Uma duas

uma duas

 

“Vasculha a bolsa em busca do celular. Desculpa por não avisar antes, minha mãe teve um enfarte. Não, não, está tudo bem agora, mas vou precisar ficar no hospital. Amanhã já vou estar aí e resolvo tudo. Não, não, eu não preciso de nada. Está tudo sob controle. Desliga e por um momento se vê do alto, na esquina, uma mulher ainda jovem com marcas milenares no rosto, o longo cabelo vermelho solto como sangue vivo, deslocado em seu corpo cinzento. E, sim, está tudo sob controle. Sempre esteve. Não são todos bons em faz de conta? Aquelas pessoas todas ali que a culpam não pelo seu estado, mas porque sua miséria as revela? Podem ficar tranquilos, tem vontade de gritar. Minha tragédia não vai denunciar ninguém. Eu apenas preciso chegar em casa e tomar um banho. E então, pronto, estaremos de novo todos salvos.”

Uma Duas, Eliane Brum

 

Que tal não se fazer de forte por um dia? E se tudo bem pedir ajuda quando for preciso? Será que é possível não jogar esse jogo do “pergunto por educação, mas não me conte nada” e “minto por educação, mas me deixe chorar sozinho”? Com certeza seria bom, seria libertador. Não disse, entretanto, que seria fácil. Pois a tragédia desmascara a farsa, o teatro tão bem articulado, no qual fingimos que a tristeza não existe.

 

Para celebrar a Campanha Janeiro Branco, trarei todo dia aqui ao Bipolar e Afins uma série de postagens com trechos de livros para refletir sobre saúde mental. Siga o blog e não perca nenhum texto!

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Bonequinha de luxo

bonequinha de luxo

 

“Ela continuava abraçada ao gato.          

“—Pobre desgraçado… – lamentou-se, coçando-lhe a cabeça. — Pobre desgraçado sem nome. Não é muito correto que ele não tenha um nome. Mas eu não tenho qualquer direito de lhe pôr um nome, vai ter de esperar até pertencer a alguém. Nós apenas nos encontramos um belo dia à beira-rio, não pertencemos um ao outro, ele e eu somos independentes.”

Bonequinha de Luxo, Truman Capote

Esse trecho de Bonequinha de Luxo ficou para sempre em minha memória. Talvez seja porque sempre tive gatos na infância. E lhes dar nome era a primeira coisa que fazia. Olhar em seus olhos, e bigodes, e pelagem, e escolher o nome que combinasse com aquele gato, sua aparência e seu jeito. Dessa forma, o gato não passava a me pertencer, como coisa, já que sempre os admirava independentes, mas se tornavam meus conhecidos. Deixava de ser um gato qualquer para ser aquele gato específico. Dar nome era criar um elo, cultivar afeto. Por outro lado, conheço bem esse sentimento da Holly, esse desencantamento com a vida, a perda da ilusão, que a faz não dar nome ao gato, não querer criar qualquer tipo de laço, não sentir afeto, e justificar como independência.

 

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Mulheres que correm com os lobos

mulheres que correm com os lobos

 

“Nesse conto, a mulher-foca resseca por ter-se demorado demais. Suas aflições são as mesmas que experimentamos quando ficamos além do tempo. A sua pele se resseca. A nossa pele é o nosso órgão dos sentidos mais extenso. Ela nos diz quando estamos com frio, com calor, quando estamos com medo. Quando a mulher passa tempo demais longe de casa sua capacidade de perceber como está se sentindo a respeito de si mesma e de todas as outras coisas começa a secar e a rachar.

“Há muitas formas de voltar ao lar. Muitas são rotineiras; algumas são sublimes. (…) Assistir ao nascer do sol. Ir de carro até um lugar em que as luzes da cidade não prejudiquem a visão do céu noturno. Orar. Estar com uma amiga especial. Ficar sentada numa ponte com as pernas balançando no ar. Segurar um bebê no colo. Sentar-se junto a uma janela num café e escrever. Sentar-se num círculo de árvores. Secar o cabelo ao sol. Pôr as mãos num barril cheio de água da chuva. Envasar plantas, fazendo questão de enlamear muito as mãos. Contemplar a beleza, a graça, a comovente fragilidade dos seres humanos.”

Mulheres Que Correm Com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés

 

Às vezes nos desconectamos de nós mesmos. Deixamos os dias passarem, a rotina seguir seu curso e os calendários serem trocados. Não estamos mais em nós, não vivemos mais em nosso lar. Saímos e passamos tempo demais fora. Sabe aquela sensação gostosa de chegar em casa após um dia longo, tirar os sapatos e sentar no próprio sofá? Sabe aquele sentimento que temos quando retornamos de uma viagem e sabemos que foi muito divertido e prazeroso, e que certamente gostaríamos de viajar mais, porém estar em casa é reconfortante? É assim que nos sentimos quando estamos em nossa própria pele. Quando cuidamos dela e não a deixamos secar e rachar. E, da mesma forma que percebemos o mal-estar de ficar longe de nossa pele, podemos descobrir o que nos leva de volta para casa.

 

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Ensaio sobre a cegueira

ensaio sobre a cegueira

 

“Surdas, cegas, caladas, aos tombos, apenas com vontade suficiente para não largarem a mão da que se seguia à frente, a mão, não o ombro, como quando tinham vindo, certamente nenhuma saberia responder se lhe perguntassem, Por que vão vocês de mãos dadas, tinha calhado assim, há gestos para que nem sempre se pode encontrar uma explicação fácil, algumas vezes nem a difícil pôde ser encontrada.”

Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago

 

Os gestos, o toque, o contato humano. Em momentos difíceis, em catástrofes, buscamos conforto e apoio. Encontramos suporte em quem nos compreende. E podemos dar as mãos, assim como fazíamos quando pequenos, segurando as mãos de nossos pais, de nossos protetores. Pois, por mais crítica que seja a situação, o afeto, mesmo que apenas ir de mãos dadas, surdas, cegas, caladas e aos tombos, sempre poderá apaziguar nossa solidão.

 

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Perdas necessárias

perdas necessárias

 

“Quando pensamos em perda, pensamos na morte das pessoas que amamos. Mas a perda é muito mais abrangente em nossa vida. Pois perdemos não só pela morte, mas também por abandonar e ser abandonado, por mudar e deixar coisas para trás e seguir nosso caminho. E nossas perdas incluem não apenas separações e partidas dos que amamos, mas também a perda consciente e inconsciente de sonhos românticos, expectativas impossíveis, ilusões de liberdade e poder, ilusões de segurança — e a perda do nosso próprio eu jovem, o eu que se julgava para sempre imune às rugas, invulnerável e imortal.”

Perdas Necessárias, Judith Viorst

 

Lembro de quando era criança e imaginava o futuro. Havia uma certa expectativa sobre quem eu seria, onde gostaria de estar e o que gostaria de ter feito. Mas, definitivamente, não realizei todos aqueles sonhos de infância. Acumulei perdas em meu trajeto. Algumas escolhas me trouxeram tristezas; outras, alegrias. Mas todas significavam tomar partido, seguir por um lado, e deixar tudo o que poderia conquistar em outro caminho. E também deixar algo para trás. Com o tempo, cada luto que carregamos começa a pesar. Sentimos dores nas costas, nas pernas, nos braços, fica difícil continuar. Para seguir em frente, é preciso aceitar essas perdas necessárias e entender que cada perda pode significar um novo ganho.

 

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As memórias de Cleópatra

memórias de cleópatra

 

“Nós três começamos a passar muito tempo juntos; Olímpio parecia solitário, embora nunca admitisse. Talvez seu intelecto e sua maneira adulta deixassem os outros desconcertados. Seu interesse em medicina não tinha esvanecido, e ele estava se preparando para estudar em Alexandria mesmo, onde a escola de medicina era a melhor do mundo. Mardian também era uma pessoa solitária, já que se aproximava da idade que o faria invariavelmente diferente dos outros. E eu? Eu era a princesa cujo futuro estava em dúvida, objeto de especulação, curiosidade e murmúrios. As pessoas mantinham distância.

“E então chegou o dia que eu mais temia na vida. Olímpio falou com orgulho que tinha adquirido um pequeno barco a vela e que gostaria de velejar conosco. (…)

“A água. Eu teria de confrontá-la mais cedo ou mais tarde, ou admitir que tinha medo e ficar em terra firme pelo resto da minha vida. Até agora, não fora importante. Nenhuma viagem, nenhum amigo convidando para alguma coisa que envolvesse barcos. (…)

“Dei mais um passo, e agora a água se aprofundava tanto — chegando à cintura — que precisei usar os braços para manter o equilíbrio. Detestava a sensação, mais fria do que tinha sido nos meus joelhos. Mais um passo e a água chegou ao meu peito.”

As Memórias de Cleópatra, Margaret George

 

Simplesmente amo esse livro! Tanto que tive que me controlar para não digitá-lo inteiro aqui. Pois a história continua… E Cleópatra conta como foi entrar na água pela primeira vez, e depois nadar sem saber como e sem contar a seus amigos. Depois, ela explica a Mardian que evitou a água durante toda a vida porque sua mãe, a rainha, havia morrido afogada naquela mesma enseada em que navegaram. Acho esse trecho especialmente revelador da grandeza da personagem. Apesar do trauma, ela o enfrenta. Elimina o problema. Em parte por conta do orgulho e por não querer compartilhar sua fraqueza, mas também, como revela, porque entende que ser uma princesa alexandrina sem saber nadar seria uma desvantagem em algum momento. E às vezes precisamos seguir em frente, superar as angústias, as dores, os traumas e resolver os problemas.

 

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Mrs. Dalloway

mrs dalloway

 

“Ela se sentia muito jovem; ao mesmo tempo, inconcebivelmente velha. Passava por tudo como uma faca afiada; ao mesmo tempo, ficava de fora, contemplando. Tinha uma sensação permanecente, olhando os táxis, de estar longe, longe, bem longe no mar e sozinha; sempre era invadida por essa sensação de que era muito, muito perigoso viver, ainda que por um dia.”

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf

 

Viver exige certa paixão, certo envolvimento. É preciso ter um brilho no olhar, estar presente. E se relaciona muito mais com aquilo que sentimos do que com o que de fato nos rodeia. Nossas emoções são a bússola que direciona como interpretamos a realidade e como reagimos a ela. Então devemos estar alertas a seus sinais. Quando nos falta motivação em relação a tudo algo precisa ser mudado. Se sempre nos sentimos longe daqui, do agora, algo está errado. Não devemos ignorar os alertas que nosso próprio coração nos dá para pedir ajuda.

 

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