O que não te contam

Vivemos uma mentira. Todos nós que temos essas oscilações de humor. Que chamam de transtorno bipolar. É tudo mentira. Falam sobre os dois polos extremos, mania e depressão. Eu sei bem quais são. Você também sabe. Tive a primeira depressão com 9 anos, quando tentei suicídio. A mania eu conheci melhor na adolescência. Eu sei como funcionam, sinto quando estão próximas, até sei o que fazer em algumas situações, em alguns encontros. Mas há mais nessa história toda. Há um tal de estado misto.

Misto porque mistura o pior dos dois lados. É um desânimo agitado, ansioso. Você não faz nada, nem respira, nem come, nem dorme. É insatisfação com raiva.

solidão bipolar

O que não te contam é que esse estado misto, que antes era novidade, se torna cada vez mais frequente. Chega um momento em que é difícil lembrar como era estar em um polo ou no outro, como era ter um humor por vez.

Gostaria de entender, penso, este estado no qual excitação vira desespero. Desespero se confunde com irritação. Irritação anda acompanhada do medo. E o medo logo vira tristeza. Queria saber como agir, penso, andando solitária sob a densa chuva de uma segunda-feira, ilhada como minha cidade, braços e pernas cansados, o guarda-chuva já apoiado sobre um ombro, indiferente às gotas no rosto.

Entro em casa e tiro os sapatos. A vontade de chorar já passou. A noite me envolve em silêncio. Não entendo este estado misto, penso. Mas agora ele já se foi. Como os outros, ele sempre vai.

 

Dica prática

Nesses dias em que depressão e mania aparecem juntas uma boa forma de sentir-se melhor é caminhar. Não precisa ter muito tempo ou disposição. Basta ter 5 minutos, ir logo ali, até a padaria ou mercado.

E tenho duas formas de fazer isso. A primeira é andar bem rápido. Você libera endorfina e toda aquela energia da raiva é gasta no exercício. Quanto mais puder andar, melhor. A raiva some, a tristeza se perde. Você estará focado em respirar e recuperar o fôlego.

A outra forma é caminhar um pouco mais devagar. Olhe para os lados. Não pense em nada. Algo irá chamar sua atenção. E depois mais alguma coisa. Continue andando. E logo estará distraído, e mais calmo.

E para você? O que funciona melhor nos dias de estado misto?

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Quando parar a medicação

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Quis deixar de tomar medicação antes mesmo de começar. Era lítio. E eu não gostava de remédios. Não conheço quem goste, aliás. Ao olhar diariamente para meu comprimido pensava que havia fracassado. Enfiava na boca. O gosto amargo descia até o estômago. E voltava a entalar na garganta. Não havia água suficiente para desfazer o nó. Não havia água suficiente para nada. Eu era deserto. Árida, seca, solitária.

Mais que um, eram dois. Estabilizador de humor e calmante. Calmante para quê? Eu era pura inércia. Derretia-me pelos cantos como obra de Dalí. E me procurava no pó acumulado, nas teias de aranhas esquecidas. No chão frio sentava sem sentir. Nem bem nem mal, vivia no limbo. Com o coração acelerado, continuei. Com um coração que pulsava sem vontade, engoli mais um. E mais um, e mais um.

Haviam os exames. Agulha na veia, olhar para o lado, fingir que estava bem. O cappuccino de máquina na saída. Ponto alto do meu dia a cada duas semanas.

Eu não era mais eu. Era quem? E essa outra valia a pena ser mantida? Eu queria matá-la. Minha família queria mantê-la. Traição. Como ninguém percebeu essa máscara, essa manequim sem voz que roubou meu lugar?

Eu queria ficar bem. Ser feliz. Ter aquele sonho bonito, aquele filme de fantasia, de magia, com final emocionante e felizes para sempre. Queria. Antes de não sentir mais nada. Antes ainda, quando tudo estava tão distante e alegria vinha somente em garrafas. Desejava dar certo, ser normal, dar orgulho para alguém. Mas o embotamento das pílulas era diferente de estar bem de verdade. E fingir não funcionou antes.

Então parei. Não avisei o psiquiatra. Já não ia mais na terapeuta. Apenas agi como se nada nunca tivesse acontecido. E me senti bem, livre. Podia rir novamente; e também chorar. De repente voltei a fazer parte do mundo. Eu havia superado tudo. Era uma amazona que retornava vitoriosa. Forte, viva, pronta para enfrentar o mundo. Essa fase durou alguns meses.

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Num dia qualquer tudo desabou. Não lembro bem quando. Tenho esse problema: esqueço. Não que tenha muito o que recordar. Eu passei tempo demais sem sair de casa. Choro compulsivo nas madrugadas; manhãs sonolentas. Estava semi-morta. Respirava e nada mais. Foi difícil criar forças para recomeçar. Novo médico, novo remédio. E pior, outra esperança. Acreditar era mais doloroso do que pensar em desistir.

Em suspiros, engolia novamente. Mas já não era tão amargo, nem entalava na garganta. Com o tempo, meses, já podia rir e chorar sem questionar se rir e chorar eram sintomas, ou se ria e chorava menos ou mais do que o faria sem pílulas. Não era perfeito, mas era eu mesma.

Mas tudo é cíclico na vida. E o desejo de ficar sem medicamentos retornou. Desta vez, conversei com o médico. Diminuímos a dose. Agora eu sentia que estava mais preparada. Faz 4 anos que parei completamente. Tomar ou não remédio para transtorno bipolar é uma decisão. Uma escolha racional. Há muitos fatores, muitas variáveis. Cada pessoa é única, cada bipolaridade também. Umas se adaptam melhor ao tratamento, outras sentem todos os efeitos colaterais.

Parar não tornou tudo mais fácil. Ainda sou bipolar. Ainda tenho aqueles períodos terríveis, as crises, irritação, choro. Apenas controlo melhor, apenas vejo à distância quando se aproximam. Com frequência penso se não estaria melhor com o remédio. Mas sei que faria a pergunta oposta se ainda o tomasse. Depois tudo passa. Depois tudo fica bem e já nem penso no transtorno bipolar. No fim, a vida não é simples de qualquer maneira. Tem altos e baixos. Com ou sem remédio, não importa. No fim do dia só quero sentir orgulho de mim mesma.

 

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES!

Como eu sei que a questão de encerrar a medicação é comum, resolvi ampliar um pouco a nossa discussão e ir além de relatar minha experiência pessoal. Primeiramente, devemos ter em mente que cada pessoa é única, assim como cada tratamento segue um percurso distinto. A maioria das pessoas deseja não tomar remédios, mas há aquelas que precisam deles. E há pessoas se adaptam a suas medicações, que passam a se sentir melhor com elas. Então por que deixar aquilo que faz bem? Por conta do estigma. Aqueles que precisam de remédios por causa de diabetes ou hipertensão não questiona se deve deixar a medicação. Nem sente vergonha por ter que tomá-lo. Mas a sociedade continuamente nos diz que pessoas normais não tomam remédios para transtornos afetivos. Dizem, de forma aberta ou com sutilezas no discurso, que esse tipo de remédio é para loucos. E nós acreditamos. E alimentamos essa visão. E continuamos a sentir vergonha. Abandonamos o tratamento, colocando em risco nossa saúde e bem-estar, apenas pelo desejo infantil de ser como os outros.

Há outras situações, entretanto, nas quais o indivíduo se sente muito mal com a medicação. Fica sujeito a toda sorte de efeitos colaterais – que podem ser terrível e, inclusive, piores do que os sintomas da doença. Alguns efeitos são até potencialmente perigosos. É compreensível que esta pessoa queira parar com tudo. Mas existem inúmeros tipos de remédios, além do problema não incomum de um diagnóstico incorreto. Simplesmente abandonar o tratamento pode excluir a possibilidade de um tratamento bom e efetivo.

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Noutros casos, a pessoa interrompe a medicação, e sente-se muito bem. No início há uma sensação ótima de cura e superação. Isso a deixa animada. Vê em tudo sinais de como está melhor sem remédios. Está feliz por não ter mais um transtorno afetivo. Mas a cura do transtorno afetivo é diferente de não ter mais uma doença. A cura é sentir-se bem e pleno de suas emoções apesar da doença. E quando se deixa a medicação antes da hora a crise pode surgir de surpresa. Pode levar algumas semanas ou meses. Talvez mais, talvez menos. A pessoa acreditava que não precisaria se preocupar nunca mais com este assunto. Agora já passou da fase inicial de animação ao largar o remédio. E seguiu a vida sem monitorar os sintomas. Não percebeu a crise, não se preveniu, não se preparou. Nessas condições a recaída pode ser mais crítica do que as crises anteriores.

Há pessoas que tomam seu remédio todos os dias. Tomam e esquecem. Há os que tomam e sentem alguns efeitos colaterais, mas ainda assim é melhor sentir os efeitos do que os sintomas do transtorno afetivo. Há aqueles que somente tomam remédio; outros tomam e também fazem terapia. O medicamento não impede todas as crises, mas pode ser necessário para muitos. Em tudo há mais de um lado.

Por fim, algumas pessoas deixam a medicação com orientação profissional. É importante ressaltar o quanto é essencial ter acompanhamento para fazer o desmame da medicação. O que o desmame significa? É a retirada da medicação aos poucos, de forma controlada, para evitar reações adversas e sintomas de abstinência. O psiquiatra também irá acompanhar o progresso do paciente, e ajudará a monitorar os sintomas na fase sem medicamentos. Essa pessoa que deixa o remédio pode encontrar outra forma de tratamento, ou continuar com as medidas terapêuticas que realizava em conjunto com a medicação. Pode ser terapia, pode ser grupo de apoio. Pode ser qualquer outro tipo de tratamento que a faça sentir-se bem. Não será fácil lidar com as crises e instabilidades, mas é possível encontrar estratégias.

Nenhum dos casos acima é mais fácil do que os outros. Como disse anteriormente, deixar a medicação deve ser uma decisão racional. Mas há muitas maneiras de tratar o transtorno afetivo, e sempre podemos tentar novamente.

 

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Bipolaridade tem cura?

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Imagine que você vai ao médico, pois tem tido alguns sintomas incômodos. Sintomas que causam dor ou desconforto. Sintomas que desconhece ou que não desaparecem. Vem sentindo estes desconfortos há dias ou até semanas. O médico faz algumas perguntas, pede alguns exames e, depois, dá um diagnóstico. Você ouve um nome que nunca antes ouviu. Sua primeira pergunta provavelmente será se há cura para sua doença. E a seguinte será como funciona o tratamento.

Somos seres racionais, afinal de contas. Queremos a solução para os nossos problemas. Com o transtorno bipolar não é diferente. Queremos saber se há cura, e qual o melhor tratamento. Pesquisamos os medicamentos. Lemos na bula os efeitos colaterais. Buscamos terapia. Queremos saber se podemos regular o humor somente com terapia, sem a necessidade de remédios. Pesquisamos as diversas linhas da Psicologia. Alguns optam por terapia, outros preferem os medicamentos, muitos escolhem ambos. Há aqueles que começam o tratamento e logo param; outros continuam. Mas uma pergunta permanece: bipolaridade tem cura?

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O que seria a cura? Imagine agora que você tem uma doença como sinusite. Então você toma os remédios e fica sem sintomas durante meses. Um dia, a sinusite volta. Podemos dizer que nesse intervalo entre as duas aparições da doença você estava curado? Imagine então que sua doença é crônica, mas você toma a medicação diariamente e há anos não sente um sintoma sequer. Isso não seria uma forma de cura? Muitas vezes a cura não é deixar de ter a doença, mas sim impedir que a doença nos faça mal. Acredito que com o transtorno bipolar o mais importante é como ele nos faz sentir.

Para mim, há cura sim. Quando nos sentimos bem há cura. Quando suas emoções voltam para o seu domínio ou quando são determinadas a partir de causa e consequência há cura. Choro porque algo ruim aconteceu; me animo porque algo bom aconteceu. Nossas emoções sempre irão variar. Mas há cura quando isso não ocorre de forma descontrolada. Você, independente de tomar ou não remédios, está curado quando recupera sua vida.

A voz e a cura em A Forma da Água

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PODE CONTER SPOILERS!

A Forma da Água (The Shape of Water) é o novo filme de Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno/ Hellboy), em cartaz nos cinemas. No próximo domingo, dia 4, concorrerá ao Oscar com 13 indicações, sendo um dos favoritos para levar a estatueta de melhor filme.

O longa é ambientado na década de 60 e conta a história de Eliza (Sally Hawkins), que é auxiliar de limpeza num misterioso laboratório do governo. A trama, em minha interpretação, aborda de forma sublime a solidão humana e nossa necessidade de afeto.

Eliza tem dois amigos – Giles (Richard Jenkins), seu vizinho, e Zelda (Octavia Spencer), sua colega de trabalho. Eliza é muda, Giles é gay e Zelda é negra. Todos possuem características que a sociedade estigmatiza. O trabalho deles é outra fonte de preocupação e preconceito. Giles não consegue emprego, e Eliza e Zelda são menosprezadas por serem faxineiras. Zelda também precisa lidar com um marido acomodado que não sai do sofá. Enquanto Giles é rejeitado romanticamente pelo rapaz da loja de tortas. Mas eles não se abatem, não deixam o mundo os esmagar. Eles possuem voz. Eles possuem vínculos.

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Giles e Eliza assistem juntos a musicais e deixam a fantasia das telas contagiar seus pensamentos enquanto ensaiam passos de sapateado. A ironia e o senso de humor de Zelda aliviam o clima no trabalho. E quando Eliza se apaixona pela criatura fantástica (Doug Jones) presa no laboratório seus amigos estão dispostos a ajudá-la.

Eliza está aberta ao afeto e se conecta a este ser meio anfíbio, selvagem e com poderes sobrenaturais. Eliza, muda, se comunica com a criatura que não fala. Ironicamente, o chefe de segurança Strickland (Michael Shannon) é quem não cria vínculos por falta da fala. Ele ou humilha (explicando o significado das palavras que utiliza) ou cala (como fica evidente na cena de sexo com sua mulher).

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A Forma da Água mostra que a vida não é conto de fadas, mas nem por isso devemos ser infelizes. Em meio a amores e desamores, rotina, cansaço e trabalho podemos encontrar a leveza, o riso, o encanto. Precisamos criar voz e afetos para encontrar a cura. 

 

A diferença entre desabafo e reclamação

Do apartamento onde moro eu ouço – infelizmente – as conversas de uma vizinha que fala muito alto. E percebi que ela passa os dias reclamando. Mesmo naqueles sábados bonitos, perfeitos para passear, e naqueles domingos chuvosos, que foram feitos para ver séries no sofá com cobertor e pipoca. Notei também que muitas outras pessoas vivem reclamando. E que eu também reclamava demais de coisas sem importância.

Então resolvi tomar uma atitude. Coloquei uma linha no meu diário de tópicos na qual registro todos os dias que passo sem reclamar. E todo dia vejo o diário e lembro de não reclamar de bobagem. Porque é importante poder desabafar num dia difícil. É essencial ter uma pessoa de confiança, terapeuta, amigo, parente, parceiro, que possa ouvir sem julgar, compartilhar, apoiar. Falar sobre as dificuldades tira um peso das costas, ouvir nosso próprio relato nos dá outra perspectiva e ideias de novas abordagens e soluções, ter quem ouça nos dá conforto e segurança. Mas passar por um dia ou período complicado e compartilhar é diferente de queixar-se o tempo todo de tudo. É horrível quando nos tornamos aquela pessoa que reclama quando faz frio e quando faz sol.

E você? Já parou para pensar nas suas reclamações? Podemos sempre parar e analisar se aquilo que nos incomoda realmente é relevante a ponto de nos preocupar. Afinal, quando algo nos incomoda tira nossa energia, a qual poderia ser destinada a algo positivo e interessante. Assim, toda vez que uma reclamação surgir em sua mente, antes de falar, reflita: é nisso que quero gastar minha energia? Aposto que a resposta será “não” na maioria das vezes.

Sobre as cobranças que nos fazemos

Olho à volta e o mundo parece uma enorme panela de pressão. Você precisa ter sucesso em meio a um alto índice de desemprego. Ser saudável rodeado de fast food. Ser feliz, ser mais alto, mais magro, rico, forte, mais espiritualizado. Mais eficiente, um líder nato, um amante incrível, um amigo leal. Menos ansioso, mais equilibrado. Hiperconectado e com milhões de seguidores. O melhor nos esportes, na carreira, na vida. O melhor, o melhor, o melhor.

Somam-se às pressões externas as minhas próprias cobranças. Quero estar no controle de mim mesma. Evitar as crises e oscilações de humor. Ser normal, ser melhor. Realizar mais. Consertar os erros e falhas em minha vida. Preencher os buracos que o transtorno bipolar deixou.

Então faço listas e mais listas de tarefas, planejo novas atividades, me inscrevo em cursos, mudo de emprego, crio novos sonhos, desejos, expectativas. Agora vai, eu penso. O sucesso já parece estar logo ali. Mas no meu planejamento fabuloso eu esqueci de considerar que, assim como meu humor oscila, meu nível de energia e disposição muda drasticamente, e com frequência. Em poucos dias eu já não dou conta de desempenhar as novas atividades. Fracasso e desanimo.

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Se deixasse, por outro lado, minha depressão tomar as decisões nunca sairia de casa, nunca faria nada além de pular de canal em canal em busca de outro entretenimento vazio. Então como agir? Como tudo na bipolaridade, é difícil encontrar um único caminho, que seja sempre confortável e proveitoso. Temos que usar diversas ferramentas, que funcionam em alguns dias e em outros não. Temos que avaliar e adaptar constantemente. Não há fórmulas nem livros de autoajuda com lições fáceis de entender.

Busco ser minha amiga, uma daquelas que ouvem e compreendem sem julgar. Mas que também dão aquele empurrão necessário. Dou um prazo um pouco maior, deixo um dia de folga, diminuo um pouco as expectativas para depois aumentá-las. Aproveito os dias de maior entusiasmo ao máximo e deixo as tarefas mais simples para os dias sombrios. Coloco as cobranças do mundo de lado sempre que possível e deixo as minhas sob medida.

Como me senti ao receber o diagnóstico

Sempre acreditei que as palavras possuem poder. Naquela tarde meu pensamento ficou evidente. O psiquiatra falou, em câmera lenta, como num filme ruim, “transtorno bipolar”. Eu já sabia. Mas o conhecimento estava em minha mente, estava sujeita à minha subjetividade, aos meus erros, equívocos, medos, exageros. Eu ainda poderia estar errada ao concluir que era transtorno bipolar. Na faculdade de Psicologia era comum todos os alunos se identificarem com os sintomas e fazerem autodiagnósticos mal fundamentados. Poderia ter acontecido o mesmo comigo. Mas então o psiquiatra falou, e sua voz ecoou em mim. Era verdade.

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Agora eu deveria lidar com o fato de tomar remédios por tempo indeterminado. Agora eu deveria lidar com esse subtítulo após meu nome: “sou bipolar”. E meus sentimentos em relação a essas mudanças não eram agradáveis; pelo contrário, eu passei a me sentir um fracasso, um brinquedo quebrado e sem conserto. Mas, relembrando, que mal havia em ter que tomar remédio? Por que eu me senti tão mal com esse diagnóstico? Muitas pessoas tomam remédios, todos os dias, durante toda a vida, e não sentem vergonha disso. Ah, era esse o maior problema: vergonha. O que me incomodava era o estigma, o julgamento do outro.

Não posso dizer que não exista estigma e preconceito em relação a transtornos afetivos. Sim, ainda há muita ignorância. Mas no fundo também havia um receio muito exagerado da minha parte em relação à aceitação ou rejeição do outro. Um desejo de preservar uma certa imagem imaculada diante desse outro que não me dizia nada. A verdade é que a maioria das pessoas são egoístas, e só pensam em si. E todo mundo tem problemas para ocupar os pensamentos. Os outros pensam menos sobre nós do que acreditamos ser verdade.

Entendi depois que aquele diagnóstico não me fez ser bipolar. Transtorno afetivo bipolar é um conjunto de palavras; são só palavras. Eu já era bipolar, os sintomas faziam parte da minha vida há muitos anos. E agora um tinha uma explicação para aquilo que sentia. Agora eu poderia entender melhor. Pesquisar mais sobre minha doença. Saber que outras pessoas conviviam com os mesmos sintomas, as mesmas angústias, as mesmas dificuldades, as mesmas superações. E fazer algo a respeito. E aprender a viver melhor.