Eu testei: açaí para bipolaridade

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Faz um tempo, vi uma reportagem sobre os efeitos sensacionais do açaí para curar o transtorno bipolar e a esquizofrenia. Minha primeira reação foi desconfiança. Não sou do tipo que acredita com facilidade. Mas depois de ler mais um artigo resolvi pesquisar mais. Descobri que a relação entre o açaí e a bipolaridade foi investigada em um estudo realizado pela Universidade Federal de Santa Maria em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas e a Universidade de Toronto (Canadá). Testaram o poder anti-inflamatório do açaí em mitocôndrias disfuncionais. Mas como assim mitocôndrias? E o que isso tem a ver com a bipolaridade?

Relembrando as aulas do colégio, mitocôndrias são as organelas dentro das células responsáveis por produzir energia. Os cientistas acreditam que as mitocôndrias dos bipolares e esquizofrênicos produzam radicais livres ao invés de energia. E eu pensando que o problema era só no cérebro…

A boa notícia é que os testes mostram uma reversão de 80 a 90% da disfunção das mitocôndrias com o uso do açaí. A má notícia é que ainda falta um bocado para testaram em pessoas. Isso porque a pesquisa foi realizada pegando células e injetando um extrato de açaí diretamente nelas. Dessa forma, ainda não é possível saber se a ingestão da fruta teria o mesmo efeito.

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Mas eu não queria esperar até concluírem os estudos. Então fiquei pensando em como seria possível testar e medir os resultados. Resolvi ingerir todos os dias uma pequena quantidade de açaí e fazer um diário monitorando meus sintomas e possíveis alterações.

Antes de mostrar os resultados que obtive durante a primeira semana, preciso ressaltar pontos importantes. Para começar, é preciso lembrar que nossos humores mudam e nem todas as mudanças são causadas pelo transtorno afetivo. Eventos externos podem ter grande influência em como nos sentimos. Além disso, não posso deixar de pensar no quanto eu poderia me influenciar também, psicologicamente, para notar certas mudanças no decorrer deste período. Por mais que eu seja desconfiada e cética, no fundo eu quero que dê certo, claro. Quem não iria querer um resultado positivo com uma prática simples e natural? Assim sendo, creio que pode haver um fator de auto-sugestão que não pode ser ignorado. E, como já dito, não há ainda nenhuma comprovação de que seja possível obter ao comer açaí os mesmos resultados que introdução do extrato da fruta diretamente na célula. Por fim, esse não é um teste científico, não fiz nenhum exame em laboratório; trata-se apenas de um experimento amador que se baseia em percepção subjetivas.

RESULTADOS

Comecei a comer açaí no sábado 17/03, às 17hs. Sim, o horário complica na hora de verificar os efeitos. Mas estava ansiosa… Comprei o açaí e já comi! A dose estabelecida foi de 4 colheres ao dia. Também não dava para comer um tigela de açaí diariamente. E meu mantra pessoal é que tudo em excesso faz mal.

Antes de começar esse experimento, não estava num período feliz. Durante semanas me senti sem energia, e apenas me animava para escrever no blog. Tentava manter o pensamento sempre positivo, mas nem sempre era possível. Estava lutando contra um quadro depressivo leve. E, em alguns momentos, chorei e achei que nada daria certo.

# Dia 1

Desânimo e cansaço à tarde, seguida de uma noite agradável. Vi algumas séries e tomei um drink com meu noivo. Dormi às 2hs, com uma leve dor de cabeça. O sono foi satisfatório, e pude lembrar de um sonho ao acordar. No restante do dia meu humor foi normal.

# Dia 2

Feliz e tranquila após a segunda dose de açaí do experimento. Tive um boa noite de sono e novamente pude lembrar dos sonhos. Acordei com o nível de energia ainda baixo, mas sem sinal de tristeza ou estresse.

# Dia 3

Estado de humor tranquilo. Não houve nenhum eventos interno ou externo significativo. A noite foi satisfatória e dormi o suficiente, mas acordei um pouco sonolenta. O sono passei no decorrer da manhã.

# Dia 4

Tranquila novamente durante a tarde e a noite. A manhã foi agitada e, por conta de uma emergência familiar, havia dormido bem menos do que necessito. Algumas situações poderiam ter me irritado, mas pude controlar minhas reações.

# Dia 5

A falta de sono provavelmente foi a causa do cansaço e desânimo que senti a tarde inteira. Mesmo após outra noite de sono não me senti melhor. A frustração do dia anterior alterou o emocional. Senti um desânimo enorme e vontade de chorar, mas, surpreendentemente, durou menos de uma hora.

# Dia 6

Um dia calmo. Mas dormi muito e acordei sem energia e um pouco irritada.

# Dia 7

A noite de sexta veio acompanhada do meu noivo, séries, lasanha e uma garrafa de vinho. Fui dormir feliz, mas um barulho me acordou e atrapalhou meu sono. Levantei com uma mistura de desânimo e irritação em partes iguais. Novamente veio a angústia. O choro não ficou só na vontade dessa vez. Mas também passou muito rápido, e logo já me sentia bem melhor.

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CONCLUSÕES

Como eu já esperava, não houve nenhuma cura milagrosa. Não fiquei instantaneamente feliz. Meus problemas não foram resolvidos de forma mágica. A vida continuou sendo real, com altos e baixos, alegrias e tristezas. Mas posso dizer que senti certa melhora na minha disposição e, aparentemente, as turbulências passaram mais rápido do que o tempo que levavam antes do açaí. Uma semana é um período muito curto, claro, para ter uma avaliação final. Além do mais, não posso afirmar que essas mudanças ocorrem por causa do açaí ou por causa da minha vontade de melhorar tais aspectos que sempre atrapalharam o meu dia a dia.

O que posso afirmar, com certeza, é que vale a pena aguardar e acompanhar mais resultados da pesquisa desenvolvida por estes cientistas. Sei que muitas pessoas pensam em parar a medicação e sofrem com os efeitos colaterais de seus remédios. Então poderá ser muito benéfico sem desenvolverem um remédio natural e eficaz para esquizofrenia e transtorno bipolar. Enquanto isso vou continuar com meu açaí mais um pouco. Se você quiser acompanhar a próxima etapa desse experimento, me avise nos comentários!

 

Confira também Eu testei: açaí para bipolaridade (parte 2)

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Por que você é tão duro com você mesmo?

clock-time-stand-byIsso já aconteceu com você? Deitar a cabeça no travesseiro, mas não dormir. Pensamentos invadem sua mente. E de repente uma coisa tola, uma bobagem, uma resposta não dada, uma gafe ou vergonha do passado atormenta sua alma. Após anos sem lembrar, surge aquele arrependimento. E lhe tira o sono! Aposto que já aconteceu com todo mundo. Acontece sempre comigo. Mas por que, me pergunto. Tenho plena convicção de que não vale a pena remoer o passado. Até tento interromper o fluxo de pensamentos. Questiono: isso vai me fazer bem? Lembrar desse dia muda alguma coisa? Geralmente a resposta é não. Aí vem o duro trabalho de não pensar mais nisso, e novamente tentar dormir.

Às vezes o incômodo aparece como uma preocupação mais recente, uma palavra que não saiu como o desejado naquele dia mesmo. Uma mensagem que não deveria ter sido enviada. Um telefonema que faltou. Mas o dia já acabou, de que adianta pensar se o tempo não volta? E tenho que admitir que, embora na hora tudo pareça importante, uma reflexão atenta mostra que sempre são besteiras, minúcias. Nada que irá mudar minha vida.

Mas por que tais coisas tão pequenas incomodam? Imagino que seja para focarmos nossa atenção em algo que não fere tanto nosso ego quanto aquelas que realmente importam. As grandes angústias! Eu mesma tenho uma gigante! É achar que nunca vou conseguir. Nunca irei realizar nada relevante.

Explico: eu costumava ter grandes sonhos, e era extremamente confiante. Mas eu não percebia, ou melhor, minha mania não me deixava ver que meus planos eram impossíveis. Não, não, não eram planos. Eram devaneios! Delírios, fantasia. Um filme grandioso e com final feliz que eu criava sempre em minha mente. Claro que nunca se realizava. E eu, por acreditar tanto, por ficar tão cega diante de meus desejos, acabava sempre frustrada. Um dia, após repetir este ciclo incontáveis vezes, parei de acreditar. Hoje, minha angústia, meu medo, meu ponto fraco é o oposto exato: perdi toda a confiança.

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Agora percebo que sou dura demais comigo mesma. Sigo somente os extremos. Ou me perco em ilusões ou entrego o jogo antes mesmo de começar. Agora percebo aquilo que preciso mudar. Mas como? O caminho para afastar os pensamentos negativos é longo. Demanda esforço. Questionar cada sentimento e percepção alterada sobre si mesmo. Sim, alterada, pois é a depressão quem diz que você é um fracasso. Sejamos realistas: a vida é dura, bem longe daquele conto de fadas perfeito, mas podemos fazer algo bom, que nos dê orgulho. Dá para encontrar algum sentido nesse caos que é o mundo. Dá para realizar algo significativo. Na verdade, pensando bem, eu já fiz coisas legais. E, se já fiz antes, posso fazer novamente. E essa tem sido minha estratégia, que compartilho abaixo.

Pense em 3 momentos de destaque da sua vida. Aqueles que causaram maior orgulho. Não importa em qual área de sua vida. Não importa se ocorreram há muito tempo. Pense em 3, os mais importantes. Pode ser aquela vez que você gabaritou uma prova difícil. Pode ser quando conseguiu uma promoção no trabalho. Pode quando passou numa entrevista de emprego. Pode ser quando decidiu dormir mais cedo e conseguiu dormir mais cedo. São os seus momentos significativos, que fizeram com que você se sentisse bem. Escolha os seus preferidos. E guarde-os na mente. Use-os como antídoto contra o desânimo e a falta de confiança.

E você, por que tem sido tão duro com você mesmo?

Suicídio: sinais de alerta

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Há um certo receio de se falar sobre o suicídio. Isso se dá em parte pela concepção religiosa internalizada em nossa sociedade. O suicídio é visto como um pecado supremo, que se contrapõe e destrói a vida sagrada. Por outro lado, há o chamado “efeito Werther”. Após a publicação do livro Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, em 1774, houve uma enorme onda de suicídios. O protagonista lamenta um amor impossível: sua amada está prometida a outro homem. E, aparentemente, muitas pessoas enxergaram tamanha beleza nesse marco do romantismo que se inspiraram no ato de Werther. Ainda hoje existe muita discordância a respeito da influência da arte e da mídia sobre os índices de suicídio. Acredita-se que noticiar casos de suicídio, em especial o de celebridades, possa incentivar pessoas a imitarem o ato. Recentemente, um estudo observou uma ocorrência de suicídios 10% maior que o esperado após a divulgação da morte do ator Robin Williams.

É possível que mostrar o suicídio como uma saída viável num momento difícil, ou romantizá-lo, ou até mesmo descrever o método utilizado possa realmente influenciar aqueles que já pensam no assunto. Mas o fato é que o índice de suicídios está subindo. No Brasil, somente entre 2011 e 2015, houve um aumento de 12%. Então precisamos encontrar uma forma de abordar este assunto. Fazer com que deixe de ser um tabu.

QUESTÃO PESSOAL

Tentei suicídio aos 9 anos. Isso mesmo, 9 anos! Consegue imaginar a quantidade de sofrimento daquela menininha? Era só uma criança. Que chorava escondida, que chorou escondida desde que se lembra (e, mesmo agora, ainda faz isso de vez em quando). Falei sobre essa experiência em meu livro. Tomei os remédios para hipertensão da minha avó, mas entrei em pânico e vomitei. Depois disso, não tentei mais o suicídio de forma consciente. Eu tentava de forma inconsciente: sempre me colocando em risco. Claro, isso era em parte a mania, que me fazia sentir invencível. Mas houveram pelo menos duas ou três ocasiões nas quais eu sabia que estava passando do limite, que poderia morrer, e não parei.

Já os pensamentos suicidas continuaram. A angústia. A dor, o sofrimento. O desejo de deixar de existir. Às vezes eles tomam o controle, e é difícil pensar que essa sensação terrível irá passar. Não conseguimos acreditar, não conseguimos buscar ajuda. E deixamos a dor tomar conta sem nem questionar se há outra forma de viver. Por isso, resolvi destacar alguns fatores que chamo de sinais de alerta, tanto para portadores de transtorno afetivo quanto para familiares, para que todos possam prestar atenção nesses indícios e tomar as medidas necessárias.

SINAIS DE ALERTA

Para pessoas com transtorno afetivo

Começa com o sofrimento. E não temos opções, não vemos soluções. Cresce o desejo de sumir. Já não temos energia para lidar com os problemas. Não seria mais fácil simplesmente não existir? E esses pensamentos se reproduzem. E tomam conta de nossas mentes! A morte parece ser a única saída, mas não é! O primeiro passo é identificar esses pensamentos. São variados, e envolvem três estágios: 1. vontade de não viver mais e pensamentos suicidas; 2. planejamento do ato; e 3. tentativa de suicídio. Surgem primeiro os pensamentos misturados ao sofrimento. É essencial ficar consciente neste primeiro estágio. Muitos suicídios ocorrem em atos impulsivos e não é raro o pensamento levar ao ato sem passar pelo planejamento. Evite ficar só nestes momentos. Assim como o abuso de álcool e uso de drogas, que embotam a consciência e aumentam a impulsividade. Converse com pessoas próximas. Converse com profissionais. Busque ajuda já no primeiro sinal.

O segundo estágio é o do planejamento. A pessoa teve os pensamentos suicidas, mas não procurou ajuda. Eles continuaram em sua mente e evoluíram para pensamentos de ordem prática. E então passa a arrumar seus pertences, joga fora aquilo que não quer que seja visto, faz testamento, organiza as finanças. Isso acontece com frequência quando a pessoa possui familiares que dependem dela: filhos, pais, cônjuges. E então prepara o método. Mas podemos adiar o planejamento. Não arrume os armários hoje. Não compre um arma se estiver pensando em usá-la. Procure evitar tudo aquilo que possibilitaria o ato. Monitore seus pensamentos. Tente pensar de outra forma, e tente novamente, e tente novamente. E busque distrações. E acredite que tudo ficará bem. Tudo vai passar. Você ficará grato por estar vivo em breve, quando tudo ficar bem. Para isso, busque ajuda. Marque uma consulta. Fale com um amigo. Vá num grupo de apoio. Pois se você identificar os sinais de alerta dos estágios 1 e 2, e fizer o possível para mudar seus pensamentos, e conseguir algum tipo de ajuda você não chegará ao estágio 3. E mais que isso, você não desejará mais o estágio 3. Em breve, o estágio 3 não parecerá ser a única opção. Pelo contrário, já não será mais uma opção.

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Para familiares

Quando a pessoa está deprimida passa a não sentir prazer ou ter entusiasmo para fazer aquelas atividades que antes adorava. Claro que, na maioria das vezes, a pessoa tenta disfarçar. Não deseja preocupar sua família e amigos. Ou não se sente digno de atenção e afeto. A depressão destrói a autoestima. Mas nem tudo podemos disfarçar. E um olhar atento revela mudanças, ainda que sutis. A pessoa perde a energia. Tem alterações de apetite. Alterações no sono. Até o ritmo da fala muda. Assim é possível visualizar os sintomas da depressão, que, embora não seja a única, ainda é principal fator relacionado a suicídios.

Além disso, a pessoa pode dizer que pensa em suicídio, ou que não deseja mais viver, ou que não enxerga propósito em suas vida. Não existe isso de “só fala para chamar atenção”. Por trás de cada verbalização há um sofrimento. Por trás de cada pedido de ajuda há o desejo de impedir um ato que está presente em sua mente. E, acredite, falar não é nada fácil! Normalmente, quando compartilhamos nossas angústias com alguém significa que a situação está insuportável.

O que fazer para ajudar? Estabeleça um relação de confiança. Aprenda a ouvir de verdade, e sem julgamentos. E sem aquele velho discurso do “você deveria fazer isso ou aquilo”. Quem está com um problema grave, que leva a pensamentos suicidas, pensa nisso o tempo todo. E já pensou em inúmeras maneiras de se sentir melhor. Ao invés de impor, pergunte. Deixe o caminho aberto para que o outro possa compartilhar dores, problemas com depressão, problemas com bullying. E mostre que você o apoia. Às vezes apenas poder falar já alivia as angústias, acalma o coração, mostra outra perspectiva.

Também é essencial buscar ajuda profissional. Se você estiver pensando em suicídio, ou alguém próximo a você estiver passando por problemas, procure ajuda! Não hesite! Isso pode salvar vidas. Além de psicólogos, psiquiatras e grupos de ajuda, há também o incrível trabalho do CVV – Centro de Valorização da Vida. Entre no site ou ligue para 141!

Resumindo, ninguém quer se matar! Muitas pessoas, de fato, cometem suicídio. E tantas outras tentam, até mais de uma vez. Mas nenhuma quer de verdade morrer. Essas pessoas passam por um sofrimento tão cruel, tão terrível, insuportável. E parece, para elas, que a morte, embora tão triste, e irreversível, é melhor do que continuar nessa angústia. Às vezes é impossível continuar vivendo essa dor, que oprime, que dilacera, que se alastra pelo seu corpo e tece uma teia bem apertada, que comprime todo o seu ser e sufoca sua voz. Nesses momentos não parece haver outra saída. Quando a dor é tão intensa é difícil encontrar sozinho outra opção. Por isso precisamos falar. Por isso precisamos ajudar.

Você conhece alguém que também precisa de ajuda? Compartilhe.

O outro lado do transtorno bipolar

Abro um site sobre transtorno bipolar e vejo um cenário totalmente desagradável, desanimador e vergonhoso. Entro em outro site e a situação se repete. O bipolar é descrito com uma série de comportamentos terríveis e inadequados, quase como um alienígena que não conhece as boas maneiras dos terráqueos. Na depressão fica desanimado, desleixado com a aparência, não sai da cama e até o pensamento torna-se letárgico e comprometido. Na mania, o oposto. O pensamento é tão acelerado que se perde no caminho e não completa o raciocínio. Nem se pode falar com um bipolar em fase maníaca, pois ele interrompe a conversa e não deixa o outro terminar uma única frase! Chego a sentir pena desse pobre bipolar até que lembro que, ei!, eu também sou bipolar!

Mas em meio a todas essas críticas severas e sintomas terríveis existem pessoas complexas, vivas, únicas. E falta falarem sobre o outro lado do transtorno bipolar – aquele que não é tão tenebroso, muito pelo contrário. Há um fator em minha doença que me faz sentir grata. Neste momento muitos devem estar pensando que falarei sobre a relação entre transtorno bipolar e criatividade. Claro, existem diversas listas por aí com nomes de artistas bipolares e depressivos. Além de diversos estudos sobre a inteligência e a bipolaridade. Eu certamente acredito que exista uma ligação entre a bipolaridade e a criação artística, que a alternância entre a depressão, a mania e os estados intermediários faz com que tenhamos insights incríveis. Mas não, não irei falar sobre isso.

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Também não irei falar sobre como o transtorno bipolar me faz buscar o autoconhecimento ou como isso me faz entender melhor minhas limitações (pontos a melhorar) e pontos fortes e, assim, desenvolver minhas habilidades. Sim, claro que saber é sempre melhor que a ignorância. Mesmo quando se trata de características não tão boas. Sei que me irrito com facilidade. Mas assim posso criar estratégias para ficar mais calma ou evitar situações que me estressam. Vejo por aí pessoas que se irritam com facilidade, mas que não percebem, não controlam e que colocam a culpa sempre no outro.

Sim, o transtorno bipolar tem um lado bom. Mais que um. Além da criatividade e do autoconhecimento, a bipolaridade me permite valorizar coisas pequenas. Quando você passa um mês inteiro em depressão, uma semana inteira sem sair de casa, e depois começa a sentir melhor, cada detalhe fica mais vívido. Uma árvore bonita me alegra. Uma formiga carregando uma folha. Uma criança feliz com seu balão. A vida adquire maior importância toda vez que você percebe como ela é frágil. É verdade que o transtorno bipolar é acompanhado de todos aqueles sintomas terríveis enumerados em diversos sites. Sintomas que aparecem com maior ou menor frequência. Não é fácil viver em meio a tudo isso. Mas, analisando tudo, no fim do dia eu me sinto grata por ser quem eu sou.

O que não te contam

Vivemos uma mentira. Todos nós que temos essas oscilações de humor. Que chamam de transtorno bipolar. É tudo mentira. Falam sobre os dois polos extremos, mania e depressão. Eu sei bem quais são. Você também sabe. Tive a primeira depressão com 9 anos, quando tentei suicídio. A mania eu conheci melhor na adolescência. Eu sei como funcionam, sinto quando estão próximas, até sei o que fazer em algumas situações, em alguns encontros. Mas há mais nessa história toda. Há um tal de estado misto.

Misto porque mistura o pior dos dois lados. É um desânimo agitado, ansioso. Você não faz nada, nem respira, nem come, nem dorme. É insatisfação com raiva.

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O que não te contam é que esse estado misto, que antes era novidade, se torna cada vez mais frequente. Chega um momento em que é difícil lembrar como era estar em um polo ou no outro, como era ter um humor por vez.

Gostaria de entender, penso, este estado no qual excitação vira desespero. Desespero se confunde com irritação. Irritação anda acompanhada do medo. E o medo logo vira tristeza. Queria saber como agir, penso, andando solitária sob a densa chuva de uma segunda-feira, ilhada como minha cidade, braços e pernas cansados, o guarda-chuva já apoiado sobre um ombro, indiferente às gotas no rosto.

Entro em casa e tiro os sapatos. A vontade de chorar já passou. A noite me envolve em silêncio. Não entendo este estado misto, penso. Mas agora ele já se foi. Como os outros, ele sempre vai.

 

Dica prática

Nesses dias em que depressão e mania aparecem juntas uma boa forma de sentir-se melhor é caminhar. Não precisa ter muito tempo ou disposição. Basta ter 5 minutos, ir logo ali, até a padaria ou mercado.

E tenho duas formas de fazer isso. A primeira é andar bem rápido. Você libera endorfina e toda aquela energia da raiva é gasta no exercício. Quanto mais puder andar, melhor. A raiva some, a tristeza se perde. Você estará focado em respirar e recuperar o fôlego.

A outra forma é caminhar um pouco mais devagar. Olhe para os lados. Não pense em nada. Algo irá chamar sua atenção. E depois mais alguma coisa. Continue andando. E logo estará distraído, e mais calmo.

E para você? O que funciona melhor nos dias de estado misto?

Quando parar a medicação

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Quis deixar de tomar medicação antes mesmo de começar. Era lítio. E eu não gostava de remédios. Não conheço quem goste, aliás. Ao olhar diariamente para meu comprimido pensava que havia fracassado. Enfiava na boca. O gosto amargo descia até o estômago. E voltava a entalar na garganta. Não havia água suficiente para desfazer o nó. Não havia água suficiente para nada. Eu era deserto. Árida, seca, solitária.

Mais que um, eram dois. Estabilizador de humor e calmante. Calmante para quê? Eu era pura inércia. Derretia-me pelos cantos como obra de Dalí. E me procurava no pó acumulado, nas teias de aranhas esquecidas. No chão frio sentava sem sentir. Nem bem nem mal, vivia no limbo. Com o coração acelerado, continuei. Com um coração que pulsava sem vontade, engoli mais um. E mais um, e mais um.

Haviam os exames. Agulha na veia, olhar para o lado, fingir que estava bem. O cappuccino de máquina na saída. Ponto alto do meu dia a cada duas semanas.

Eu não era mais eu. Era quem? E essa outra valia a pena ser mantida? Eu queria matá-la. Minha família queria mantê-la. Traição. Como ninguém percebeu essa máscara, essa manequim sem voz que roubou meu lugar?

Eu queria ficar bem. Ser feliz. Ter aquele sonho bonito, aquele filme de fantasia, de magia, com final emocionante e felizes para sempre. Queria. Antes de não sentir mais nada. Antes ainda, quando tudo estava tão distante e alegria vinha somente em garrafas. Desejava dar certo, ser normal, dar orgulho para alguém. Mas o embotamento das pílulas era diferente de estar bem de verdade. E fingir não funcionou antes.

Então parei. Não avisei o psiquiatra. Já não ia mais na terapeuta. Apenas agi como se nada nunca tivesse acontecido. E me senti bem, livre. Podia rir novamente; e também chorar. De repente voltei a fazer parte do mundo. Eu havia superado tudo. Era uma amazona que retornava vitoriosa. Forte, viva, pronta para enfrentar o mundo. Essa fase durou alguns meses.

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Num dia qualquer tudo desabou. Não lembro bem quando. Tenho esse problema: esqueço. Não que tenha muito o que recordar. Eu passei tempo demais sem sair de casa. Choro compulsivo nas madrugadas; manhãs sonolentas. Estava semi-morta. Respirava e nada mais. Foi difícil criar forças para recomeçar. Novo médico, novo remédio. E pior, outra esperança. Acreditar era mais doloroso do que pensar em desistir.

Em suspiros, engolia novamente. Mas já não era tão amargo, nem entalava na garganta. Com o tempo, meses, já podia rir e chorar sem questionar se rir e chorar eram sintomas, ou se ria e chorava menos ou mais do que o faria sem pílulas. Não era perfeito, mas era eu mesma.

Mas tudo é cíclico na vida. E o desejo de ficar sem medicamentos retornou. Desta vez, conversei com o médico. Diminuímos a dose. Agora eu sentia que estava mais preparada. Faz 4 anos que parei completamente. Tomar ou não remédio para transtorno bipolar é uma decisão. Uma escolha racional. Há muitos fatores, muitas variáveis. Cada pessoa é única, cada bipolaridade também. Umas se adaptam melhor ao tratamento, outras sentem todos os efeitos colaterais.

Parar não tornou tudo mais fácil. Ainda sou bipolar. Ainda tenho aqueles períodos terríveis, as crises, irritação, choro. Apenas controlo melhor, apenas vejo à distância quando se aproximam. Com frequência penso se não estaria melhor com o remédio. Mas sei que faria a pergunta oposta se ainda o tomasse. Depois tudo passa. Depois tudo fica bem e já nem penso no transtorno bipolar. No fim, a vida não é simples de qualquer maneira. Tem altos e baixos. Com ou sem remédio, não importa. No fim do dia só quero sentir orgulho de mim mesma.

 

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES!

Como eu sei que a questão de encerrar a medicação é comum, resolvi ampliar um pouco a nossa discussão e ir além de relatar minha experiência pessoal. Primeiramente, devemos ter em mente que cada pessoa é única, assim como cada tratamento segue um percurso distinto. A maioria das pessoas deseja não tomar remédios, mas há aquelas que precisam deles. E há pessoas se adaptam a suas medicações, que passam a se sentir melhor com elas. Então por que deixar aquilo que faz bem? Por conta do estigma. Aqueles que precisam de remédios por causa de diabetes ou hipertensão não questiona se deve deixar a medicação. Nem sente vergonha por ter que tomá-lo. Mas a sociedade continuamente nos diz que pessoas normais não tomam remédios para transtornos afetivos. Dizem, de forma aberta ou com sutilezas no discurso, que esse tipo de remédio é para loucos. E nós acreditamos. E alimentamos essa visão. E continuamos a sentir vergonha. Abandonamos o tratamento, colocando em risco nossa saúde e bem-estar, apenas pelo desejo infantil de ser como os outros.

Há outras situações, entretanto, nas quais o indivíduo se sente muito mal com a medicação. Fica sujeito a toda sorte de efeitos colaterais – que podem ser terrível e, inclusive, piores do que os sintomas da doença. Alguns efeitos são até potencialmente perigosos. É compreensível que esta pessoa queira parar com tudo. Mas existem inúmeros tipos de remédios, além do problema não incomum de um diagnóstico incorreto. Simplesmente abandonar o tratamento pode excluir a possibilidade de um tratamento bom e efetivo.

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Noutros casos, a pessoa interrompe a medicação, e sente-se muito bem. No início há uma sensação ótima de cura e superação. Isso a deixa animada. Vê em tudo sinais de como está melhor sem remédios. Está feliz por não ter mais um transtorno afetivo. Mas a cura do transtorno afetivo é diferente de não ter mais uma doença. A cura é sentir-se bem e pleno de suas emoções apesar da doença. E quando se deixa a medicação antes da hora a crise pode surgir de surpresa. Pode levar algumas semanas ou meses. Talvez mais, talvez menos. A pessoa acreditava que não precisaria se preocupar nunca mais com este assunto. Agora já passou da fase inicial de animação ao largar o remédio. E seguiu a vida sem monitorar os sintomas. Não percebeu a crise, não se preveniu, não se preparou. Nessas condições a recaída pode ser mais crítica do que as crises anteriores.

Há pessoas que tomam seu remédio todos os dias. Tomam e esquecem. Há os que tomam e sentem alguns efeitos colaterais, mas ainda assim é melhor sentir os efeitos do que os sintomas do transtorno afetivo. Há aqueles que somente tomam remédio; outros tomam e também fazem terapia. O medicamento não impede todas as crises, mas pode ser necessário para muitos. Em tudo há mais de um lado.

Por fim, algumas pessoas deixam a medicação com orientação profissional. É importante ressaltar o quanto é essencial ter acompanhamento para fazer o desmame da medicação. O que o desmame significa? É a retirada da medicação aos poucos, de forma controlada, para evitar reações adversas e sintomas de abstinência. O psiquiatra também irá acompanhar o progresso do paciente, e ajudará a monitorar os sintomas na fase sem medicamentos. Essa pessoa que deixa o remédio pode encontrar outra forma de tratamento, ou continuar com as medidas terapêuticas que realizava em conjunto com a medicação. Pode ser terapia, pode ser grupo de apoio. Pode ser qualquer outro tipo de tratamento que a faça sentir-se bem. Não será fácil lidar com as crises e instabilidades, mas é possível encontrar estratégias.

Nenhum dos casos acima é mais fácil do que os outros. Como disse anteriormente, deixar a medicação deve ser uma decisão racional. Mas há muitas maneiras de tratar o transtorno afetivo, e sempre podemos tentar novamente.

 

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Bipolaridade tem cura?

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Imagine que você vai ao médico, pois tem tido alguns sintomas incômodos. Sintomas que causam dor ou desconforto. Sintomas que desconhece ou que não desaparecem. Vem sentindo estes desconfortos há dias ou até semanas. O médico faz algumas perguntas, pede alguns exames e, depois, dá um diagnóstico. Você ouve um nome que nunca antes ouviu. Sua primeira pergunta provavelmente será se há cura para sua doença. E a seguinte será como funciona o tratamento.

Somos seres racionais, afinal de contas. Queremos a solução para os nossos problemas. Com o transtorno bipolar não é diferente. Queremos saber se há cura, e qual o melhor tratamento. Pesquisamos os medicamentos. Lemos na bula os efeitos colaterais. Buscamos terapia. Queremos saber se podemos regular o humor somente com terapia, sem a necessidade de remédios. Pesquisamos as diversas linhas da Psicologia. Alguns optam por terapia, outros preferem os medicamentos, muitos escolhem ambos. Há aqueles que começam o tratamento e logo param; outros continuam. Mas uma pergunta permanece: bipolaridade tem cura?

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O que seria a cura? Imagine agora que você tem uma doença como sinusite. Então você toma os remédios e fica sem sintomas durante meses. Um dia, a sinusite volta. Podemos dizer que nesse intervalo entre as duas aparições da doença você estava curado? Imagine então que sua doença é crônica, mas você toma a medicação diariamente e há anos não sente um sintoma sequer. Isso não seria uma forma de cura? Muitas vezes a cura não é deixar de ter a doença, mas sim impedir que a doença nos faça mal. Acredito que com o transtorno bipolar o mais importante é como ele nos faz sentir.

Para mim, há cura sim. Quando nos sentimos bem há cura. Quando suas emoções voltam para o seu domínio ou quando são determinadas a partir de causa e consequência há cura. Choro porque algo ruim aconteceu; me animo porque algo bom aconteceu. Nossas emoções sempre irão variar. Mas há cura quando isso não ocorre de forma descontrolada. Você, independente de tomar ou não remédios, está curado quando recupera sua vida.