A violência que assola

Sentimos a violência cada vez mais próxima, a cada dia mais extrema. E não sabemos como reagir a ela. Afogamos no desespero e no terror. Afinal, o que está acontecendo?

 

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Arteterapia

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Nós somos como casas. Locais onde vivemos e onde guardamos nossos pertences, memórias, afetos. Possuímos uma funcionalidade prática — um corpo que respira, pensa, bombeia sangue, transporta nutrientes, uma casa que possibilita o preparo de alimentos, que abriga, que protege. É também o local onde vamos retendo ao longo dos anos os objetos, aprendizados, sentimentos que acumulamos. Os itens de decoração, os utensílios de cozinha, nossas roupas e sapatos, documentos, produtos de higiene, de beleza, mesa, cadeiras, armários, presentes, livros, sofá, almofadas, travesseiros, geladeira, espelho, televisão, calendário. Seu endereço, o número de seu documento, o nome de seu primeiro animal de estimação, o telefone da sua mãe, a data de vencimento da fatura do cartão, os ingredientes da receita da semana passada que ficou ótima. O dia mais feliz da sua vida, aquela viagem incrível, o enredo do seu livro preferido, as aulas da faculdade, suas habilidades cognitivas.

Mas às vezes juntamos coisas demais. E quanto mais atulhada a casa mais difícil torna-se identificar e jogar fora o que não serve mais. Então deixamos de descartar o que está quebrado, vencido, o que é inútil e prejudicial. Em algum momento o excesso passa a ocupar todos os espaços, dificultando nossa movimentação, danificando as estruturas, impedindo a entrada do novo, propiciando o pó e o mofo, os insetos e as doenças. Em algum momento estaremos atulhados de mágoas, pensamentos negativos, desânimos, medos, arrependimentos. Já não conseguimos nos desfazer deles, já ocupam o lugar de nossas alegrias. Travam os caminhos de nossa mente, lotam e tornam indisponíveis cômodos inteiros.

E agora? Como tornar a casa habitável novamente?

Esse é o objetivo da Arteterapia: servir de ferramenta para reconstruir nossa casa/mente. Porque a arte nos dá um lugar para despejar esses conteúdos, pensamentos e emoções que só estão nos prejudicando. Estão aqui dentro de nós e precisam ir para algum lugar. Vão parar na pintura, na escultura, na cerâmica, no bordado. Surgem no artesanato e na arte transformados. Aparecem nos textos, nos livros, nos filmes na forma de impulso criativo. Deixam de ser destrutivos. E abrem caminhos dentro de nós. E liberam espaço para novos pensamentos e ideias.

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Há a livre expressão do simbólico. Uma forma de falar sem precisar de palavras, sem a elaboração dos discursos, sem o peso racional do que pode ser ou não dito. Tudo aquilo que é ausência no dia a dia, que vive escondido e trancado nos nossos aposentos internos, pode ser colocado para fora e ressignificados.

Na arteterapia esse processo é conduzido por um especialista, com conhecimentos de técnicas artísticas voltadas para o contexto terapêutico. É como um especialista em limpeza e organização. Porque quando a casa está muito cheia, suja, desmoronando, faz-se necessário contar com a orientação de um profissional.

 

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Porque o tempo não para durante sua depressão

Um assunto que não é muito comentado em saúde mental é o tempo perdido durante as crises e a dificuldade em se adaptar ao mundo quando atinge a sonhada estabilidade.

 

 

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Eu testei: açaí – atualização

Há um ano eu publiquei dois textos — Eu testei: açaí para bipolaridade e Eu testei: açaí para bipolaridade (parte 2) — para contar minha experiência pessoal com a ingestão de açaí com o propósito de atenuar os sintomas da bipolaridade. Algumas ressalvas são necessárias. Em primeiro lugar, baseie-me num estudo ainda em desenvolvimento; ou seja, não havia nada confirmado cientificamente a respeito da eficácia do açaí ou mesmo de como usar o açaí para tratar transtorno bipolar (se bastava o consumo da fruta ou seria necessário ingerir um suplemento, por exemplo). Cheguei, na época, a entrar em contato com um dos pesquisadores, mas não obtive resposta. Outra questão essencial é que foi um experimento totalmente amador, no qual consumi açaí diariamente e anotei minhas emoções e sensações para tentar ver se haveria alguma mudança positiva em meu humor.

O que me motivou a fazer o experimento e, consequentemente, os textos foi uma publicação que afirmava ser o açaí a cura da bipolaridade, além do surgimento de todo um sortimento de superalimentos. Costuma haver certa histeria coletiva quando um novo alimento “milagroso” é “descoberto”, impulsionada, certamente, pela indústria e seu poderoso marketing. Não desejava ser influenciada, todavia, por minhas opiniões anteriores sobre tais supostos benefícios. Por outro lado, acredito sim na importância de uma alimentação saudável para a saúde física e mental. Dessa forma, consegui manter, na medida do possível, certa neutralidade durante o experimento.

Uma das premissas para se estudar o uso do açaí para tratar a bipolaridade é o fato de que doenças mentais estão relacionadas a inflamações em certas áreas do cérebro. Assim sendo, alimentos anti-inflamatórios poderiam ajudar a aliviar os sintomas. Mas a dúvida era se a ingestão desses alimentos era suficiente para as substâncias chegarem ao cérebro e em quantidade suficiente para entrarem na células e diminuírem a inflamação. O teste científico foi realizado injetando extrato de açaí direto nas células cerebrais. Ou seja, nada ainda confirmava se comer açaí teria algum efeito em nossos neurônios.

Outra premissa comentada era como a saúde mental dos índios que consomem açaí é excelente. Aqui temos outro ponto complicado. Não sou antropóloga, mas observo que existem dois caminhos extremos em relação a transtornos mentais quando falamos de povos indígenas. Há sim tribos cuja saúde mental dos indivíduos é excelente. Mas será que o açaí é responsável por isso? Ou somente o açaí é a causa dessa bonança? Ou será que tais povos, isolados, vivem uma vida tranquila, livres da quantidade de estresse, pressão e cobranças de nosso meio urbano? Não podemos deixar de lado o índice oposto, que mostra o altíssimo número percentual de casos de alcoolismo e suicídio entre indígenas, em especial em tribos que estão adoecendo pelo contato com o homem branco, perdendo suas terras e vidas em conflitos com madeireiros e extratores ilegais. Que perdem seus direitos nas mãos de governos que dão mais valor ao agronegócio. Será que cabe mesmo dizer que a saúde mental dos índios é melhor por causa do açaí?

Eis que ontem recebi uma mensagem de um leitor dizendo que acredita nos benefícios do açaí, mas que tem sido “uma luta” fazer sua filha bipolar ingerir o alimento, uma vez que ela não gosta de açaí. Isso me fez pensar bastante.

Tanto que estou aqui. Não tenho escrito na mesma frequência de antes. Nem mesmo gravei vídeos inéditos para o canal do YouTube. Não tenho lido blogs que sigo e havia deixado de lado um livro quase no fim. Às vezes decepções nos abatem e problemas pessoais/financeiros/burocráticos nos roubam a atenção. Mas certas questões não podem ser deixadas de lado.

Antes de mais nada, concluí o experimento afirmando que não notei nenhuma mudança significativa para acreditar que o consumo de açaí era suficiente para causar efeito numa inflamação cerebral. Ainda acredito que a alimentação saudável é essencial para a qualidade de vida, mas principalmente em contraposição a uma alimentação ruim. Na minha percepção uma dieta cheia de fast food, alimentos industrializados e com excessos de sal, açúcar e gorduras faz mal ao corpo e à mente. Uma alimentação mais natural e equilibrada, por outro lado, é aquela que não nos prejudica. Mas não acredito que um único alimento possa ser a cura definitiva de uma doença mental, nem de qualquer outra doença.

Dessa forma, ninguém precisa comer nada que desagrada. Muito menos em prol de algo ainda sem confirmação. Sem contar que devemos ter muito cuidado com a ingestão diária do que quer que seja, ainda que se trate de alimento in natura. Muitas vezes pecamos pelo excesso. Li faz um tempo sobre um homem de meia-idade que tinha uma ótima saúde. Então resolveu tomar um suplemento com intuito de obter mais vitaminas. Desejava ser mais saudável. Era um suplemento comum, daqueles de farmácia. Em pouco tempo o homem começou a se sentir mal. Não recordo o que aconteceu exatamente, mas ele ficou muito doente. Perdeu um rim, ou teve alguma outra consequência igualmente grave.

A minha conclusão é de que devemos deixar tudo mais simples, mais leve, mais diverso. Comer bem, de forma equilibrada. Sem exageros em nada. Vida tranquila. Reduzir o estresse. Aproveitar os momentos bons. Chorar quando estiver triste. Fazer terapia se for possível. Buscar médicos especialistas se estiver doente. Saber que vivemos altos e baixos. Conhecer sua doença mental. Tentar ficar em paz com você mesmo. Isso é saúde mental. Não há nenhum segredo, afinal de contas. Não há milagres nem milagreiros. E essa é a melhor notícia possível.

Novos vídeos e outros assuntos

 

Carnaval. E o começo do ano voou. Tivemos muitas novidades aqui no Bipolar e Afins. Em janeiro tivemos a campanha do janeiro branco e todos os dias postei trechos selecionados de livros que adoro para conversar sobre saúde mental. No mês de fevereiro publiquei os fragmentos, pequenas reflexões diárias sobre comportamento, transtornos mentais, sociedade, atualidade e outros assuntos diversos. Agora pretendo voltar aos textos específicos sobre transtornos mentais. Textos mais longos. Para os quais o tempo pede uma pausa, pede mais reflexão.

Outra novidade deste ano foi o canal do YouTube. Hoje postei mais três vídeos. Eu levei para o canal os áudios antigos do Soundcloud. São assuntos que precisamos sempre revisitar para reabrir discussões ainda tão atuais. As recaídas e novas crises de quem tem um transtorno mental e como lidar com elas. As diferenças entre sintoma e personalidade. A psicofobia, o preconceito contra pessoas com transtornos mentais.

 

 

 

Fragmentos #28

Ontem uma fala ríspida me deixou com a resposta engasgada na garganta. E ali ficou. Crescendo, pois em breve eu inevitavelmente teria que reencontrar a pessoa. E poderia dar uma bela devolutiva. Pensei na resposta palavra por palavra. Mostrar o erro do outro, mas com elegância. Não entraria em discussões exaltadas. Apenas uma provocação certeira. Mas então a resposta foi se dissolvendo. O tempo é interessante. Em breve o reencontro, mas tempo suficiente para deixar passar. Tempo para refletir. Pensei no quanto sempre evito confronto. E me recriminei por isso. Por que não respondo? Por que não defendo meu ponto de vista? Por que não escancaro a grosseria do outro? Mas então pensei nessa “cultura da lacração”, o quanto hoje todos querem dar a resposta definitiva, que coloque o outro no chão. Todos querem ter a razão, a posse da razão, e esfregar na cara dos outros que só existe uma verdade. Mas não concordo com isso. Não consigo ver um mundo com uma só verdade. Não preciso lacrar. Sei o que penso e isso me basta. Aí o aguardado reencontro. Agi com tranquilidade. E simpatia. Agi conforme o meu jeito de sempre. E a pessoa mudou de postura. Acalmou-se também. Pude ver seu ponto de vista sem trocarmos palavras sobre o assunto. Na hora da despedida ela me surpreendeu com um quase mea culpa. Ela também enxergou o meu lado. Poderia ter lacrado, tinha a resposta perfeita na ponta da língua. Mas, pensando bem, preferi que tenha sido assim.

 

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Fragmentos #27

Nas nossas interações sociais criamos imagens para o outro. Acreditamos que a pessoa seja essa única característica que observamos nela e esperamos que aja sempre segundo a nossa visão. Temos expectativas sobre o outro. Você é o meu amigo engraçado, me divirta. Você sempre me liga na hora do almoço, esperarei que você cumpra com isso até o fim da vida, sem falhar, mesmo que você nunca tenha concordado com este acordo. Mesmo que você desconheça este acordo. E vou me frustar e sentir raiva e lhe atribuir culpa toda vez que você não fizer aquilo que espero de você. Vou imaginar suas emoções e pensamentos e julgar suas ações de acordo essas emoções e pensamentos que não são seus, são meus. Exigimos que o outro cumpra com a imagem objetificada e estereotipada que construímos para ele.

E os outros constroem uma imagem igualmente objetificada para nós. De alguma forma, somos cientes deste processo. Sabemos até qual o nosso estereótipo principal. E lutamos para mantê-lo. Nós nos perdemos de nós mesmos e nos identificamos com a identidade que recebemos. Queremos fazer parte do grupo, pertencer ao espetáculo. Então cada um precisa cumprir seu papel. Se somos vistos como inteligentes escondemos todas as nossas dúvidas e perguntas compulsivamente. Revemos cada palavra. Ensaiamos cada fala. Que ninguém jamais possa pensar que falhamos em nosso papel! Se somos a pessoa calma e tranquila não podemos jamais perder a paciência. Nunca uma irritação, nunca elevar a voz. Somente cultivar o zen dentro de nós. E assim seguimos com muito esforço e dedicação. Mas até quando aguentaremos ser alguém que não nós mesmos?

 

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