Fragmentos #19

Tenho um aplicativo em meu celular, um local para anotações rápidas, no qual costumo escrever frases e trechos de textos que surgem. Está ali ao alcance da mão, onde hoje sempre estão os celulares, mesmo quando nos dispomos a tentar esquecê-los. Eu estico um pouco o braço e pronto. Ou tateio no escuro, a cabeça já no travesseiro, e logo a tela já pode me cegar. Afinal, geralmente a inspiração surge sem aviso. É como um raio. Espalhafatoso, mas dura um piscar de olhos. Se você olhar poderá ver seu risco furioso. Caso se distraia, terá que esperar o próximo. Então é bom anotar essa ideia; quando você acordar a tempestade terá passado e não haverá mais raios para observar. Ideias são forças da natureza, incontroláveis. Podem ser raios, e também estrelas cadentes ou um eclipse raro. Os raios, sempre os vejo de minha janela. Já com eclipses lunares ou luas vermelhas nunca dou a mesma sorte. Certa vez, na adolescência, fiquei horas observando o céu noturno do telhado do vizinho (não contem que fiz isso!), de onde tinha boa visão, para ver uma única estrela cadente. Por isso deixo a tela me cegar apesar do sono, deixo cada olho se habituar, faço o corpo trabalhar. E lá está minha ideia, imortalizada no clique perfeito, a foto salva, o pequeno texto escrito para depois se tornar algo mais. No dia seguinte, ou vários dias depois, volto a essa ideia, trabalho o conceito, faço o raio gerar energia suficiente para outras ideias, e mais outras, e um texto completo pode nascer. Mas, em certos casos, ali fica minha ideia armazenada; não era um raio que combinasse com outros parecidos, que pudesse ser agrupado num conjunto coerente. Certas vezes eu pego um eclipse solitário. Tenho um agora, bem na palma da mão. Ali ficou durante meses; mas, sem ser visto, seu encanto começa a desaparecer. Meu eclipse é uma carta triste, de amor e de despedida, que nunca coube num conto ou romance. Trago-o aqui para libertá-lo. Quem sabe, ao mandar uma ideia para o universo, o céu possa me recompensar com outro evento cósmico. Talvez eu tenha mais sorte com um eclipse solar.

“Clarita,

Tenho aqui o livro que você me emprestou. Esqueci de levar em todas as vezes que nos vimos depois. Ou então, percebi só agora, quis ficar com ele. Quis ter algo. Era a única coisa palpável sua, após cada encontro. Nem mesmo fotos tiramos.
Eu me lembro bem daquela conversa sobre esse livro, logo quando te contei que havia terminado de ler. Naquela praça pequena onde não tem nada para fazer; apenas bancos para sentar e falar, o que já é mais que o suficiente. E mesmo assim as pessoas continuam andando, indo para lugar algum sem pensar em nada. Invejo todas elas. Odeio cada uma.
Mas você disse que tinha se identificado, que era algo como quando a comida ou o vazio te preenchiam. Dentro de você todo esse conflito, mas por fora parecia tudo normal, como no livro. Vou discordar de você. Para mim, a identificação é com o amor, ou a paixão, não sei. E, se por fora pareço normal, por dentro há algo que toma conta de meu ser. Algo estranho a mim. Acho que amor é algo que nunca é inteiramente nosso, pois não se pode controlar ou prever ou mudar. E não nos pertence. Se fosse nosso poderia ser para sempre, enquanto vivêssemos. Talvez nisso possa encontrar um motivo oculto, ou uma razão mais válida para minha decisão. Não fique triste (embora eu saiba que escrever isto será em vão), mas pelo menos não fique muito triste a ponto de se culpar ou qualquer bobagem do tipo. Você sabe bem os meus motivos. Mas pelo menos assim terá sido até o fim da vida.”

 

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Cem anos de solidão

cem anos de solidão

 

“O Coronel Aureliano Buendía abandonou o quarto em dezembro, e bastou dar uma olhada na varanda para não voltar a pensar na guerra. Com uma vitalidade que parecia impossível na sua idade, Úrsula voltou a rejuvenescer a casa. “Agora vão ver quem eu sou”, disse quando soube que seu filho viveria. “Não haverá uma casa melhor, nem mais aberta a todo mundo, que esta casa de loucos.” Mandou-a lavar e pintar, trocou os móveis, restaurou o jardim e semeou flores novas, e abriu as portas e janelas para que entrassem até os quartos a deslumbrante claridade do verão. Decretou o fim dos numerosos lutos superpostos e ela mesma mudou os velhos trajes rigorosos por roupas juvenis. A música da pianola voltou a alegrar a casa. Ao ouvi-la, Amaranta se lembrou de Pietro Crespi, da sua gardênia crepuscular e do seu cheiro de lavanda, e no fundo do seu murcho coração floresceu um rancor limpo, purificado pelo tempo.”

Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez

 

“…floresceu um rancor limpo, purificado pelo tempo.” O tempo cura, é o que dizem, e concordo. Pode não apagar todas as mágoas e dores, mas essas se tornam tão distantes que já não ferem. E torna-se possível tirar o luto, abrir as janelas e deixar o sol entrar.

 

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A insustentável leveza do ser

insustentavel leveza do ser

 

“Porque a vida humana também é assim que é composta. É composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito (uma música de Beethoven, uma morte numa estação) e faz dele um tema que, em seguida, inscreverá na partitura de sua vida. Como o compositor faz com os temas de uma sonata, está sempre a voltar a ele, a repeti-lo, a modificá-lo, a desenvolvê-lo, a transpô-lo.”

A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

 

E não é assim mesmo que ocorre? Voltamos aos nossos temas, aos nossos padrões. Já percebeu como aquilo que nos marca acaba entrando em nossa vida e se repetindo em ciclos? Mas nós somos o compositor. Nós podemos modificar, desenvolver e transpor estes acontecimentos. A cada retorno podemos mudar tudo.

 

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Uma história meio que engraçada

uma historia meio que engraçada

 

“Meus pais estão sempre procurando novas maneiras de dar um jeito em mim. Eles tentaram acupuntura, ioga, terapia cognitiva, fitas de relaxamento, vários tipos de exercício (até que descobri minha bike), livros de autoajuda, tae bo e feng shui no meu quarto. Gastam uma grana comigo. Fico com vergonha.”

Uma História Meio Que Engraçada, Ned Vizzini

 

Vergonha. É justamente esse o sentimento de uma pessoa com transtorno mental. Há também gratidão por ter pessoas que se importam com você e que fazem de tudo para ajudar. Claro que então surge a culpa, pois tentam de tudo e esperam sua melhora, mas você sempre acaba fracassando de novo. Você sente tristeza e desânimo por viver neste ciclo infinito de doença e tratamento e doença novamente. Mas o sentimento dominante é a vergonha. Vergonha por precisar de tudo isso — terapia, médicos, remédios — e ainda assim não ser funcional; vergonha de todos os custos e dinheiro gasto em vão; vergonha por não ser como quem não precisa de nada disso.

 

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Vidas secas

VIDAS_SECAS_CAPA_DURA_FINAL_SIMULADO

 

“— Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: — Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.”

Vidas Secas, Graciliano Ramos

 

O título “Vidas Secas” não foi o escolhido por Graciliano Ramos; foi convencido a mudar o título original, que julgaram longo. Ele escreveu um dos melhores livros que já li, nada mais justo que os editores encontrassem o título mais adequado. E nada descreve melhor essa história do que “vidas secas”, vidas duras, num local árido, sem chuva, sem fartura, sem oportunidades, sem estudo e sem justiça. Com tantas dificuldades e obstáculos para a sobrevivência que homem vive como bicho e bicho sente como homem. Vidas com tantas faltas que até mesmo a esperança é escassa.

 

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Sobre a escrita

sobre a escrita

 

“O talento faz a própria ideia de ensaio parecer sem sentido; quando alguém encontra algo em que seja talentoso, a pessoa faz aquilo (seja o que for) até os dedos sangrarem ou os olhos quase caírem das órbitas. Mesmo quando não há ninguém ouvindo (ou lendo, ou assistindo), todo esforço é digno de aplausos, porque a pessoa, como criadora, está feliz. Quem sabe até em êxtase.”

Sobre a Escrita, Stephen King

 

Freud dizia que amor e trabalho são as coisas de que precisamos para sermos felizes. Simples assim: amor e trabalho. Acontece que podemos refletir que amor não precisa ser necessariamente o amor romântico; pode ser amor de família, de amigos, um carinho, ter alguém ter com quem contar. Amor não precisa ser perfeito, surreal, sem brigas e sem conflitos. Da mesma forma, temos o trabalho como uma ocupação produtiva de nosso tempo. Fazer algo. Pode não ser algo que nos dê prazer, mas que possibilita pagar as contas. Ou, ao contrário, algo que não dá dinheiro, mas que nos faz bem. E quando encontramos essa atividade que nos faz bem e a desenvolvemos, percebendo que somos bons naquilo, então encontramos o paraíso.

 

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De frente para o sol

de frente para o sol

 

“Ou talvez houvesse uma compensação em deixar os trabalhos inacabados e, dessa maneira, não descobrir os limites de seu talento. Talvez ela quisesse perpetuar a crença de que teria feito coisas grandiosas caso desejasse. Podia haver algo atraente na ideia de que, se tivesse desejado, talvez pudesse ter sido uma grande artista. Talvez nenhuma obra alcançasse o nível que ela exigia de si mesma.”

De Frente Para o Sol, Irvin D. Yalom

 

Você já fez isso? Já teve um sonho ou objetivo e simplesmente o deixou ali, numa espera eterna? Já justificou dizendo para si mesmo que aquele seria seu plano b, ou que era algo que você poderia realizar a qualquer momento? Podemos nos dar várias desculpas, mas quando deixamos projetos inacabados ou nem os começamos a voz que fala alto é a do medo. O medo do fracasso. O medo da decepção, de não ser tão bom quanto gostaria. E deixamos os sonhos de lado. E, depois, nos perdemos em divagações sobre como poderia ter sido.

 

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