Loja de unicórnios

Um paralelo entre o filme Loja de Unicórnios (Unicorn Store, 2019, Netflix) e a bipolaridade e outros transtornos mentais.

 

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Sobreviventes

O texto abaixo aborda o tema do suicídio.

 

Não imaginava que, naquela tarde comum de domingo, sentada preguiçosamente na cadeira que adoro, na sacada da sala de casa, com o celular na mão, de frente para meu companheiro, naquele ato corriqueiro que fazemos ao ler em voz alta, um para o outro, as mais recentes, importantes ou interessantes notícias do dia, me depararia com um acontecimento que me marcaria de forma tão profunda e pessoal. Ali estava aquela nota, pequena, para não expor a identidade dos envolvidos. Uma menina cometeu suicídio. Uma menina de dez anos. Com a arma do pai. Meses após a morte da mãe. Uma menina, uma arma. Uma vida, um tiro. E fim.

Li sem som. Só depois a voz saiu, assim meio fraca, meio sem compreender a náusea que me tomava. Náusea triste, bile ácida subindo pela garganta. De repente, era como se eu a conhecesse. Num instante não era uma menina que nem eu sabia o nome. Era uma menina como eu. Com o mesmo impulso. Voltei no tempo; lembrei de ter aquela idade e sentir aquela dor imensa, assim como ela deve ter sentido. A diferença é que ela tinha uma arma. Eu, não.

Afastei a memória, sem me permitir nem tentar digerir a sensação. É fácil, afinal, voltar para o presente quando se tem notícias novas a cada instante, e horários, e compromissos, e ter que se arrumar, colocar sapato, não ficou bom, trocar por outro, pegar a bolsa, trancar a porta. Sair, andar, entrar em carros, chegar, conversar, comer, beber. Os dias passam e nos esquecemos. Não deixamos a mente quieta, o tempo livre. Sempre há música e séries e livros e filmes para preencher o espaço. Textos, fotos, redes sociais. Mas sempre chega a hora em que voltamos e nos sentamos novamente naquela cadeira. Então nos lembramos.

Olhei para o céu, escuro, olhei para a noite que envolvia. E a menina voltou aos meus pensamentos. E se ela, como eu, tivesse sobrevivido? Será que teria tido alívio em seus sofrimentos? Talvez pudesse se sentir feliz. Pensei em tudo o que a menina poderia ter vivido, os sorrisos, os passeios, os estudos. Que livros teriam conquistado seu coração? Quais filmes a teriam encantado? Pensei nos amores, encontrar uma carreira, desenvolver um talento, construir uma família. As lágrimas que teria enxugado brotaram em minha face. Veria as mesmas estrelas que eu ali tão perto.

Minhas próprias angústias estavam misturadas na confusão de sentimentos que não me abandonava. Precisava falar sobre isso. Era algo grande, muito maior do que a nota num jornal local. Algo que ia além da necessária discussão sobre armas e leis sobre seu porte que pulsava e inflamava nos últimos dias. Além dos vídeos na internet com instruções que induziam crianças a tentarem suicídio. Era sobre saúde mental, dor, sofrimento, sobre aquilo que permeava todos os outros assuntos urgentes.

Fiquei semiobcecada, se é que isso é possível. Pesquisei mais. Li as igualmente pequenas reportagens sobre o caso em outros veículos. Descobri o nome da escola da menina. Pensei em procurar familiares e amigos, entrevistá-los, escrever um texto ou gravar um vídeo. Não seria difícil encontrá-los, afinal. Mas seria quase impossível, para mim, pedir que falassem com uma desconhecida num momento tão traumático. Desisti. E a história da menina continuou comigo somente em pensamento.

Nas semanas seguintes foram diversas as ocasiões que me fizeram voltar ao assunto. Pois a primeira vez que pensamos no suicídio abre uma porta. Porta que somente com muito esforço será fechada; sendo que teremos que ficar vigilantes durante toda a vida para que as mágoas não entrem pelas frestas e buraco da fechadura, ou para que ninguém tente arrombar e invadir nossa residência num momento de fragilidade. A ideação suicida se forma em situação de extremo desespero e dor insuportável. Aí se espalha e contamina todos os outros pensamentos. Passamos a acreditar que nossa morte será a solução de nossos problemas, assim como o de outras pessoas, que imaginamos sofrer com nossa existência ou inabilidade para existir dentro dos padrões que nos impomos. A depressão distorce a realidade, e não percebemos o absurdo de acreditar que familiares e amigos ficarão melhor sem nós, ou até mesmo aliviados com nossa partida. E tal pensamento se entranha nas células, passa de neurônio em neurônio, modifica as substâncias que nos compõem e, depois, com a melhora em nosso ânimo, se disfarça e se esconde, hiberna nas profundezas de nossa mente até se despertado por outro momento de angústia. Por isso não surpreendem, infelizmente, as múltiplas tentativas de suicídio de uma mesma pessoa. Surpresa ainda menos causa a série frequente e insistente de ideações suicidas que brotam diante de causas cada vez menos relevantes. De repente, toda tristeza e insatisfação já nos fazem considerar a desistência fatal.

Mas a figura menina, imaginada sem nunca ter sido vista, a menina enquanto símbolo de meu eu passado, me sussurrou ao ouvido durante dias. E cada momento, cada segundo de instabilidade e pesar passou a ser acompanhado de questionamento. Mais que isso, toda a minha história pessoal foi reanalisada, revista sob novo prisma. Aquela tentativa de suicídio, tantos anos distante, que sempre foi pensada como medo da morte acima do desejo de aplacar a dor, que me levou a dissipar a ideia de que um dia eu teria a capacidade de superar o pavor do ato irreversível, e que considerei fortuita por ter ocorrido tão jovem e tão inexperiente, o que certamente me salvou a vida, deixou de ser apenas mais um episódio no conjunto de sintomas e sentimentos que acompanham até o presente minha jornada diante da minha bipolaridade e da vida em si. Tornou-se, assim, episódio central de minha narrativa.

Como quem escapa da morte após um acidente de carro ou de avião, como quem supera e se cura de alguma doença terrível — o que não deixa de ser verdadeiro — passei a me enxergar enquanto sobrevivente. A autoidentificação com o sobrevivente faz oposição à visão comum do fracasso do suicídio. É um diferente recorte, uma diferente interpretação. Fracasso ou sucesso, a depender da perspectiva. Ver-se como sobrevivente também pode ter efeito transformador, ressignificando as experiências posteriores. Sonhos são trazidos de volta à superfície, lá de onde foram enterrados pelas necessidades do dia a dia. Vem a vontade de dar valor àquela vida salva, pelo destino, pela sorte ou pelo divino. Não há agora que se desperdiçar a segunda chance obtida. Mas, para ter o efeito transformador, é preciso dizer-se sobrevivente em voz alta. E isso não ocorre com o suicida. O tabu faz ser evitado nas pautas, é escondido, trancado em todos os armários e só consegue autorização para sair em meio a seus pares.

Em grupos de apoio, em geral os que tratam de transtornos mentais, o suicídio é citado em voz baixa, ainda que tenha espaço, com vergonha, sinal de um momento de fraqueza. Seguem-se cabeças balançando, concordando ou relembrando a própria experiência. O suicida recrimina-se, vê na tentativa falha de caráter, falta de força, falta de fé. Ou então brada o lamento por ter sobrevivido, acompanhado da promessa de nova tentativa mais eficaz. Desta vez os ouvintes, pensativos, questionam quando eles próprios terão a mesma coragem para buscar o fim da vida. Mas raramente o suicida se encontra na posição do afortunado que escapou da foice.

O que engana a morte em acidentes e catástrofes, em tragédias humanas e ambientais, ganha espaço na televisão. Nada mais justo comemorar a vida em meio a tantas notícias violentas e perturbadoras. Mas o suicida só aparece, quando aparece, quando deixa de existir. Em notas sem nome. Nenhum espaço é dado a quem tenta e continua vivo. O sucesso do suicida é a morte. Mas isso não muda a verdade que agora trago em meu espírito: não morrer é sobreviver. É ser sobrevivente. E também merece manchete. E pode ser dito com orgulho, e deve ser visto como algo que pode mudar radicalmente sua vida. Podemos falar em voz alta. Podemos escrever nossa história. Eu posso dizer agora: sou uma sobrevivente.

 

 

O pensamento suicida é algo sério. Se ele estiver presente em sua mente, procure ajuda!

Eu gostaria de contar mais histórias sobre sobreviventes do suicídio e mudar a visão que temos sobre o assunto. Quem quiser e puder dividir sua experiência pode entrar em contato comigo através do e-mail bipolareafins@gmail.com. E quem quiser apoiar este projeto pode compartilhar esse texto nas redes sociais. Obrigada!

Vamos simplificar?

sorvete

 

Leva tempo para se aprender algo significativo. Para se aprender alguma coisa que faça sentido e tenha impacto real. Posso dizer que tive a sorte de entender uma lição fundamental para o meu bem-estar emocional. Simplificar a vida.

Sim, parece algo tão banal. Até meio óbvio, né? Mas você já parou para pensar no quanto complicamos tudo sem necessidade? Especialmente quando falamos em saúde mental, é comum nos deixarmos levar pela preocupação e até mesmo obsessão com nossos estados mentais. Há um exagero em nossos atos. Se buscamos uma alimentação mais saudável podemos correr o risco de mudar bruscamente nossos hábitos e controlar cada item ingerido. Se recebemos o diagnóstico de transtorno mental não é raro que façamos toda a nossa vida e nossa experiência como pessoas girarem em torno dele.

Desejamos o total, o perfeito, o sublime. Então planejamos meticulosamente. Queremos a cura, a felicidade irrestrita. Então investigamos a fundo, analisamos e reanalisamos cada pensamento. E nos deparamos com defeitos. E nos culpamos por eles. Ao mesmo tempo que desdenhamos e ignoramos as pequenas alegrias, os momentos cotidianos, as coisas simples.

Essas coisas simples, na verdade, são o que temos de mais valioso. Pois a vida é feita de caos, é imprevisível. E não podemos controlar tudo o que nos acontece. Então nos resta buscar certo equilíbrio, ou melhor, um saldo positivo. Eis a lição que aprendi. Não é necessário um dia grandioso para que eu fique feliz. Nem mesmo fico bem somente na ausência de infortúnios (se assim fosse, andaria cabisbaixa com maior frequência). Mas busco um resultado simples — aí está a tal simplicidade que procuro. Um resultado quase matemático.

Não complico a vida. Se o dia está ruim, faço algo bom para compensar. Como se me desse presentes, fizesse agrados. Um momento de estresse necessita de uma volta para relaxar. Uma decepção pode ser seguida de um delicioso sorvete. Mais que isso, pois o objetivo da fórmula não é chegar ao zero, ao nulo, mas sim, quando possível, ao positivo. Então, para cada acontecimento negativo posso enumerar dois ou mais positivos daquele mesmo dia. Caso não tenha havido um saldo favorável, que tal fazer um chá ou chocolate quente antes de dormir? Pode tomar enquanto lê um livro ou assistindo à sua série favorita. Pronto, agora já temos uma forma de equilibrar o dia. Ou podemos apenas ir dormir, que amanhã é um novo dia. Simples assim. E aí, que tal simplificar mais a vida?

Bipolar ou borderline?

São muitas as barreiras a serem superadas por quem tem um transtorno mental. A primeira delas é justamente saber qual o transtorno a ser enfrentado. Não é raro haver dificuldade no diagnóstico, equívocos, erros e uma longa jornada até finalmente descobrir a doença correta. Uma confusão comum é no que diz respeito a diferenciar o Transtorno Bipolar e o Transtorno de Personalidade Borderline.

Antes de abordar as características dessas duas doenças é necessário esclarecer que pertencem a categorias distintas. O Transtorno Bipolar é um transtorno do humor. E o Borderline é um transtorno da personalidade. Enquanto os transtornos do humor estão ligados tanto a fatores neurológicos (inflamação cerebral) quanto a psicológicos e ambientais, os transtornos de personalidade se referem a padrões de comportamento que começam durante adolescência ou início da vida adulta e permanecem ao longo do tempo, sendo que podem ser incompatíveis com o que é esperado do indivíduo e lhe causam grande sofrimento.

Assim, o humor do bipolar varia por motivo neurobiológico, tendo ou não um gatilho externo. É o cérebro do bipolar que causa a alteração de humor. Já o borderline tem a afetividade exacerbada, mas isso é uma característica da personalidade dessa pessoa e representa a forma como ela reage a fatores externos estressores.

Talvez a diferença mais perceptível seja a duração das fases de instabilidade. No Transtorno Bipolar as variações de humor ocorrem em fases bem marcadas e estáveis. Há a fase maníaca (com duração de pelo menos uma semana) que alterna com fases depressivas (com duração de semanas a meses) e períodos de eutimia (do grego, significa o humor normal, sem alteração, em equilíbrio). Obviamente nem toda crise terá a mesma duração, e haverá diferenças de pessoa para pessoa, mas as fases da bipolaridade são consideravelmente mais longas do que as mudanças bruscas e rápidas de humor do transtorno borderline, que inclusive podem alterar mais de uma vez no mesmo dia.

Há um subtipo de Transtorno Bipolar chamado Transtorno Ciclotímico (ou Ciclotimia), no qual as alterações de humor são breves, também podendo haver mudanças no mesmo dia. A pessoa com Ciclotimia, entretanto, não chega aos extremos da escala do humor. Ou seja, nunca terá mania nem depressão profunda, somente suas formas mais brandas, a hipomania e a depressão leve ou moderada. Dessa forma, nota-se que o indivíduo ciclotímico pode apresentar a mesma frequência de alteração de humor do borderline, mas não a mesma intensidade.

Podemos ver algumas questões presentes no Transtorno de Personalidade Borderline, que são necessárias para seu diagnóstico, mas que não aparecem na bipolaridade. Tais questões são referentes a um medo exagerado de abandono real ou imaginado, maior propensão a automutilação, oscilações da autoimagem e do conceito que tem de si mesmo, manter relacionamentos interpessoais intensos e instáveis. Outras questões podem aparecer nas duas doenças, como grande impulsividade e exibir comportamentos de risco e autodestrutivos (abuso de substâncias, abuso de álcool, gastos excessivos, vício em jogo), mas no bipolar tais comportamentos só ocorrem durante as crises maníacas. O borderline não possui fases de humor nem apresenta períodos assintomáticos; assim, os sintomas e características constituem a própria personalidade da pessoa.

Resumidamente, o bipolar tem um humor que varia entre extremos, mas permanece dias, semanas ou meses em cada fase. O borderline também vai a extremos, mas a mudança entre um e outro é muito mais rápida. O humor bipolar é causado por fatores neurológicos; questões psicológicas e externas podem servir ou não como gatilho para uma crise. O humor do borderline varia por conta de como ele se relaciona com ele mesmo e com o mundo externo. Os critérios diagnósticos da bipolaridade estão mais relacionados ao ânimo e humor, já os tópicos avaliados num diagnóstico de borderline se relacionam com o comportamento e a afetividade.

Embora à primeira vista sejam doenças muito parecidas, é possível diferenciá-las através de fatores bem característicos de cada uma. O autoconhecimento e a observação dos sintomas tornam mais fácil identificar corretamente a doença. Mas, se ambas são transtornos mentais que apresentam alterações de humor e os tratamentos visam estabilizar o humor, por que é tão importante saber qual o transtorno que a pessoa possui? Em primeiro lugar, preciso estabelecer que considero tratamento para transtorno mental aquele que é conduzido por um especialista em saúde mental (psicólogo, psiquiatra, neurologista). Outros tratamentos podem promover bem-estar geral, mas não são específicos para transtornos mentais. Atividade física, por exemplo, pode ajudar quem tem um transtorno, assim como quem não tem. Mesmo quando se procura um profissional, um nutricionista, por exemplo, para melhorar a alimentação, continua não sendo um tratamento para transtorno mental, mas sim uma atividade que pode proporcionar uma melhora na qualidade de vida como um todo e, por consequência, aliviar significativamente os sintomas de um transtorno mental.

Por ser um transtorno de personalidade, o borderline não responde tanto ao tratamento medicamentoso. Se pudéssemos avaliar a porcentagem de importância de cada tratamento, diria que para um bipolar recém-diagnosticado tem-se em média 50% de medicação e 50% de psicoterapia. Depois será possível diminuir a medicação, estabilizar o humor e direcionar o foco para a terapia com intuito de prevenir novas crises e aprender a lidar com elas. Mas o borderline já começa com 10% de medicamento e 90% de importância da terapia. É necessário que esteja mais disposto a perceber e mudar comportamentos.

Para todo transtorno mental o autoconhecimento e a terapia são fundamentais. Saber quais os sintomas e características e ser capaz de repensar como agimos nas diversas situações da vida nos dá muita autonomia e controle sobre a doença. O bipolar poderá compreender quais são os seus gatilhos e que atividades o ajudam a evitar que uma crise se instale. O borderline perceberá que se apega rápido e intensamente às pessoas e que cria uma imagem idealizada delas e do relacionamento. Então será possível apaziguar seu medo do abandono e controlar sua impulsividade. Por fim, não podemos esquecer que sempre é possível descobrir a nossa forma de encontrar estabilidade e felicidade.

Arteterapia

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Nós somos como casas. Locais onde vivemos e onde guardamos nossos pertences, memórias, afetos. Possuímos uma funcionalidade prática — um corpo que respira, pensa, bombeia sangue, transporta nutrientes, uma casa que possibilita o preparo de alimentos, que abriga, que protege. É também o local onde vamos retendo ao longo dos anos os objetos, aprendizados, sentimentos que acumulamos. Os itens de decoração, os utensílios de cozinha, nossas roupas e sapatos, documentos, produtos de higiene, de beleza, mesa, cadeiras, armários, presentes, livros, sofá, almofadas, travesseiros, geladeira, espelho, televisão, calendário. Seu endereço, o número de seu documento, o nome de seu primeiro animal de estimação, o telefone da sua mãe, a data de vencimento da fatura do cartão, os ingredientes da receita da semana passada que ficou ótima. O dia mais feliz da sua vida, aquela viagem incrível, o enredo do seu livro preferido, as aulas da faculdade, suas habilidades cognitivas.

Mas às vezes juntamos coisas demais. E quanto mais atulhada a casa mais difícil torna-se identificar e jogar fora o que não serve mais. Então deixamos de descartar o que está quebrado, vencido, o que é inútil e prejudicial. Em algum momento o excesso passa a ocupar todos os espaços, dificultando nossa movimentação, danificando as estruturas, impedindo a entrada do novo, propiciando o pó e o mofo, os insetos e as doenças. Em algum momento estaremos atulhados de mágoas, pensamentos negativos, desânimos, medos, arrependimentos. Já não conseguimos nos desfazer deles, já ocupam o lugar de nossas alegrias. Travam os caminhos de nossa mente, lotam e tornam indisponíveis cômodos inteiros.

E agora? Como tornar a casa habitável novamente?

Esse é o objetivo da Arteterapia: servir de ferramenta para reconstruir nossa casa/mente. Porque a arte nos dá um lugar para despejar esses conteúdos, pensamentos e emoções que só estão nos prejudicando. Estão aqui dentro de nós e precisam ir para algum lugar. Vão parar na pintura, na escultura, na cerâmica, no bordado. Surgem no artesanato e na arte transformados. Aparecem nos textos, nos livros, nos filmes na forma de impulso criativo. Deixam de ser destrutivos. E abrem caminhos dentro de nós. E liberam espaço para novos pensamentos e ideias.

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Há a livre expressão do simbólico. Uma forma de falar sem precisar de palavras, sem a elaboração dos discursos, sem o peso racional do que pode ser ou não dito. Tudo aquilo que é ausência no dia a dia, que vive escondido e trancado nos nossos aposentos internos, pode ser colocado para fora e ressignificados.

Na arteterapia esse processo é conduzido por um especialista, com conhecimentos de técnicas artísticas voltadas para o contexto terapêutico. É como um especialista em limpeza e organização. Porque quando a casa está muito cheia, suja, desmoronando, faz-se necessário contar com a orientação de um profissional.

 

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Porque o tempo não para durante sua depressão

Um assunto que não é muito comentado em saúde mental é o tempo perdido durante as crises e a dificuldade em se adaptar ao mundo quando atinge a sonhada estabilidade.

 

 

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Eu testei: açaí – atualização

Há um ano eu publiquei dois textos — Eu testei: açaí para bipolaridade e Eu testei: açaí para bipolaridade (parte 2) — para contar minha experiência pessoal com a ingestão de açaí com o propósito de atenuar os sintomas da bipolaridade. Algumas ressalvas são necessárias. Em primeiro lugar, baseie-me num estudo ainda em desenvolvimento; ou seja, não havia nada confirmado cientificamente a respeito da eficácia do açaí ou mesmo de como usar o açaí para tratar transtorno bipolar (se bastava o consumo da fruta ou seria necessário ingerir um suplemento, por exemplo). Cheguei, na época, a entrar em contato com um dos pesquisadores, mas não obtive resposta. Outra questão essencial é que foi um experimento totalmente amador, no qual consumi açaí diariamente e anotei minhas emoções e sensações para tentar ver se haveria alguma mudança positiva em meu humor.

O que me motivou a fazer o experimento e, consequentemente, os textos foi uma publicação que afirmava ser o açaí a cura da bipolaridade, além do surgimento de todo um sortimento de superalimentos. Costuma haver certa histeria coletiva quando um novo alimento “milagroso” é “descoberto”, impulsionada, certamente, pela indústria e seu poderoso marketing. Não desejava ser influenciada, todavia, por minhas opiniões anteriores sobre tais supostos benefícios. Por outro lado, acredito sim na importância de uma alimentação saudável para a saúde física e mental. Dessa forma, consegui manter, na medida do possível, certa neutralidade durante o experimento.

Uma das premissas para se estudar o uso do açaí para tratar a bipolaridade é o fato de que doenças mentais estão relacionadas a inflamações em certas áreas do cérebro. Assim sendo, alimentos anti-inflamatórios poderiam ajudar a aliviar os sintomas. Mas a dúvida era se a ingestão desses alimentos era suficiente para as substâncias chegarem ao cérebro e em quantidade suficiente para entrarem na células e diminuírem a inflamação. O teste científico foi realizado injetando extrato de açaí direto nas células cerebrais. Ou seja, nada ainda confirmava se comer açaí teria algum efeito em nossos neurônios.

Outra premissa comentada era como a saúde mental dos índios que consomem açaí é excelente. Aqui temos outro ponto complicado. Não sou antropóloga, mas observo que existem dois caminhos extremos em relação a transtornos mentais quando falamos de povos indígenas. Há sim tribos cuja saúde mental dos indivíduos é excelente. Mas será que o açaí é responsável por isso? Ou somente o açaí é a causa dessa bonança? Ou será que tais povos, isolados, vivem uma vida tranquila, livres da quantidade de estresse, pressão e cobranças de nosso meio urbano? Não podemos deixar de lado o índice oposto, que mostra o altíssimo número percentual de casos de alcoolismo e suicídio entre indígenas, em especial em tribos que estão adoecendo pelo contato com o homem branco, perdendo suas terras e vidas em conflitos com madeireiros e extratores ilegais. Que perdem seus direitos nas mãos de governos que dão mais valor ao agronegócio. Será que cabe mesmo dizer que a saúde mental dos índios é melhor por causa do açaí?

Eis que ontem recebi uma mensagem de um leitor dizendo que acredita nos benefícios do açaí, mas que tem sido “uma luta” fazer sua filha bipolar ingerir o alimento, uma vez que ela não gosta de açaí. Isso me fez pensar bastante.

Tanto que estou aqui. Não tenho escrito na mesma frequência de antes. Nem mesmo gravei vídeos inéditos para o canal do YouTube. Não tenho lido blogs que sigo e havia deixado de lado um livro quase no fim. Às vezes decepções nos abatem e problemas pessoais/financeiros/burocráticos nos roubam a atenção. Mas certas questões não podem ser deixadas de lado.

Antes de mais nada, concluí o experimento afirmando que não notei nenhuma mudança significativa para acreditar que o consumo de açaí era suficiente para causar efeito numa inflamação cerebral. Ainda acredito que a alimentação saudável é essencial para a qualidade de vida, mas principalmente em contraposição a uma alimentação ruim. Na minha percepção uma dieta cheia de fast food, alimentos industrializados e com excessos de sal, açúcar e gorduras faz mal ao corpo e à mente. Uma alimentação mais natural e equilibrada, por outro lado, é aquela que não nos prejudica. Mas não acredito que um único alimento possa ser a cura definitiva de uma doença mental, nem de qualquer outra doença.

Dessa forma, ninguém precisa comer nada que desagrada. Muito menos em prol de algo ainda sem confirmação. Sem contar que devemos ter muito cuidado com a ingestão diária do que quer que seja, ainda que se trate de alimento in natura. Muitas vezes pecamos pelo excesso. Li faz um tempo sobre um homem de meia-idade que tinha uma ótima saúde. Então resolveu tomar um suplemento com intuito de obter mais vitaminas. Desejava ser mais saudável. Era um suplemento comum, daqueles de farmácia. Em pouco tempo o homem começou a se sentir mal. Não recordo o que aconteceu exatamente, mas ele ficou muito doente. Perdeu um rim, ou teve alguma outra consequência igualmente grave.

A minha conclusão é de que devemos deixar tudo mais simples, mais leve, mais diverso. Comer bem, de forma equilibrada. Sem exageros em nada. Vida tranquila. Reduzir o estresse. Aproveitar os momentos bons. Chorar quando estiver triste. Fazer terapia se for possível. Buscar médicos especialistas se estiver doente. Saber que vivemos altos e baixos. Conhecer sua doença mental. Tentar ficar em paz com você mesmo. Isso é saúde mental. Não há nenhum segredo, afinal de contas. Não há milagres nem milagreiros. E essa é a melhor notícia possível.