Fim de um ciclo?

Faz tempo que não venho aqui. Faz muito tempo que não piso nessa terra que eu mesma semeei e que agora se encontra tomada por plantas silvestres, ervas daninhas, flores selvagens. Não foi descaso, como possa parecer. O tempo passou enquanto os assuntos não se “encaixavam”. Houve (e, infelizmente, ainda há) um vírus assolando a humanidade nesse cenário quase pós-apocalíptico. Algumas vezes me senti dentro de um filme ou livro, até que acordei sabendo que tudo foi realidade.

Mas bem antes disso já surgia em mim algo diferente. Um sentimento duplo: de um lado a crença de que falei tudo o que podia, dentro de meus limitados conhecimento e experiência, sobre saúde mental; de outro, a sensação de missão cumprida. Faz um bom tempo recebi um e-mail. Uma pessoa dizendo que na noite anterior teria tirado a própria vida caso, por acaso, não tivesse descoberto esse mesmo blog. Nas estatísticas apareceram todos os textos publicados (que já eram em número considerável àquela época), mesmo os mais antigos, com pelo menos uma visualização. E o horário de pico de leitura havia sido durante a madrugada. Essa pessoa, num momento de total desespero e solidão (e quem já passou por isso sabe exatamente do que estou falando), ficou lendo noite adentro. E algo em minhas palavras a consolou. Com certeza não tenho como fazer melhor do que isso. Esse acontecimento fortuito e afortunado ficará marcado para sempre em mim: um clique, uma vida salva. Definitivamente não é sempre que algo assim acontece.

Mas não foi como se eu não soubesse que haveria essa possibilidade. Veja bem, eu sempre tive plena consciência da responsabilidade que envolve escrever sobre saúde mental. A cada palavra digitada na tela de meu velho notebook surgia a reflexão: ficou claro o sentido? E se alguém em sofrimento ler essa frase, se sentirá melhor? E se for um familiar ou amigo de uma pessoa lutando contra os demônios de seu transtorno, entenderá como se sente o outro? Minhas palavras assustam ou incentivam a ajudar? Minhas palavras mostram a gravidade de como é viver em uma condição distinta ou os termos que uso só confundem quem olha de fora? As informações que apresento estão corretas? Se um profissional, médico ou psicólogo, aqui estiver, encontrará uma forma diferente de compreender os sentimentos de quem sofre ou apenas se deparará com mais uma lista de sintomas? Enfim, quis expressar o melhor que eu poderia oferecer a partir, como disse antes, dos meus limitados conhecimento e experiência.

Foi com base no mesmo senso de responsabilidade, entretanto, que deixei de voltar. Esse foi um período diferente de tudo que vivemos antes. Acredito que a maioria não imaginava a proporção e a gravidade que teria até o caos bater em sua própria porta. Aparentemente muitos ainda não compreenderam mesmo com doença e morte dentro de seus lares.

São tempos sombrios de negação, insensatez, falta de empatia e anticiência. E como eu poderia vir aqui dizer que vai ficar tudo bem? Que alívio seria possível diante de tudo isso? Ou melhor, será correto abraçar o discurso “good vibes” num momento como esse? Eu não tenho essa resposta. Mas acredito, de coração, que às vezes (muitas vezes) precisamos nos indignar. Olhar ao redor e perceber que as coisas vão mal e ficam pior por causa de absurdos que não deveriam ser permitidos.

Eu não voltei porque estou indignada. E que saúde mental será possível hoje? Não sei dizer. Só queria gritar que é absurdo. Que não acordei num filme pós-apocalíptico, mas numa distopia negacionista, terraplanista, fascista. E até agora não encontrei meios de sair desse mundo de pesadelo. Algo em mim ferve e chora, borbulha e derrama. E dentro do pouco que sei vive a plena consciência de que só ajudamos outra pessoa quando estamos bem. Vir aqui apenas vomitar minhas angústias seria um impulso contrário a tudo que construí aqui.

No fim, sempre fui uma contadora de histórias. Vejo claramente agora. Contei parte da minha vivência e parte da vida de outras pessoas. Contei sobre filmes, músicas, séries e livros. Falei de poesia e de sonhos. Contei histórias sobre sofrimentos psíquicos e resiliência. Trouxe palavras de conforto e superação. Relatei histórias reais e narrativas ficcionais muito parecidas com a realidade. Contei histórias diversas, felizes e tristes, antigas e atuais, breves e longas. Mas essa história do agora eu não quis contar. Já entrou para os livros que as crianças aprendem na escola, mas aqui ficou de fora. Neste espaço quero uma nova. Um ciclo acabou.

Saúde mental vai muito além de lidar com a doença. E eu já falei o que podia sobre as doenças. Agora posso contar outras histórias.

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Um novo ciclo se iniciou aqui, caso alguém tenha curiosidade 😉

E por falar em contar histórias… já ia até esquecendo, mas tem histórias que ajudam, fortalecem e até curam um coração que sangra. Hoje me voltei para elas e se tornaram o melhor que posso oferecer para ajudar outras pessoas. Se você busca algumas dessas histórias mágicas e poderosas, veja o link abaixo:

https://www.sympla.com.br/biblioterapia-1__1255540

O louco

Faz tempo que escrevi esse texto. Muito tempo, antes mesmo de criar este blog… 

 

O Louco 

Dizem que ele é louco. Porque acredita que as pessoas são máquinasPorque acredita que as máquinas querem subjugar os humanos restantes. Dizem que atacou a operadora de caixa do supermercado. Que é perigoso e que precisa ser contido. Dizem que ele é louco. Então o levaram para um local recluso, com celas impessoais e um vasto jardim. Dizem que irão tratá-lo e cuidar bem dele, mas o confinaram e o anestesiaram. 

***

As Máquinas, de acordo com ele, desejam dominar os homens. Elas entram em suas mentes e tornam o seu interior vazio, meros fantoches de seus planos. Reconhece as Máquinas pelo olhar vazio e pelos movimentos mecânicos. O corpo é só a casca da qual a máquina se alimenta, após apodrecer órgãos internos. Este era um plano ardiloso: disfarçavam-se de humanos, usando sua aparência, fingindo suas ações. 

Ele, entretanto, não se deixava enganar. Observou tanto que descobriu as artimanhas daqueles que tentariam destruí-lo. Sabia que precisavam de eletricidade para sobreviver; e, assim, passavam grande parte do tempo à luz de suas telas. Tão dependentes eram que passaram a levá-las nos bolsos, sempre próximas para que não parassem de funcionar. As seguravam voltadas para o rosto e alimentavam-se satisfeitos.  

Era difícil fugir das Máquinas. Com uma estratégia tão bem elaborada, conseguiram sucesso e já estavam em toda a parte. Tentava escapar, trancava-se em casa, mas não encontrava abrigo. Um dia teve certeza de que logo seria pego. A moça do mercado era uma delas – com semblante estático, registrava tudo aquilo o que ele consumia – e agora possuíam informações para encontrá-lo. Sabiam quem era, sabiam que era humano. Era preciso agir. E segurou seu pescoço com as duas mãos, aplicando toda a força que havia em seus braços magros.  

Máquina reagiu. Com sua inteligência, emitiu um grito de mulher. Tão perspicaz que soube livrar-se dele sem demonstrar sua identidade. Foi levado dali para um local distante, onde, para sua sorte, encontrou sua única aliada – Laura. 

Laura sabe como mantê-lo humano. Laura ouve o que diz e concorda. Laura cuida dele. Com olhar bondoso, lhe diz quando almoçar e jantar. Sabe o quanto é importante ingerir alimentos que saem da terra e das árvores. Suas substâncias entravam em suas células, o mantinham mais próximo do natural. E ela sempre lembra de trazer salada e batatas para ele. Serve em silêncio e sorri. Este é o código de seu pacto. Não precisam de palavras. Laura sorri e assim mostra que o compreende e que está seguro. 

Assim como a alimentação, o asseio é fundamental. Laura o lembra quando tomar banho e traz toalhas limpas. É necessário manter o corpo impecável; isso diferencia nossa raça. Lava com vigor braços e pernas até sentir-se limpo. Veste roupas lavadas. Faz questão de manter o quarto organizado. Para cada objeto há um lugar específico, e ele arruma milimetricamente seu caderno com uma caneta ao lado. A caneta permanece a dois centímetros do caderno onde anota seus pensamentos e faz desenhos complexos de máquinas e homens. 

Sua vida segue uma rotina, parecida com a vida que sempre levou. Apenas dois aspectos mudaram desde sua chegada àquele lugar distante – as pílulas e a ausência de Máquinas. As pílulas eram dadas por Laura todos os dias, sempre no mesmo horário. Agora pega suas duas pílulas coloridas e mostra para Laura que as engoliu. Ela se preocupa – ele está certo disto – e sempre confere. É importante ingerir as pílulas que impedem que pessoas se transformem em utensílios daqueles seres sem alma. Ninguém pode comentar abertamente, porém ele percebeu que aquele espaço faz parte de um grande experimento contra as Máquinas e ele foi escolhido.      

Sai para o jardim e senta-se num banco. Os comprimidos entorpecem sua mente. A sensação é de paz. Há tranquilidade naquele campo, com suas árvores espaçadas e canteiros de flores. Pode ficar ali durante horas, apenas observando pássaros, insetos e o vento nas folhas. O medo não reside em jardins. Anseios e conspirações não alcançam seus pensamentos. Existe em seu mundo somente a formiga que carrega um pedaço de verde. 

Os Outros espalham-se pelo mesmo ambiente. Em bancos, alguns permanecem quietos, tal como meditassem de olhos abertos. Um deles agita-se e volta a cabeça para todas as direções, babando. A boca aberta sem emitir ruído, os dedos retorcidos. Após alguns minutos, passa a manter a mesma expressão vazia dos demais. Neste horário, os Outros parecem brinquedos cuja pilha acabou, tendo sida toda gasta em palavras sem sentido e angústia antes das mágicas pílulas.   

É uma sexta-feira, dia de conversar com o Dr. Augusto. Em frente ao homem corpulento de mãos brancas, ouve as mesmas perguntas da voz vagarosa e recita as mesmas respostas. Reafirma seu bem-estar mental e que não encontrou mais Máquinas. Dr. Augusto balança a cabeça e registra as informações em uma caderneta com letras ilegíveis. Pede para subir numa balança no canto da sala, verifica o número e anota o último dado.  

Sai da sala do Dr. Augusto e segue andando até a sala principal do casarão que lhe serve de moradia. Abruptamente, interrompe o movimento. A perna fica suspensa no ar por instantes e desce sem força em direção ao chão. As pálpebras param de piscar e a respiração é contida quando o ar deixa seus pulmões. A visão de um evento no cômodo central o deixa inerte. No lado oposto do aposento está Laura, encostada numa parede, vestindo seu costumeiro jaleco verde-claro enquanto deposita toda a atenção na pequena tela brilhante em suas mãos.  

As Máquinas, pensa, as Máquinas pretendem dominá-la. Encontraram-no longe da agitada cidade, longe de suas garras, e, por vingança, tentam tomar sua única amiga. A pessoa que lhe sorria compreensiva volta-se inteiramente para o aparelho nefasto. Observa seus lábios entreabertos e o reflexo luminoso em seu rosto cortado por fios de cabelo agitados pela brisa vespertina. Tropeça nos próprios pés ao mover-se. Laura, absorta, não repara em sua figura. Caso tivesse voltado o olhar em sua direção, teria visto a boca escancarada, o terror estampado, tatuado na face.  

Com passos embriagados, dirige-se a seu quarto. Senta-se no chão, ao invés da cama, tão dura quanto. Não lamenta o infeliz ocorrido nem mesmo deixa-se dominar pelo cansaço. Ao contrário, concentra-se. Pensa de forma meticulosa, com esforço e determinação, durante o resto da tarde. Quando a lua confere brilho fantasmagórico ao ambiente, chega a uma solução. Como um herói, irá oferecer sua própria alma ao sacrifício. Salvará Laura. 

***

Sonha com uma rua desconhecida. Asfaltada e estreita. Dos dois lados há sobrados idênticos. Nota que não há cor alguma. Tudo é preto e branco. Também não ouve sons. Uma mulher passa do outro lado da rua, com o celular nas mãos, distraída. A bota da salto alto toca o chão um pé após o outro. Ouve o som quite faria em sua mente. Rítmico, hipnótico. Ainda mira o chão por onde ela passou. Já recorda se nela havia cor. Vira a cabeça mas a moça não está mais naquela rua. Por onde ela pode ter ido? A rua estreita não parece ter fim de um lado ao outro. Um caminho infinito. Ela entrou num sobrado igual a todos os outros? E já não sabe se a mulher passou por ele a instantes ou se ali ficou durante muito tempo, vendo o chão. 

Caminha com lentidão e sem destino. E encontra um sobrado amarelo. Um amarelo pálido, uma cor covarde. Em frente à casa, abre a porta e depara-se com um corredor comprido e mal iluminado. Foi pintado no mesmo tom de amarelo. A sensação é de calma. Não fica surpreso com a ausência de sala na entrada da casa amarela. No corredor há uma série de portas fechadas. Sem hesitação, abre a primeira. No quarto há uma mulher sentada no chão com os olhos fechados. Sua respiração é pesada e ele intui que dor e tristeza afligem seu coração. Lágrimas começam a escorrer pela face. E então ela passa a respirar num ritmo calmo. Ele se aproxima, mas a mulher continua com olhos serrados. Estende a mão para tocar seu braço e, numa distância na qual sentiria o calor de sua pele, recua. Sai do cômodo e entra no próximo. Ali encontra-se um rapaz sentado de costas. Magro e alto. Veste camiseta azul e calça jeans. Pode ver seus cabelos negros e lisos. O rapaz não reage. Está de frente para uma escrivaninha onde repousa uma folha em branco, a qual ele encara imóvel. Acorda. 

***

No dia seguinte, simula normalidade onde espera-se dele o oposto. À primeira aparição de Laura, o lábio treme de expectativa. Sonda a situação: Laura sorri docemente, inocente aos planos antes definidos. “Ainda não foi dominada pelas Máquinas!”, ele pensa. Esta era sua esperança, e agora poderá continuar com sua solução genial. Faria com que as Máquinas escolhessem a ele. 

É hábil com as mãos, e esperto, o louco, e como um ilusionista despeja as tão preciosas pílulas na mão antes de levar o recipiente transparente à boca. Finge engolir enquanto guarda os comprimidos no bolso. Mostra, em seguida, o interior vazio da abertura bucal, língua e dentes à mostra, confiante. E durante mais três dias faz o mesmo, sempre atento aos mínimos sinais de Laura. Abandona a imunidade das pílulas e espera. Apreensivo, espera. E nada acontece. 

***

Compreende seu equívoco. É tarde demais. Permanece acordado até o dia amanhecer. Quando surgem os primeiros raios, já tem seu plano elaborado. É preciso ter coragem para executá-lo. É preciso ter coragem para derrotar as máquinas. 

Dizem que ele é louco. Dizem que, naquele mesmo dia, o encontraram serenamente dormindo ao lado do corpo sem vida de Laura. 

Invasores

Se insisto na conhecida analogia entre casa e mente é porque não encontrei até hoje outra melhor. E, partindo dessa imagem, podemos imaginar nossa casa como um território que nos pertence, onde temos autonomia e nos sentimos soberanos. Mas não é bem assim. Aquele lar que conhecemos, os cômodos que frequentamos, a mente que identificamos como sendo nossa personalidade, de onde saem os pensamentos que planejamos, nossa voz interna, é somente uma parte da casa.

É como se houvesse outra casa, muito maior, embaixo daquela em que vivemos. Nossa consciência, um dia descobrimos, é apenas a menor parte da mente. Há a consciência, aquilo que acreditamos ser a totalidade de quem somos, e há o lado oculto, a casa de baixo, o inconsciente.

Toda essa mansão invisível faz parte de nós, mas não a controlamos. Na verdade, insistimos em trancar as portas que dão acesso a esse outro lar. E fechamos nossos olhos para tudo aquilo que abandonamos como se o inconsciente fosse apenas um gigantesco porão. Mas um dia, um dia qualquer, você se encontra muito tranquilo, despreocupado, deitado em seu confortável sofá, e ouve um barulho. Você se assusta, dá um pulo. E percebe que em sua casa há um invasor.

Você, após respirar fundo e decidir enfrentar o medo, anda e pé ante pé, em silêncio, trêmulo, até a cozinha. Lá está alguém que você não reconhece. Você não sabe que o invasor é na verdade outro lado de sua própria personalidade.

O invasor é um pensamento que aparece sem ser chamado, depois de ter sido reprimido por muito tempo. O invasor é algo que você sente, pensa e percebe sem saber que pensa, sente e percebe. O invasor é o que Jung chamou, assertivamente, de invasões. É um conteúdo do inconsciente que emerge na consciência. Mas ele normalmente não está feliz; ele foi deixado ali no subsolo e foi você quem o prendeu. Vocês não são amigos.

Por isso é tão importante conhecer a própria mente, explorar a casa inteira e manter as portas destrancadas. Para não evitar o susto de ser frequentemente surpreendido e agredido por invasores do inconsciente. Esse é objetivo do curso de Escrita Terapêutica que desenvolvi: estabelecer uma comunicação com os conteúdos que aprisionamos no nosso andar de baixo e aprender a conhecer essa outra casa.

 

Em breve divulgarei mais informações sobre o curso!

Num quadro

Às vezes sinto que vivo dentro de um dos quadros

que enfeitam minhas paredes.

Assim meio difusa

esfumaçada

flutuante

Como o barco que não se reflete na água

ou os frutos e flores estampados no vazio

sem superfície que os acolha

Mas os tons pastéis, afinal,

são muito mais agradáveis

do que a luz dura da realidade.

Então prefiro continuar abstrata.

 

MiroMulheresPassaroLuar

Mulher e pássaro ao luar (1949), de Joan Miró

[ou eu num momento mais surrealista]