Bifurcações

Haveria de haver assento diante de cada encruzilhada da vida, nas bifurcações de nossas decisões. Talvez até um sofá com manta e xícara de bebida quente ao lado para escolhas em dias frios. Quem sabe um refresco e uma boa vista do horizonte ensolarado, para distinguir qual o melhor caminho a seguir.
Quisera eu não ter vendido minha juventude em troca de uns poucos momentos de prazer. Quisera o deleite de hoje não fosse espremido entre obrigações e decepções. Haveria de haver um tempo curto para os dias ruins e um tempo longo, quase eterno, para a felicidade e as alegrias que nos visitam.
Quem sabe me fosse dada a oportunidade de virar pássaro ou gato vez ou outra, e recuperar o brilho entre voos ou saltos cheios de energia. Talvez eu pudesse, ainda que humana, deixar o vento bagunçar meus cabelos e sentir o cheiro das flores que ainda florescem no inverno.
Pode ser que haja sofá e bebidas e esperança a cada nova bifurcação que aparece em nossa jornada. Talvez só precisemos olhar melhor, deixando os voos e os saltos livres dentro de nós.
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O tempo e a saúde mental

O novo vídeo do canal Bipolar e Afins é uma reflexão sobre as diferentes percepções do tempo (cronos, kairós e aion) e sua relação com a saúde mental.

 

Autoestima e outros pensamentos

Aceitar a vulnerabilidade. Baixar a guarda. Rejeitar o impulso pelo perfeccionismo. Rever meus conceitos sobre o que é melhorar a autoestima.

Fortalecer a autoestima é essencial para: combater os momentos de desânimo e insegurança; dissipar as dúvidas sobre minha capacidade e meu valor; combater a tendência a desistir dos objetivos no primeiro obstáculo; deixar de usar a agressividade como defesa; desfazer a necessidade de controle, que me impede de relaxar e faz os problemas ficarem girando em minha mente sem utilidade; combater o hábito de remoer situações passadas; enfrentar a dificuldade em assumir os erros; diminuir as oscilações de humor e a instabilidade; repensar a tendência a me culpar mais que o necessário. E muitas outras vantagens.

 

notas_mentais

 

Mas talvez a solução não seja tentar o tempo todo, a qualquer custo, aumentar a confiança, ou mergulhar sem reflexão no discurso da positividade. Faz parte do processo aceitar a insegurança. Temos falhas. E podemos evoluir, certamente. Por outro lado, nem tudo podemos controlar. É preciso aceitar que nem sempre alcançaremos o resultado desejado, mesmo dando o nosso melhor. E tudo bem.

Não precisamos completar o nível máximo em todos os aspectos da roda da vida ou em outras ferramentas de desenvolvimento pessoal, tão disseminadas nesses tempos de insatisfação vigente. Ter para onde ir faz você continuar andando; sempre buscar o que não tem faz você nunca sentir as conquistas.

Equilíbrio. É frágil, assim como eu. Significa que combinamos.

Sou forte e frágil. Confiante e insegura. Tímida e comunicativa. Aceito minhas partes, reúno minhas sombras e personas.

Pensei num texto justamente sobre elas: sombras e personas, e também anima e animus. Conceitos junguianos. Como utilizá-los na prática. Surgiu a frase inicial em meu pensamento, e a seguinte, e a seguinte. Um texto mental. Não anotei. Esqueci. Começarei do zero, outro texto, mesmo tema. Talvez melhor, talvez pior, diferente. E tudo bem.

Tatuagem

tattoo
Eu tenho uma tatuagem no pé
Uma frase gravada na pele
Um aviso, um lembrete, uma lembrança
Que já desbota
Agora, sempre que avisto estas letras já quase ininteligíveis,
Penso que tudo é perene
Inclusive aquilo que julgamos durar eternamente
Tudo o que há desbota, some, vira pó
E também se transforma
A mensagem que antes era um sinal para a memória,
Forma de evitar o esquecimento,
Homenagem pós-morte, pós-crise, depois que o sangue já foi lavado,
Torna-se não mais representação dos desafios passados e superados,
das lágrimas que criaram sulcos na face,
Mas sim dos passos futuros
Um pé diante do outro, com ou sem tatuagem,
Vida que segue dia após dia,
Até não existir mais.

Escrita Terapêutica

Um comentário recente num texto antigo fez com que eu refletisse sobre os benefícios da escrita terapêutica.

escrita_terapeutica

 

Sempre que me perguntam formas para lidar com um transtorno mental (e recebo essa pergunta com frequência) coloco a escrita na lista das dicas. Escrever é uma maneira excelente de acessar e lidar com nossos sentimentos, não apenas para quem tem depressão, é bipolar ou tem outra doença, mas para todas as pessoas.

Tanto que, já faz um bom tempo, surgiu um termo específico para descrever a escrita com fins curativos — a Escrita Terapêutica. Outras expressões, ligadas à escrita terapêutica, passaram a circular por aí, como expressive writing e morning pages. Mas, antes de abordar essas e outras técnicas, vamos refletir sobre como escrever pode nos ajudar.

 

Benefícios da escrita terapêutica

Escrever sobre si mesmo, deixar o fluxo de pensamentos correr livremente e anotar suas emoções no papel contribuem para o autoconhecimento. Podemos descobrir sentimentos que ficaram escondidos dentro de nós, compreender melhor nossos medos e também nossos desejos. Quais as suas motivações? Por que você hesitou em marcar aquele compromisso? E outras perguntas como essas ficarão mais claras. Além disso, escrever frequentemente estimula a criatividade, a comunicação, a concentração e a disciplina. Sem contar que é uma forma de manejar as emoções mais intensas e repensar nossas decisões antes de agir por impulso. Quando, por exemplo, sentimos raiva, é útil desabafar no papel e ver como isso faz nosso coração acalmar. A raiva é sublimada, é direcionada para um objeto, ao invés de ficar borbulhando dentro de nós. Podemos transformar emoções negativas em texto e até mesmo em arte. Escrever nos dá a possibilidade de alcançar nossos sentimentos negativos, nossas emoções obscuras e nossas pulsões inconscientes, ou seja aquilo que insistimos em negar e reprimir, de forma segura, num ambiente controlado, antes que tudo exploda de forma violenta. Escrever, por fim, melhora o nosso humor e aumenta nossa autoestima.

 

Como praticar

Para aproveitar todos os benefícios listados acima é muito fácil. Você precisará de um local tranquilo (um escritório, seu quarto), com o mínimo possível de barulho e de interrupções. Mas não se preocupe em ter um lugar perfeito para escrever, o mais importante é praticar os exercícios. E também precisa de ferramentas para escrever, de preferência papel e caneta, mas também pode ser o celular ou um notebook. Recomendo ter um caderno só para a escrita terapêutica. Depois é só reservar um tempinho, 10 ou 30 minutos, e começar a escrever. É importantíssimo lembrar que, embora escrever ajude a lidar com os conflitos e sentimentos, essas técnicas não substituem o tratamento convencional. Continue fazendo o acompanhamento com seu médico e seu terapeuta. Mas você poderá levar as questões que surgirem na escrita para a consulta com o psiquiatra e com o psicólogo, e isso vai contribuir para o seu tratamento.

 

Técnicas de escrita terapêutica

A melhor técnica é aquela que serve ao seu objetivo e às suas necessidades neste momento presente. Durante um período da minha vida, dos 10 aos 20 e poucos anos, tive vários cadernos, onde anotava e analisava meus sonhos, transcrevia trechos de livros e letras de música, desenvolvia ideias e anseios e desabafava quando necessário. Houve meses em que escrevia diariamente. Houve períodos de menor frequência ou de puro silêncio. Hoje, em contrapartida, anoto as preocupações que ocupam minha mente em minha agenda, bullet journal, bloquinho ou celular, sem a necessidade de um caderno específico para esta finalidade.

Para o autoconhecimento e a criatividade, um método interessante é conhecido como morning pages, que consiste em escrever três páginas à mão logo após acordar (ou logo após tomar o café) colocando no papel tudo aquilo que passar pela sua mente. Não há conteúdo certo nem errado, nem precisa elaborar o que vai escrever, basta anotar o que estiver em seus pensamentos. Ao contrário desta técnica, é possível também escrever à noite, antes de dormir, e anotar tudo aquilo que o incomode ou preocupe, ou seja, as questões que podem atrapalhar seu sono. Além de possibilitar que você durma melhor, escrever antes de deitar pode diminuir a ansiedade quando houver muita expectativa para um compromisso no dia seguinte. Podemos também ter um caderno sempre por perto para desabafar nos momentos de angústia ou tristeza, e escrever sobre a briga com o parceiro ou sobre um dia estressante no trabalho. Ou ter aquele bloquinho dos bons sentimentos, onde anotamos as coisas boas que nos acontecem ou fazemos uma lista da gratidão. Talvez você escolha a expressive writing therapy, e reserve 20 minutos por dia, durante quatro dias, para escrever sobre seus sentimentos mais profundos, traumas ou outros assuntos pessoais e importantes. Pode ser que você deseje também se conectar com outras pessoas e explorar seu lado artístico. Você poderá encontrar uma oficina de escrita ou saraus de poesia para estudar literatura e compartilhar textos com professores e colegas de classe.

Eu mesma já testei todas essas formas, e cada uma delas me ajudou muito. Seja qual for a sua escolha, com certeza continuarei recomendando escrever sempre sentir vontade. ❤