loucos.” Mandou-a lavar e pintar, trocou os móveis, restaurou o jardim e semeou flores novas, e abriu as portas e janelas para que entrassem até os quartos a deslumbrante claridade do verão. Decretou o fim dos numerosos lutos superpostos e ela mesma mudou os velhos trajes rigorosos por roupas juvenis. A música da pianola voltou a alegrar a casa. Ao ouvi-la, Amaranta se lembrou de Pietro Crespi, da sua gardênia crepuscular e do seu cheiro de lavanda, e no fundo do seu murcho coração floresceu um rancor limpo, purificado pelo tempo.”

Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez

 

“…floresceu um rancor limpo, purificado pelo tempo.” O tempo cura, é o que dizem, e concordo. Pode não apagar todas as mágoas e dores, mas essas se tornam tão distantes que já não ferem. E torna-se possível tirar o luto, abrir as janelas e deixar o sol entrar.

 

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A insustentável leveza do ser

insustentavel leveza do ser

 

“Porque a vida humana também é assim que é composta. É composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito (uma música de Beethoven, uma morte numa estação) e faz dele um tema que, em seguida, inscreverá na partitura de sua vida. Como o compositor faz com os temas de uma sonata, está sempre a voltar a ele, a repeti-lo, a modificá-lo, a desenvolvê-lo, a transpô-lo.”

A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

 

E não é assim mesmo que ocorre? Voltamos aos nossos temas, aos nossos padrões. Já percebeu como aquilo que nos marca acaba entrando em nossa vida e se repetindo em ciclos? Mas nós somos o compositor. Nós podemos modificar, desenvolver e transpor estes acontecimentos. A cada retorno podemos mudar tudo.

 

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Uma história meio que engraçada

uma historia meio que engraçada

 

“Meus pais estão sempre procurando novas maneiras de dar um jeito em mim. Eles tentaram acupuntura, ioga, terapia cognitiva, fitas de relaxamento, vários tipos de exercício (até que descobri minha bike), livros de autoajuda, tae bo e feng shui no meu quarto. Gastam uma grana comigo. Fico com vergonha.”

Uma História Meio Que Engraçada, Ned Vizzini

 

Vergonha. É justamente esse o sentimento de uma pessoa com transtorno mental. Há também gratidão por ter pessoas que se importam com você e que fazem de tudo para ajudar. Claro que então surge a culpa, pois tentam de tudo e esperam sua melhora, mas você sempre acaba fracassando de novo. Você sente tristeza e desânimo por viver neste ciclo infinito de doença e tratamento e doença novamente. Mas o sentimento dominante é a vergonha. Vergonha por precisar de tudo isso — terapia, médicos, remédios — e ainda assim não ser funcional; vergonha de todos os custos e dinheiro gasto em vão; vergonha por não ser como quem não precisa de nada disso.

 

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Vidas secas

VIDAS_SECAS_CAPA_DURA_FINAL_SIMULADO

 

“— Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: — Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.”

Vidas Secas, Graciliano Ramos

 

O título “Vidas Secas” não foi o escolhido por Graciliano Ramos; foi convencido a mudar o título original, que julgaram longo. Ele escreveu um dos melhores livros que já li, nada mais justo que os editores encontrassem o título mais adequado. E nada descreve melhor essa história do que “vidas secas”, vidas duras, num local árido, sem chuva, sem fartura, sem oportunidades, sem estudo e sem justiça. Com tantas dificuldades e obstáculos para a sobrevivência que homem vive como bicho e bicho sente como homem. Vidas com tantas faltas que até mesmo a esperança é escassa.

 

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Sobre a escrita

sobre a escrita

 

“O talento faz a própria ideia de ensaio parecer sem sentido; quando alguém encontra algo em que seja talentoso, a pessoa faz aquilo (seja o que for) até os dedos sangrarem ou os olhos quase caírem das órbitas. Mesmo quando não há ninguém ouvindo (ou lendo, ou assistindo), todo esforço é digno de aplausos, porque a pessoa, como criadora, está feliz. Quem sabe até em êxtase.”

Sobre a Escrita, Stephen King

 

Freud dizia que amor e trabalho são as coisas de que precisamos para sermos felizes. Simples assim: amor e trabalho. Acontece que podemos refletir que amor não precisa ser necessariamente o amor romântico; pode ser amor de família, de amigos, um carinho, ter alguém ter com quem contar. Amor não precisa ser perfeito, surreal, sem brigas e sem conflitos. Da mesma forma, temos o trabalho como uma ocupação produtiva de nosso tempo. Fazer algo. Pode não ser algo que nos dê prazer, mas que possibilita pagar as contas. Ou, ao contrário, algo que não dá dinheiro, mas que nos faz bem. E quando encontramos essa atividade que nos faz bem e a desenvolvemos, percebendo que somos bons naquilo, então encontramos o paraíso.

 

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