Serieterapia #2

Através da cultura – das séries, filmes, peças de teatro, obras de arte, livros – podemos ir além do entretenimento. É possível questionar valores, preconceitos, questões sociais, de gênero, raciais. Algumas atrações fazem tudo isso e ainda com muito bom humor. Então, continuando a lista de séries de comédia que fazem rir e pensar, trago mais algumas que me cativaram. Ah, e não esqueça de ler a primeira parte desse post: Serieterapia!

 

atypical

Atypical

Esta série conta a história de Sam Gardner (interpretado por Keir Gilchrist), um jovem de 18 anos, portador de autismo, em busca de independência. Num primeiro contato, os personagens podem parecer um bocado estereotipados – o menino autista, a mãe superprotetora, a irmã rebelde, o pai tranquilo. Mas todos eles vão ganhando profundidade conforme compreendemos mais a dinâmica da família. É nos detalhes que os relacionamentos se mostram, como na relação entre os irmãos, na qual há o deboche e a impaciência que costumamos ver entre irmãos jovens, mas também muito apoio e afeto. A série também acerta na representação do jovem autista, retratando um rapaz que estuda, trabalha e cria relacionamentos significativos enquanto lida com as dificuldades da doença e os conflitos típicos de um estudante no colégio. Vale lembrar que dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) existem subtipos com diferentes intensidades do sintoma. Há o autismo clássico (nomeado nível 3 no DSM-V), no qual a pessoa tem maior dificuldade na interação com o outro e na compreensão da palavras, além de não manter contato visual nem usar a fala para comunicação. E há também o autismo de alto desempenho ou leve (nomeado nível 1 no DSM-V), que é a síndrome apresentada pelo Sam na série.

A primeira temporada está disponível na Netflix.

“Sou um esquisito. É o que todos falam. Algumas vezes, não entendo o que os outros querem dizer e acabo me sentido sozinho, mesmo com várias pessoas ao meu redor. Só consigo me sentar e mexer os dedos, que é meu comportamento auto estimulante. Eu bato uma caneta em um elástico, em determinada frequência, e penso no que poderei fazer, como pesquisar pinguins na Antártida ou ter uma namorada.” (fala de abertura da série)

 

 

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Bones

Eu já vi e revi todos os episódios das 12 temporadas dessa série várias vezes. É uma das minhas “queridinhas” absolutas. Isso porque traz uma perfeita mistura de investigação, humor e drama. E também me agrada imensamente em relação à representatividade feminina. Afinal, é bem comum ver um homem no papel de gênio, o “cara” que desvenda os mistérios. Mas quando vemos a mulher neste mesmo lugar de destaque? Raramente, e uma dessas vezes acontece em Bones. Emily Deschanel interpreta a Dra. Temperance Brennan, um antropologista forense e autora de livros que vai trabalhar no Instituto Jeffersonian para ajudar o FBI a solucionar crimes. Ela se torna parceira do Agente Seeley Booth (David Boreanaz), que lhe dá o apelido “Bones”. Bones é uma mulher forte, confiante (chega a ser arrogante em algumas situações) e extremamente competente e aplaudida em sua carreira, da mesma forma que personagens como House e Sherlock Holmes. Além disso, ela convive com outras mulheres fantásticas, das quais é amiga (na série não há aquela velha e ridícula competição entre garotas). Mais que isso, os personagens masculinos também são excelentes e muito competentes. Ou seja, temos aqui homens e mulheres em igualdade, sem ninguém ser ofuscado (poderia ser mais feminista?). Mas se nada disso o convencer a assistir, saiba que as investigações criminais são incríveis e fogem das cenas óbvias, e que a série é engraçadíssima.

“Bones: Eu não quero ser uma cientista sexy.

“Booth: Bem, isso é como eu falar que não quero ser um agente do FBI sexy. Nós não podemos mudar aquilo que somos.”

 

 

nanette

BÔNUS: Nanette

À primeira vista este documentário da Netflix pode parecer ser um stand up de comédia. Mas não se engane. Há muito mais aqui. Hannah Gadsby é uma comediante australiana, mulher, lésbica, portadora de depressão. Neste espetáculo ela fala sobre feminismo, homossexualidade e transtorno mental. É um stand up? Sim. E me fez dar boas risadas? Sim. Mas também me tirou algumas lágrimas e me fez pensar muito. Eu não quero dar spoilers, e também acredito que precisaria escrever um texto desconcertantemente grande para dizer tudo o que pensei e senti vendo este documentário. Deixo então apenas um pedido sincero: assistam! E algumas palavras da própria Hannah.

“E, ao contrário das piadas, histórias precisam de três partes: começo, meio e fim. Piadas só precisam de duas partes: começo e meio. O que eu tinha feito com aquela comédia sobre sair do armário foi congelar uma experiência incrivelmente educativa no ponto traumático e lacrar isso em forma de piada. Essa história se tornou rotina e, através da repetição, a versão piada se fundiu com a memória real do que aconteceu. Mas, infelizmente, a versão piada não era tão sofisticada para ajudar a desfazer os danos que sofri na realidade.”

 

Gostou das indicações? Então curta o post e compartilhe!!

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Dicas de livros

Quando falamos em doença mental, infelizmente reina a falta de informação. Caminhamos nas sombras, nas quais transtornos se confundem, sintomas parecem nebulosos e não é possível distinguir o indivíduo da doença, a verdade da psicofobia. Para afastar as trevas é necessário trazer o conhecimento. E este repousa dentro dos livros – os objetos quase sagrados. No início o homem dedicou esforços gigantescos no desenvolvimento da escrita e preservação de suas histórias para a posteridade. Tempos atrás, escrever um livro traria imediato respeito; somente os artistas e os intelectuais eram capazes de tal feito. Hoje todos nós podemos escrever (eu mesma já escrevi um livro), digitando letra após letra numa tela brilhante, na qual podemos apagar, corrigir e reescrever incontáveis vezes. Mas aqui trago somente a lista daqueles que considero verdadeiras obras-primas sobre saúde mental.

 

 

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O Demônio do Meio-Dia: Uma Anatomia da Depressão

Este livro, finalista do Prêmio Pulitzer de 2002, é um completo manual sobre a depressão. Andrew Solomon aborda a doença sob diversos aspectos: sua experiência pessoal, entrevistas com outros portadores no decorrer de anos, entrevistas com profissionais da área de saúde mental, análise de estudos, contato com a doença à partir da perspectiva de outras culturas. Andrew inclusive testou, nele mesmo, vários tratamentos, e fez uma lista deles. O autor ainda se debruça com dedicação sobre temas pouco discutidos como a incidência da depressão em populações pobres, o que costuma ser ignorado e tratado como mera consequência emocional da situação de pobreza.

Andrew fez perguntas e interpretações precisas sobre o sofrimento alheio, dado que passou pelas mesmas angústias. É tocante o relato acerca de sua própria doença, e do quanto o apoio de seu pai foi vital para sua recuperação. Além disso, a experiência pessoal possibilitou que o autor fizesse reflexões profundas sobre o que é a depressão, como sua célebre afirmação de que o oposto da depressão não é a felicidade, mas sim a vitalidade.

 

“O nascimento e a morte que constituem a depressão ocorrem simultaneamente. Há pouco tempo, voltei a um bosque em que brincara quando criança e vi um carvalho, enobrecido por cem anos, em cuja sombra eu costumava brincar com meu irmão. Em vinte anos, uma enorme trepadeira grudara-se a essa árvore sólida e quase a sufocara. Era difícil dizer onde a terminava e a trepadeira começava. Esta enrola-se tão completamente em torno da estrutura dos galhos da árvore que suas folhas pareciam à distância ser as da árvore. Só bem de perto podia-se ver como haviam sobrado poucos ramos vivos e quão poucos gravetos desesperados brotavam do carvalho. […] Tendo acabado de sair de uma depressão severa, na qual eu dificilmente acolhia os problemas de outras pessoas, me senti cúmplice daquela árvore. Minha depressão havia tomado conta de mim como aquela trepadeira dominara o carvalho.”

 

 

plath

 

A Redoma de Vidro

A Redoma de Vidro é uma mistura perfeita de realidade e ficção. A autora, Sylvia Plath, tinha depressão e se suicidou com apenas 30 anos. Esta sua última obra seria, talvez, um belo exemplo do que conhecemos como autoficção – quando o autor mescla eventos e experiências pessoais com outros, inventados. Mas o sentimento expresso é aquele que tira o sono do escritor, que habita seu ser. Talvez todo livro tenha um pouco de autoficção. Em A Redoma de Vidro, o primeiro pensamento que tive foi que as emoções descritas eram precisas demais para terem sido criadas.

É justamente essa proximidade com a personagem principal, estar dentro de sua mente, que nos permite compreender como pode ser sorrateira a depressão, que vai se aproximando pouco a pouco, se instalando lentamente, sem que a pessoa perceba sua presença até ser expulsa de seu próprio ser.

 

“O silêncio me deprimia. Não era o silêncio do silêncio. Era o meu próprio silêncio. Eu sabia perfeitamente que os carros estavam fazendo barulho, e que as pessoas dentro deles e atrás das janelas iluminadas dos prédios estavam fazendo barulho, e que o rio estava fazendo barulho, mas eu não conseguia ouvir nada. A cidade estava dependurada na minha janela, achatada como um pôster, brilhando e piscando, mas poderia perfeitamente não estar lá, já que não me afetava em nada.”

 

 

arbex

 

Holocausto Brasileiro: Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil

Se eu tivesse que escolher um livro sobre doença mental para que todas as pessoas no mundo pudessem ler certamente seria este. A jornalista Daniela Arbex disseca com sua fantástica pesquisa e exposição os abusos cometidos contra doentes mentais no Estado de Minas Gerais, principalmente no hospício da cidade de Barbacena. Homens, mulheres e crianças foram submetidos a condições de vida desumanas, foram aniquilados e destituídos de autonomia e humanidade, tiveram sua história pessoal apagada, destruída, foram eles mesmos apagados, assassinados.

Contra a barbárie, a autora usa uma linguagem direta e suave, que faz a leitura fluir, de forma que pensamos ser possível ler o livro inteiro de uma só vez, sem intervalos. Mas não é. É preciso parar a cada capítulo para enxugar as lágrimas e refletir sobre as atrocidades cometidas pelos considerados “normais” contra pessoas, pele, carne, osso, seres vivos, pensamentos e emoções.

 

“Quando se viu fora dos muros do hospital, não sabia como sobreviver sem amarras.

“— A que horas as luzes se apagam aqui? — perguntou na primeira noite liberto do cativeiro.

“Retirado do convívio social por quase meio século, ele jamais poderia imaginar que agora era dono do seu tempo e que tinha ele mesmo o poder de clarear ou escurecer o ambiente com um simples toque no interruptor. Além de nunca ter visto um apagador de luz, ser dono de si era uma novidade para quem viveu décadas de institucionalização. […] O hospital estava ali, marcado não só em seu corpo, mas também impregnado em sua alma. Por isso, os pesadelos tornavam seu sono sobressaltado e se repetiam noite após noite. Acordava com o suor umedecendo o pijama e sempre com a mesma sensação de terror.”

 

E quais são suas obras-primas sobre transtornos afetivos? Quais livros clarearam e mudaram sua percepção sobre doença e saúde? Compartilhe sua lista nos comentários!

Serieterapia

Não só de monitorar sintomas vive um bipolar. Afinal de contas, não somos nossa doença. E entretenimento faz bem a todos. Pessoalmente, sou muito fã de séries. E as séries desempenharam um papel muito significativo em diversos momentos da minha vida. Meus personagens favoritos me fizeram companhia em noites de insônia e mania. Aliviaram meu sofrimento quando a depressão apertava. E me deram a possibilidade de chorar e colocar a angústia para fora sem direcioná-la para mim mesma. Melhor chorar por um personagem que morreu do que por achar minha vida um desastre, o mundo um desastre, eu mesma um desastre. Justamente por esse motivo que as séries dramáticas dominavam minha programação. Mas, recentemente, séries de comédia me trouxeram aprendizados novos e muito interessantes. Por isso selecionei duas delas para compartilhar com você.

 

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Grace and Frankie

A atuação fabulosa das atrizes Jane Fonda e Lily Tomlin já é motivo suficiente para assistir a essa série. Mas há muito mais aqui; a produção aborda tantos assuntos relevantes que fica difícil fazer uma lista completa. Só para citar alguns: família, amizade, velhice e felicidade, velhice e autonomia, sexualidade da mulher, trabalho, amor e sexualidade na terceira idade, homossexualidade. A história começa com a revelação de Robert (Martin Sheen) e Sol (Sam Waterston), maridos de Grace (Jane Fonda) e Frankie (Lily Tomlin), de que têm um caso há anos e irão se casar. A notícia e a traição caem como uma bomba para as mulheres, que são forçadas pelas circunstâncias a morarem juntas. Neste momento surge um novo desafio: as personalidades contrastantes das duas é um obstáculo para a convivência, e um gancho para despertar as risadas da audiência.

A série também me possibilitou uma reflexão importante. Quais papeis podemos assumir na velhice? Pois a velhice é associada à reclusão, calmaria, descanso, aposentadoria. Os lazeres da velhice são limitados ao tricô e à novela no imaginário coletivo. E, numa sociedade que valoriza de forma cada vez mais patológica a juventude, os idosos são deixados de lado, abandonados, ignorados. Não à toa observamos um aumento alarmante da incidência da depressão na terceira idade. Mas Grace and Frankie nos mostra outro lado. Ali estão mulheres idosas, independentes, que refazem suas vidas, redescobrem o amor e o sexo, abrem uma empresa de sucesso.

As 4 primeiras temporadas estão disponíveis na Netflix.

 

The Good Place - Season 1

The Good Place 

Nessa atração Kristen Bell interpreta Eleanor Shellstrop, que, após morrer, é recepcionada por Michael (Ted Danson) no Lugar Bom, um tipo de Paraíso pós-vida. Michael explica que depois da morte as pessoas vão ou para o Lugar Bom ou para o Lugar Ruim, dependendo dos seus atos na Terra. Só há um problema: Eleanor sabe que não é merecedora do Lugar Bom e que algum engano foi cometido. Sua esperança é aprender a ser uma pessoa melhor com ajuda de Chidi (William Jackson Harper), que, em vida, era professor de ética.

Temos nessa série valiosas reflexões sobre o certo e o errado, sobre os valores sociais, através das aulas de Chidi. Mas os ensinamentos dos filósofos não ficam nas palavras; os personagens aprendem, praticam, erram, tentam novamente, evoluem. Da mesma forma, a história cresce, muda, surpreende. De maneira extremamente criativa e hilária, os acontecimentos seguem sem enrolação. Além disso, é fácil se identificar com Eleanor em sua busca nem sempre simples para se tornar uma pessoa melhor.

A série, que estreou em 2016, está na segunda temporada.

 

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BÔNUS: BoJack Horseman

À primeira vista essa animação para adultos pode passar a ideia de ser uma comédia, mas não é. Os primeiros episódios fazem graça e paródia de celebridades, numa engraçada crítica à mentalidade atual de busca pela fama. Mas não se engane; a história sobre o cavalo BoJack Horseman, ex-astro da TV dos anos 90, que ainda vive do que sobrou de sua fama, começa a amassar sua mente e emoções logo após você se distrair com as piadas. Maratonar BoJack é receber repetidos tapas na cara, sem descanso.

No começo fiquei surpresa por constatar que a melhor representação da bipolaridade que já vi era um cavalo bípede animado. Mas não havia como ser diferente. BoJack, da forma como é concebida e executada, nos permite passear pela mente do protagonista. E tentar compreender seus conflitos, assim como os dos outros personagens. Além do transtorno bipolar, a série fala sobre depressão, ansiedade, relação com o sucesso e o trabalho, relacionamentos amorosos, sexualidade, amizade, laços familiares.

A quinta temporada teve estreia anunciada para setembro.

 

E quais são as séries que lhe fazem companhia? Compartilhe a sua serieterapia! 🙂

10 dicas e 1 segredo para conviver com a bipolaridade

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Aprendi muito ao longo de duas décadas convivendo com o transtorno bipolar. Aqui estão algumas dicas muito importantes, que fazem toda a diferença, mas que nem todos seguem. Além delas, compartilho o meu segredo para vencer o transtorno bipolar.

1. Tenha um psiquiatra de confiança para dar o diagnóstico e prescrever o tratamento medicamentoso.

2. Se não estiver satisfeito com o tratamento, explique os motivos e peça para mudar.

3. Se não estiver satisfeito com o atendimento, procure outro médico.

4. Não tenha receio de fazer perguntas ao seu psiquiatra. Não saia do consultório com dúvidas.

5. Não tente esclarecer suas dúvidas com o coleguinha que também é bipolar; ele pode acabar passando informações erradas.

6. Siga corretamente as orientações médicas. É muito perigoso se automedicar e tomar doses de psicotrópicos maiores dos que as indicadas. Da mesma forma, é extremamente perigoso interromper o tratamento medicamentoso sem orientação profissional.

7. Faça terapia! E faça com vontade, não apenas porque o psiquiatra indicou. A psicoterapia demora a dar resultados e depende do seu esforço, mas o que você aprende muda sua vida para sempre.

8. Busque informações sobre sua doença: leia livros, blogs, artigos. Vá a palestras. Entenda como funciona seu transtorno e quais são os sintomas.

9. Aprenda a monitorar os sintomas e distinguir as oscilações de humor e as diferentes características da depressão e da mania. Assim será possível identificar quando uma crise se aproximar.

10. Melhore sua qualidade de vida! Busque ter uma alimentação melhor, praticar exercícios, fazer meditação, ter hobbies interessantes, valorizar seus laços afetivos, ter um animal de estimação, além de cultivar várias outras formas de cuidar da saúde mental.

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E qual o meu segredo?

Bom, muito se fala sobre identificar os gatilhos e quando as crises se aproximam, e isso realmente é importantíssimo. Mas ninguém fala sobre o quanto é essencial saber reconhecer a estabilidade. E o que fazer neste momento. Pois é necessário saber de forma consciente o momento em que a crise vai embora e você volta a se sentir bem, para agir e prolongar esse período. Usando a última dica, melhorar a qualidade de vida é vital. E fazer isso quando estamos bem torna possível fazer com que a estabilidade que duraria semanas passe a durar meses. Mais que isso, quando você dá valor ao período de estabilidade faz com que a próxima crise possa vir menos intensa. Então uma crise que poderia durar meses pode ir embora em dias, e você voltará logo a mais um período de estabilidade e bem-estar. E é isso que faz portadores de transtornos mentais terem uma vida melhor.

Qual o seu segredo para conviver com uma doença mental? Compartilhe suas dicas nos comentários!

Como diferenciar personalidade de sintoma (com áudio)

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Às vezes é preciso inovar. Verdade. Caso contrário, ficamos estagnados. Por isso, hoje resolvi fazer algo diferente. E, ao invés de escrever um texto, gravei minha própria voz para conversar com você sobre a importância de diferenciar entre aquilo que é uma caraterística de nossa personalidade e os sintomas de transtornos mentais. Peço desculpas pela gravação caseira e pela voz um pouco anasalada – estou no meio de um resfriado, mas pensei “faço agora ou acabo não gravando”, e fui com resfriado e tudo! Eu espero que gostem!

 

Leia os posts citados no áudio:

Pessoas Altamente Sensíveis

Além do remédio e da terapia: outras formas de cuidar da saúde mental

 

Gostou do áudio e dos textos e quer saber mais sobre Transtorno Bipolar? Confira meu livro Árvores Tímidas, disponível na Amazon

Livro Árvores Tímidas: Um livro sobre Transtorno Bipolar

Já leu o livro e gostou (ou não)? Avalie na Amazon, pois sua opinião é importante para outros leitores. E também para eu saber o que você achou do livro! 😉

 

Abraços! E até mais!

A bipolaridade e a libido

Falamos bastante sobre as oscilações de humor que ocorrem na bipolaridade. Mas há outro tipo de oscilação no bipolar, uma bem menos comentada, uma ligada a um grande tabu – o sexo. Sim, ocorrem grandes mudanças no desejo sexual do bipolar em cada fase da doença. Temos um aumento da libido na mania, e diminuição na depressão. Além de uma grande diminuição do desejo associada ao uso da maioria dos medicamentos antidepressivos e estabilizadores de humor.

Veja também o vídeo: O sexo e o bipolar

 

Mas, antes de falar mais sobre essas oscilações na vida sexual, vamos pensar um pouco sobre o conceito de libido. Libido, para Freud, era uma energia obtida através dos instintos de sobrevivência e sexualidade. Estava ligada à pulsão de vida e pulsão de morte – Eros e Tânatos. Na mitologia grega Eros é o deus do amor, e Tânatos o da morte. Então temos que a pulsão de vida é uma tensão que nos leva a continuar vivendo, buscando nossa autopreservação, nossa sobrevivência e de nossa espécie – em Eros está contido o desejo sexual. Mas do outro lado há Tânatos, cujo objetivo é a morte, é cessar todas as tensões. E então temos dentro de nós esse conflito entre os opostos.

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Nos transtornos afetivos o conflito é expresso através da vontade de recuperação versus a ideia de desistir do tratamento. E no transtorno bipolar as crises tanto alimentam Eros quanto Tânatos.

Na mania a busca pelo deus do amor, filho de Afrodite, conhecido como Cupido pelos romanos, reina e nos afasta dos pensamentos. Tudo é energia e excesso de energia, libido e compulsão. Não é apenas o desejo sexual que aumenta na mania. É a busca incessante por tudo aquilo que possa manter a empolgação – sexo, bebidas, drogas, compras, jogos. Há um vazio que é preenchido pela diversão, mas só por alguns segundos. Depois, é preciso mais e mais. E não importa a que preço. É onde entra Tânatos – na irresponsabilidade e exposição ao risco do bipolar em mania.

A depressão, por outro lado, é governada pelo deus da morte, que nos prende à cama onde lentamente definhamos. Falta vontade e energia para tomar banho e comer. O sexo, então, fica no fim da lista de tudo aquilo que não interessa mais ao depressivo. O que antes era prazer virou pressão, obrigação ou algo que não tem mais graça nem faz sentido. Eros só aparece no amor pelo outro idealizado e ausente, naquele que não possui um parceiro, mas deseja ter um. Ou na figura de apoio do parceiro que ajuda o bipolar a sair da depressão.

É fazendo a comparação com a depressão que o efeito dos medicamentos se torna mais claro. Parece lógico que alguém que não tem ânimo nem para levantar da cama não queira fazer sexo. Mas e quando a pessoa inicia o tratamento e começa a desempenhar as atividades diárias e não volta a sentir desejo sexual? Fica difícil para o parceiro e até mesmo o bipolar compreender como o aumento da substância da felicidade no cérebro pode diminuir a do desejo.

Mas somos muito mais que neurotransmissores agindo sobre nossas emoções. A libido não vem apenas do instinto sexual, mas também do de sobrevivência. E é assim que podemos reencontrar Eros em sua plenitude: no desejo de se sentir bem e na escolha pela vida. Eros traz o prazer de volta quando queremos sentir. A atração pelo outro é maior quando nos sentimos igualmente atraentes. E a libido aumenta na mesma medida em que for melhor seu relacionamento – não apenas com o outro, mas principalmente com você mesmo.

 

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Este post é especialmente dedicado a Mariah Hoffmann, do Blog da Mariah, que sugeriu o tema bipolaridade e desejo sexual.