As memórias de Cleópatra

memórias de cleópatra

 

“Nós três começamos a passar muito tempo juntos; Olímpio parecia solitário, embora nunca admitisse. Talvez seu intelecto e sua maneira adulta deixassem os outros desconcertados. Seu interesse em medicina não tinha esvanecido, e ele estava se preparando para estudar em Alexandria mesmo, onde a escola de medicina era a melhor do mundo. Mardian também era uma pessoa solitária, já que se aproximava da idade que o faria invariavelmente diferente dos outros. E eu? Eu era a princesa cujo futuro estava em dúvida, objeto de especulação, curiosidade e murmúrios. As pessoas mantinham distância.

“E então chegou o dia que eu mais temia na vida. Olímpio falou com orgulho que tinha adquirido um pequeno barco a vela e que gostaria de velejar conosco. (…)

“A água. Eu teria de confrontá-la mais cedo ou mais tarde, ou admitir que tinha medo e ficar em terra firme pelo resto da minha vida. Até agora, não fora importante. Nenhuma viagem, nenhum amigo convidando para alguma coisa que envolvesse barcos. (…)

“Dei mais um passo, e agora a água se aprofundava tanto — chegando à cintura — que precisei usar os braços para manter o equilíbrio. Detestava a sensação, mais fria do que tinha sido nos meus joelhos. Mais um passo e a água chegou ao meu peito.”

As Memórias de Cleópatra, Margaret George

 

Simplesmente amo esse livro! Tanto que tive que me controlar para não digitá-lo inteiro aqui. Pois a história continua… E Cleópatra conta como foi entrar na água pela primeira vez, e depois nadar sem saber como e sem contar a seus amigos. Depois, ela explica a Mardian que evitou a água durante toda a vida porque sua mãe, a rainha, havia morrido afogada naquela mesma enseada em que navegaram. Acho esse trecho especialmente revelador da grandeza da personagem. Apesar do trauma, ela o enfrenta. Elimina o problema. Em parte por conta do orgulho e por não querer compartilhar sua fraqueza, mas também, como revela, porque entende que ser uma princesa alexandrina sem saber nadar seria uma desvantagem em algum momento. E às vezes precisamos seguir em frente, superar as angústias, as dores, os traumas e resolver os problemas.

 

Para celebrar a Campanha Janeiro Branco, trarei todo dia aqui ao Bipolar e Afins uma série de postagens com trechos de livros para refletir sobre saúde mental. Siga o blog e não perca nenhum texto!

 

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Mrs. Dalloway

mrs dalloway

 

“Ela se sentia muito jovem; ao mesmo tempo, inconcebivelmente velha. Passava por tudo como uma faca afiada; ao mesmo tempo, ficava de fora, contemplando. Tinha uma sensação permanecente, olhando os táxis, de estar longe, longe, bem longe no mar e sozinha; sempre era invadida por essa sensação de que era muito, muito perigoso viver, ainda que por um dia.”

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf

 

Viver exige certa paixão, certo envolvimento. É preciso ter um brilho no olhar, estar presente. E se relaciona muito mais com aquilo que sentimos do que com o que de fato nos rodeia. Nossas emoções são a bússola que direciona como interpretamos a realidade e como reagimos a ela. Então devemos estar alertas a seus sinais. Quando nos falta motivação em relação a tudo algo precisa ser mudado. Se sempre nos sentimos longe daqui, do agora, algo está errado. Não devemos ignorar os alertas que nosso próprio coração nos dá para pedir ajuda.

 

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Memórias do subsolo

memórias do subsolo

 

“Imaginava, para mim mesmo, aventuras e inventava uma vida, para viver ao menos de algum modo. Quantas vezes me aconteceu, por exemplo, ficar ofendido não por um motivo determinado, mas intencionalmente! E eu mesmo sabia, por vezes, que me ofendera por nada, que aceitara voluntariamente a ofensa; mas essas coisas levam uma pessoa a tal estado que, por fim, ela realmente fica ofendida. A vida toda algo me arrastava a fazer esses trejeitos, a tal ponto que acabei perdendo poder sobre mim mesmo. De outra feita quis por força apaixonar-me; isto me aconteceu duas vezes. E realmente sofri, meus senhores, asseguro-vos. No fundo da alma, não aceitamos estar sofrendo, há uma zombaria que desponta, mas, assim mesmo, sofria de verdade; tinha ciúmes, ficava fora de mim… E tudo isso por enfado, senhores, unicamente por enfado; a inércia me esmagara.”

Memórias do Subsolo, Fiódor Dostoiévski

 

Quantas vezes nós mesmos construímos nosso próprio sofrimento? Quantas tragédias dignas de peças encenamos em nossas mentes? Quantos traumas ocorreram antes do tempo possível, pois não conseguimos deixar de imaginar todos os cenários desastrosos antes de uma reunião, evento ou encontro? E quantas não foram as vezes que insistimos em algo mesmo sabendo que provavelmente nos traria prejuízo? Sim, podemos sozinhos nos causar mal. Por tédio ou medo, não importa. E, ainda que possamos justificar nossos atos dizendo que são apenas pensamentos, planejamentos e precauções, o sofrimento é real. Por isso, caso queiramos melhorar nossa existência, o primeiro passo sempre é começar de dentro.

 

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Vermelho amargo

vermelho amargo

 

“Ao erguer os olhos do livro, o olhar da mãe vinha vestido com novo luar — eu invejava. Em cada página virada ela se remoçava, afagada pelas viagens, amores, incômodos. O livro aberto era seu berço e seu barco, em suas páginas ela se transmutava. Eu suspeitava que o embaraço das letras amarrava segredos que só o coração decifra.”

Vermelho Amargo, Bartolomeu Campos de Queirós

Os livros, bem como a arte de forma geral, são importantíssimos para a saúde mental. As histórias das páginas nos permitem esquecer nossas angústias por um momento e seguir por outras aventuras, que nos renovam e mudam a percepção de nossas próprias dores. Com os livros experimentamos outras realidades, emoções, sofrimentos, alegrias. Nem posso enumerar quantas vezes um dia foi minha companhia perfeita num dia triste ou apenas chuvoso. Da mesma forma, não é possível quantificar o quanto as histórias em suas páginas ajudaram a formar o meu caráter e a minha visão de mundo. Tantas são as palavras impressas — várias delas lidas na infância — que marcaram meu coração e continuam vivas em minha memória.

 

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A individuação nos contos de fadas

individuação nos contos

 

“Pode-se dizer que onde quer que se encontre a fonte da vida, ali também se encontra o leão; pois onde quer que se encontre uma pérola ali está um dragão a cobri-la com seu corpo, e onde quer que haja um tesouro lá também se encontra uma serpente enroscada nele, e onde quer que esteja a água da vida, ali também está o leão a guardá-la. Não se pode chegar perto do Self e do significado da vida sem que se passe pelo fio da navalha da cobiça e das trevas, e dos aspectos sombrios da personalidade.”

A Individuação nos Contos de Fadas, Marie-Louise von Franz

O conceito junguiano de individuação, que aparece no título do livro, significa, ao contrário de individualização (torna-se diferente dos outros), o processo psíquico de autoconhecimento no qual as partes da personalidade vão se integrando ao todo. Dessa forma, é essencial para nosso desenvolvimento acessar aquelas partes obscuras que rejeitamos, negamos e varremos para debaixo do tapete. É preciso encontrá-las novamente, compreendê-las e perceber que também nos pertencem. Mas encarar nossas sombras, angústias, dores e traumas não é tarefa simples. Temos que passar pela serpente que habita os pântanos da nossa mente e enfrentar o leão furioso que devora aqueles que desejam descobrir os segredos da vida. Porque, se nossa sombra é aquilo que nos causa dor e nos faz fugir, encontrá-la é também nossa única forma de crescimento.

 

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Marie Kondo: Organizando por dentro e por fora

Olá pessoal!

Fiz um novo vídeo para o YouTube, sobre o programa Ordem na Casa, da Netflix, no qual eu falo sobre a importância da organização para quem tem um transtorno mental e também sobre o que podemos aprender aplicando as dicas da Marie Kondo em nossas vidas.

 

Deuses americanos

deuses americanos

 

“Nenhum homem, proclamou Donne, é uma ilha, e ele estava errado. Se nós não fôssemos ilhas, estaríamos perdidos, afogados nas tragédias dos outros. Nós nos isolamos (uma palavra que significa, literalmente, lembre-se, ser transformado em ilha) da tragédia dos outros por nossa natureza de ilha, e pelo desenho e pela forma repetitiva das histórias.”

Deuses Americanos, Neil Gaiman 

 

Dependemos do relacionamento com outras pessoas; caso contrário, como espécie, não sobreviveríamos. Precisamos de proteção, de abrigo, de alimento. E tudo isso não se conquista sozinho. Mas também precisamos de certa proteção pessoal, de um pequeno isolamento emocional. Precisamos ser ilhas; ilhas próximas, é verdade, mas independentes. Ou, como coloquei em meu livro, somos como árvores tímidas:

“Existe algo que faz parte de nosso instinto, embora alguns, ou todos, às vezes tentem negar. A humanidade presente em nós não pode viver em solidão, buscando constantemente o espelho do outro, do semelhante. Sem isso, não é possível se enxergar. E, por ser tão vital, a questão do relacionamento e seus conflitos é constante em nossas vidas e artes, e constitui nossa noção de civilização. O jogo de amor e ódio por aqueles que não são o eu se assemelha às árvores tímidas, cujas copas crescem sem se encostar. Tão perto e distante, os galhos e folhas desenham seus espaços pessoais. A linha vazia não possui uma explicação definitiva. Talvez seja para evitar que insetos passem de uma árvore para outra, o que ocorreria caso pudessem se tocar. Talvez seja para permitir a entrada da luz vital, evitando o colapso de todo o sistema. E como árvores tímidas se consolida nosso espetáculo. É preciso manter esse espaço, ainda que mínimo, esse santuário intransponível entre o eu e o outro. Não se sabe se para evitar a destruição que esse outro pode nos causar, ou se como sacrifício para a proteção de nossa frágil civilização.”

Árvores Tímidas, Bia Ribeiro

 

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