The true cost

Em breve um documentário sairá do catálogo da Netflix e me senti motivada a falar sobre esse tema tão relevante.

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Escrito e dirigido por Andrew Morgan, The True Cost (2015) é um documentário sobre o impacto das indústrias, especialmente a da moda, no planeta e na vida das pessoas. O objetivo é nos fazer repensar nossos hábitos de consumo. Se pessoas trabalham em condições análogas à escravidão para atender a um mercado cuja lógica capitalista exige competição e preços baixos (fast fashion) a ponto de tornar os produtos descartáveis qual o nosso papel e responsabilidade nesse cenário?

A reflexão começa com nossos hábitos de consumo, mas se expande para nosso modelo econômico que faz com que o trabalho nas fábricas conhecidas como “fábricas de suor” seja a melhor opção para as pessoas que vivem em regiões pobres. Mas será que não existe mesmo outra forma de produzir e consumir, de empregar e vender?

Não se trata apenas das lojas de roupas, mas de todo um modelo de pensamento que vai muito além daquilo que podemos enxergar no produto final. Há o plantio de algodão e o monopólio de sementes para garantir a venda de pesticidas. Fazendeiros, endividados, viram reféns das indústrias químicas. Há o aumento de doenças na população exposta a essas substâncias. Há a contaminação do solo, da água, da natureza. Depois entra fabricação em locais insalubres e sem segurança. Há a exploração do trabalho. Há trabalho infantil e trabalho escravo também. Há fábricas desmoronando e queimando, e muitas vidas perdidas. Eis que embrulham tudo isso em papel de presente, em lojas vistosas, em luxo, grifes, marcas e desfiles. Há pressão estética e baixa autoestima. Há desperdício e acúmulo de lixo. E depois mais plantio, produção e venda.

Devemos perceber que existem dois tipos de produtos: aqueles que você usa por muito tempo (como televisão e máquina de lavar) e aqueles que você consome (como alimentos e outros perecíveis). Mas o consumismo quer que você trate tudo aquilo que você usa da mesma forma que os produtos que você consome. Os objetos se tornaram descartáveis e nos acostumamos a comprar o tempo todo na expectativa de ter os desejos e necessidades satisfeitos.

Será que ter mais coisas nos deixa mais felizes? Não, pelo contrário. Quanto maior o materialismo (e a exposição à publicidade) maior a infelicidade (e também depressão e ansiedade). Mas podemos refletir sempre: de onde vem nossa roupa? E nossa comida? E tudo aquilo que levamos para dentro de nossas casas? Assim podemos fazer escolhas melhores, tanto para nós quanto para outras pessoas e a natureza.

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Escrita Terapêutica

Um comentário recente num texto antigo fez com que eu refletisse sobre os benefícios da escrita terapêutica.

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Sempre que me perguntam formas para lidar com um transtorno mental (e recebo essa pergunta com frequência) coloco a escrita na lista das dicas. Escrever é uma maneira excelente de acessar e lidar com nossos sentimentos, não apenas para quem tem depressão, é bipolar ou tem outra doença, mas para todas as pessoas.

Tanto que, já faz um bom tempo, surgiu um termo específico para descrever a escrita com fins curativos — a Escrita Terapêutica. Outras expressões, ligadas à escrita terapêutica, passaram a circular por aí, como expressive writing e morning pages. Mas, antes de abordar essas e outras técnicas, vamos refletir sobre como escrever pode nos ajudar.

 

Benefícios da escrita terapêutica

Escrever sobre si mesmo, deixar o fluxo de pensamentos correr livremente e anotar suas emoções no papel contribuem para o autoconhecimento. Podemos descobrir sentimentos que ficaram escondidos dentro de nós, compreender melhor nossos medos e também nossos desejos. Quais as suas motivações? Por que você hesitou em marcar aquele compromisso? E outras perguntas como essas ficarão mais claras. Além disso, escrever frequentemente estimula a criatividade, a comunicação, a concentração e a disciplina. Sem contar que é uma forma de manejar as emoções mais intensas e repensar nossas decisões antes de agir por impulso. Quando, por exemplo, sentimos raiva, é útil desabafar no papel e ver como isso faz nosso coração acalmar. A raiva é sublimada, é direcionada para um objeto, ao invés de ficar borbulhando dentro de nós. Podemos transformar emoções negativas em texto e até mesmo em arte. Escrever nos dá a possibilidade de alcançar nossos sentimentos negativos, nossas emoções obscuras e nossas pulsões inconscientes, ou seja aquilo que insistimos em negar e reprimir, de forma segura, num ambiente controlado, antes que tudo exploda de forma violenta. Escrever, por fim, melhora o nosso humor e aumenta nossa autoestima.

 

Como praticar

Para aproveitar todos os benefícios listados acima é muito fácil. Você precisará de um local tranquilo (um escritório, seu quarto), com o mínimo possível de barulho e de interrupções. Mas não se preocupe em ter um lugar perfeito para escrever, o mais importante é praticar os exercícios. E também precisa de ferramentas para escrever, de preferência papel e caneta, mas também pode ser o celular ou um notebook. Recomendo ter um caderno só para a escrita terapêutica. Depois é só reservar um tempinho, 10 ou 30 minutos, e começar a escrever. É importantíssimo lembrar que, embora escrever ajude a lidar com os conflitos e sentimentos, essas técnicas não substituem o tratamento convencional. Continue fazendo o acompanhamento com seu médico e seu terapeuta. Mas você poderá levar as questões que surgirem na escrita para a consulta com o psiquiatra e com o psicólogo, e isso vai contribuir para o seu tratamento.

 

Técnicas de escrita terapêutica

A melhor técnica é aquela que serve ao seu objetivo e às suas necessidades neste momento presente. Durante um período da minha vida, dos 10 aos 20 e poucos anos, tive vários cadernos, onde anotava e analisava meus sonhos, transcrevia trechos de livros e letras de música, desenvolvia ideias e anseios e desabafava quando necessário. Houve meses em que escrevia diariamente. Houve períodos de menor frequência ou de puro silêncio. Hoje, em contrapartida, anoto as preocupações que ocupam minha mente em minha agenda, bullet journal, bloquinho ou celular, sem a necessidade de um caderno específico para esta finalidade.

Para o autoconhecimento e a criatividade, um método interessante é conhecido como morning pages, que consiste em escrever três páginas à mão logo após acordar (ou logo após tomar o café) colocando no papel tudo aquilo que passar pela sua mente. Não há conteúdo certo nem errado, nem precisa elaborar o que vai escrever, basta anotar o que estiver em seus pensamentos. Ao contrário desta técnica, é possível também escrever à noite, antes de dormir, e anotar tudo aquilo que o incomode ou preocupe, ou seja, as questões que podem atrapalhar seu sono. Além de possibilitar que você durma melhor, escrever antes de deitar pode diminuir a ansiedade quando houver muita expectativa para um compromisso no dia seguinte. Podemos também ter um caderno sempre por perto para desabafar nos momentos de angústia ou tristeza, e escrever sobre a briga com o parceiro ou sobre um dia estressante no trabalho. Ou ter aquele bloquinho dos bons sentimentos, onde anotamos as coisas boas que nos acontecem ou fazemos uma lista da gratidão. Talvez você escolha a expressive writing therapy, e reserve 20 minutos por dia, durante quatro dias, para escrever sobre seus sentimentos mais profundos, traumas ou outros assuntos pessoais e importantes. Pode ser que você deseje também se conectar com outras pessoas e explorar seu lado artístico. Você poderá encontrar uma oficina de escrita ou saraus de poesia para estudar literatura e compartilhar textos com professores e colegas de classe.

Eu mesma já testei todas essas formas, e cada uma delas me ajudou muito. Seja qual for a sua escolha, com certeza continuarei recomendando escrever sempre sentir vontade. ❤

Prevenir (ainda) é o melhor remédio

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O tempo devora a cauda da serpente, mais e mais, pedacinho a pedacinho, até sobrar somente pele e esqueleto. O tempo é a erosão da rocha, a água que seca e se transforma em deserto. O tempo é um quadro de Georgia O’Keeffe, chifres e flores, vida que é e vida que foi. O chão permanece abaixo de nós ainda que já não estejamos mais aqui para nele pisar. Corremos maratona implacável e sem vencedor.

De repente, a mente ágil, feita para aprender, começa a esquecer. Vai perdendo partes e neurônios. Perde o nome daquele ator, como era mesmo?, aquele que fez aquela novela que passava, sabe. Perde o almoço de ontem. Perde os filhos adultos, que logo novamente são criança, e depois já nem existem mais. Perde a si mesmo.

Uma vida de mágoas e ressentimentos. Não é preciso se preocupar com essa raiva que brota, ainda sou jovem. Os efeitos só sentimos quando é noite e as luzes foram apagadas. Vivemos dia após dia descuidados, embalados pelo nosso senso infantil de imortalidade. Pior que morrer é perder a vida.

Mas prevenir (ainda) é o melhor remédio. Não se vende em farmácia; já está dentro de nós. É deixar a alma lavar. Seguir a caminhada sem pressa. Apreciar o calor do sol que ainda brilha.

Acúmulos e o efêmero

Nós não explodimos de alegria. Porque não acumulamos felicidade. Não encontramos num dia um dinheiro perdido no bolso da jaqueta que não usamos desde o último inverno e pronto, temos felicidade plena. O dinheiro inesperado nos causa um sorriso, um pensamento dirigido à nossa boa-sorte, uma surpresa agradável. Mas não se soma ao pedaço de bolo de chocolate de sobremesa após o almoço de domingo nem ao telefonema do melhor amigo nem mesmo ao elogio sincero que recebemos recentemente. Não acumulamos alegrias. Nossa felicidade é efêmera. Dura um clique, alguns segundos do vídeo que registra o que deixamos de viver. Nossa felicidade é estrela cadente que corta e ilumina o céu escuro e se vai. E some. Até a próxima estrela rasgar nossa triste rotina.

Transformamos nossas vidas num aglomerado de negatividade. Estamos cercados de buracos negros que sugam nossa energia. Pois acumulamos tristeza. Pisamos de meia no chão molhado e sentimos raiva ou vontade de chorar. Não aguentamos mais. O pé molhado se junta à bronca do chefe, à briga com o parceiro, à conta para pagar, à noite maldormida. Os momentos ruins se entranham em nossas células, colam na nossa pele, se embaraçam em nossos fios de cabelo, fazem morada em nosso peito. A felicidade vem e vai. A tristeza fica. Porque não gostamos de nos perceber com medo, angústia, cansaço, vergonha, dor, e então não sabemos como agir com esses sentimentos. Nós os afastamos, antes de resolvê-los. Nem sabemos nomeá-los com precisão; ficamos sem saber se era tédio ou indisposição, mágoa ou decepção. Não ouvimos suas reclamações. Imediatamente os colocamos ali no cantinho. E lá ficam, nos esperando. E os outros chegam, e outros chegam. Até o cantinho não conseguir mais abrigar tudo aquilo que negamos.

Que tal inverter essa lógica? Convidar a tristeza para um bate-papo, um café com biscoitos. Ouvir suas razões e negociar um acordo. Aí a tristeza vai embora. Depois podemos negociar com a insatisfação. E então resolver os conflitos com o medo. E deixar todos partirem. Podemos usar o cantinho, agora livre, para algo mais produtivo, mais interessante, mais alegre.