Setembro amarelo

setembro amarelo
Imagem oficial da Campanha Setembro Amarelo 2018

 

Preciso de um pouco do seu tempo. Menos de um minutinho. Na verdade, deixe este texto de lado e olhe para seu relógio por 40 segundos. Já voltou? Foi bem rápido! Bom, assustadoramente esse curto deslocamento do ponteiro dos segundos, esse tempo de um piscar de olhos, é o tempo que passa entre um suicídio e outro no mundo. Agora esses 40 segundos parecem bem mais rápidos, não é mesmo? E é por isso campanhas como o Setembro Amarelo são tão essenciais e urgentes.

A Campanha Setembro Amarelo foi criada em 2015 numa ação conjunta do CVV (Centro de Valorização da Vida), do CFM (Conselho Federal de Medicina) e da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). O objetivo é conscientizar a população sobre a importância da prevenção do suicídio.

Mas por que é necessário um mês inteiro para essa conscientização? Por que já não se tornou algo sobre o qual podemos falar constantemente? Porque, infelizmente, este tema é um enorme tabu. Além das questões religiosas e o pecado associado ao suicídio, existe a questão da mídia. Sabemos que quando casos de suicídio, especialmente de celebridades, são amplamente noticiados o número de ocorrências aumenta entre a população. Dessa forma, os meios de comunicação se dividem entre os que se calam totalmente e os sensacionalistas, que, na busca desesperada por notoriedade e um punhado de dinheiro, fazem coberturas detalhadas de cada caso, mais parecidas com cenas de séries policiais, ou melhor (pior), de filmes de terror.

Nas ruas e nos lares também existe uma dicotomia: há o desconforto que o assunto suicídio desperta e há a vontade de ajudar as pessoas próximas e queridas a superar um enorme sofrimento. Famílias permanecem em silêncio enquanto outras não sabem o que dizer. Por isso campanhas assim são tão necessárias. Pois mostram um caminho, estendem a mão, indicam a necessidade de buscar ajuda profissional.

A cada 40 segundos uma pessoa perde uma batalha. Muitas outras continuam lutando em silêncio. Diversas quase perdem a cada segundo. É uma guerra, e incontáveis indivíduos enfrentam o inimigo sozinhos, sem contar com aliados, com apoio, com um exército ao seu lado. Por isso campanhas assim são tão urgentes. Pois mostram que é possível ter ajuda, que é possível vencer.

 

 

Leia também:

Suicídio: sinais de alerta

 

*** Setembro Amarelo é o mês de conscientização para a prevenção de suicídio. Busque ajuda. Ligue 188 e entre em contato com o CVV. Falar é a melhor solução.

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A cidade

cidade bipolar

 

Estou sozinha no meio da estrada. Sentada. Sob a opressão da noite, avalio minhas opções desfavoráveis. Estou cansada e não aguento ficar em pé, mas o frio e a fome me obrigam a seguir em frente. Caminho em passos curtos. Encontro a cidade com os raios do amanhecer.

À primeira vista mal a reconheço. Meu primeiro impulso é sempre comparar as ruas gastas pelos meus sapatos com as lembranças de infância. Meus olhos buscam o exato local onde caí e ralei os joelhos. A lembrança das lágrimas é mais real que o sofrimento em si. Mas aquela já não é mais a mesma cidade.

Andando pela avenida principal posso ver passado, presente e futuro. Não poderia acreditar em quantos novos e altos prédios se erguem em sua arquitetura moderna se não tivessem sido construídos com minhas próprias mãos. Assim como as lojas e restaurantes, e até mesmo os reparos em telhados e pinturas em paredes antes descascadas. Fico feliz em ver as flores nos canteiros e jardins que contruí na última passagem.

Nem sempre é fácil. Tenho que lembrar de recolher o lixo. Reciclar o que for possível. Tenho que entrar em locais que gostaria de evitar. Mas é preciso iluminar as vielas esquecidas. É preciso ter para onde voltar após uma longa viagem.

Entro na velha biblioteca. Não posso mais adiar a tarefa de tirar o pó dos livros. Reorganizo as obras em setores que hoje fazem mais sentido. Deixo o exemplar que trouxe comigo, e pego um clássico para reler. Sento num lugar confortável no charmoso café, com uma xícara quente como companhia. Já havia esquecido como poderia ser bom retornar, e recordo justo quando já é hora de partir. A visita foi rápida; agora devo voltar para o mundo, para o mundo fora de mim.

Importância e banalização das palavras

palavra bipolar

 

Palavras. Esses fabulosos conjuntos de sons e letras, que nos permitem comunicar ideias, pensamentos, emoções. Facilitam nosso dia a dia, dão nome a objetos, transmitem conhecimentos e instruções sobre tudo aquilo que precisamos fazer. Mais que isso, são as ferramentas de trabalho de escritores e poetas, com as quais produzem o belo e o eterno, arte para o deleite e para o intelecto.

As palavras que usamos mostram os valores de uma cultura, mas também os forjam e modificam. Basta ver como certas palavras, em decorrência de como eram bem-vistas em entrevistas de emprego e nos corredores das grandes empresas, se tornaram características desejadas e buscadas por jovens ambiciosos. Inovação, determinação, resiliência, proatividade e criatividade são exemplos desse vocabulário disseminado pelos meios corporativos.

A linguagem influencia nossa percepção. E, quando repetimos algo diversas vezes, aquilo de certa forma se torna verdadeiro dentro do imaginário coletivo. Ao lidar com transtornos mentais, portanto, a relevância das palavras, dos discursos e do lugar de fala se torna ainda mais aparente. Não é raro ver alguém afirmando que depressão é frescura. Não é raro ver alguém repetindo que depressão é frescura. E, por mais improvável que pareça, também não é raro ver alguém que tem depressão questionando se não é mesmo frescura. Palavras mudam nossas percepções, e podem tornar muitas batalhas mais árduas.

Quando uma pessoa, que acordou num dia ruim, diz “hoje acordei com depressão”, não está usando uma frase inofensiva. É uma sentença que diz que depressão não é uma doença grave, mas algo banal, algo simples de ser superado de um dia para outro, algo que se pega e se larga com facilidade, “basta querer”. Aquele que realmente sofre com a doença é questionado. Duvidam dele, se afastam, não dão o apoio necessário. Ignoram os sinais de aviso, os sinais de que não suporta mais o sofrimento, não percebem seus pensamentos até ser tarde de mais. Palavras mal utilizadas, apropriadas, podem ser destrutivas.

E que fique claro: depressão não é tristeza, bipolar não é adjetivo. Seu celular não é bipolar por funcionar bem numa hora e depois travar. Seu carro não é bipolar. Nem mesmo é bipolar quem apenas experiencia diferentes emoções. Bipolar não é sinônimo de instável, louco, ambíguo. Bipolar é apenas algo que tem dois polos distintos ou a pessoa portadora de bipolaridade.

Claro que devemos entender que a língua é fluida; ela muda e se adapta aos nossos usos. As palavras estão relacionadas aos seus significados aparentes e ocultos, às nuances presentes na consciência e no inconsciente. E também aos tons que damos a elas. Fazem parte de todo um conjunto, de um discurso e troca de percepções e entendimentos. Se uma moça olha para outra e diz “miga, sua louca, não acredito que você esqueceu que era hoje!”, o significado de “louca”, o código dessa fala, é conhecido pelas duas partes. A moça não quis dizer que a amiga tem uma doença mental, e a amiga entende que aquele “louca” tem sentido não literal. Esse “louca” não tem a função de menosprezar ou desmoralizar a amiga. Mas se a moça, ao passar em frente a um hospital psiquiátrico, dissesse “ai amiga, ali só tem gente louca”, o significado seria totalmente diferente. Não se trataria de uma brincadeira, de um momento de cumplicidade entre amigas, mas sim de uma fala que carrega um preconceito.

A figura do louco está repleta de sentidos negativos. O louco é o estereótipo daquele que perdeu todo o contato com a realidade. É o perigoso, o lunático, aquele que deve ser evitado e trancafiado. Mas quem se permite olhar além do preconceito e daquilo que já está arraigado em nossas mentes percebe que a realidade é bem diferente. Quando associamos o doente mental a essa figura do louco deixamos de ver seus momentos de lucidez e privamos de todos a possibilidade de interação social. O doente mental não vive 24 horas em delírios, mas o preconceito e a psicofobia, contidos nas palavras mal empregadas, impede que as pessoas compreendam como os transtornos mentais são de fato.

As palavras importam e transformam nosso contato com o mundo. Não foi por acaso que o transtorno bipolar, antiga doença maníaco-depressiva, teve seu nome mudado. Maníaco referia-se ao polo da mania, assim como depressiva relacionava-se à depressão. Mas a palavra maníaco também diz respeito àqueles que são excêntricos, extravagantes. E foi ganhando conotações negativas, sendo associada a assassinos e estupradores. Basta lembrarmos como ficaram conhecidos alguns serial killers brasileiros, como o Maníaco do Parque, o Maníaco do Trianon, o Maníaco de Contagem, o Maníaco da Lanterna. Até hoje ainda há uma relação aceita como verdadeira entre transtornos mentais e crimes brutais, mesmo com diversos estudos científicos desmentindo essa conexão.

Palavras. Conjuntos de sons, letras e significados. Palavras que podem ocultar ou dar visibilidade. Podem criar ou desfazer preconceitos. Por isso que é tão importante que as pessoas compreendam as consequências da banalização dos termos ligados a transtornos mentais. E, mais que isso, por isso é tão importante que portadores de transtornos mentais tenham cada vez mais lugares de fala. Pois palavras mudam nossas percepções, e podem tornar batalhas menos árduas.

 

palavra bipolaridade

* Imagens via Visual Hunt

O girassol

perfil

 

Entrei no mercado e vi ali, logo na entrada, uma mulher analisando uma ilha cheia de flores coloridas em vasos parecidos. Um girassol atraiu o meu olhar. Era tão lindo, tão lindo, que o peguei e carreguei na mão mesmo, como um presente precioso, por todo o percurso entre corredores e prateleiras para fazer as compras necessárias. Era tão lindo, tão lindo, que na hora já tive a ideia de tirar com ele uma foto de perfil para o blog (esta mesma acima, que ilustra a postagem).

Logo no início de nossa convivência (minha com a flor), surgiu uma reflexão. Pois o girassol demanda cuidados diários. Gosta de sol e solo úmido. É preciso olhar, tocar a terra, regar todo dia um pouquinho. Bem diferente da experiência de quem sempre apreciou os cactos.

Mas é uma lição valiosa para quem possui um transtorno mental. Nossos cuidados (com nós mesmos – autocuidado) devem ser com essa mesma frequência e atenção de quem cuida de uma vida bela e delicada. Temos que ir avaliando nossas necessidades de água e sol, de nutrientes e de afetos.

 

girassol blog bipolar e afins

E as tais medicações

remedio bipolaridade

 

Quando falamos sobre transtornos mentais logo surgem as perguntas relacionadas ao tratamento medicamentoso. Qual o melhor remédio? Precisa tomar remédio para sempre? O medicamento x é bom? O remédio y engorda?

Aqui no Blog Bipolar e Afins eu falo pouco sobre medicamentos. E a razão para isso é bem simples: em cada caso um tratamento funciona melhor. Cada pessoa portadora de transtorno mental é unica, assim como seu conjunto de sintomas é particular. Dessa forma, a medicação que funciona para um indivíduo pode não funcionar para outro.

Para exemplificar quão grandes podem ser essas diferenças entre portadores usarei a bipolaridade. Para começar, o transtorno bipolar não é uma única doença; ele é dividido em tipos. A saber, temos o tipo 1, no qual as oscilações de humor vão desde o polo mais elevado (mania) ao mais inferior (depressão grave). No tipo 2 o paciente pode ir da depressão grave à hipomania (uma forma mais branda da mania). Há também a ciclotimia, na qual as oscilações de humor variam de maneira mais rápida, porém menos intensas (da hipomania à depressão leve ou moderada).

A própria duração do ciclo ou ciclagem (durante quanto tempo a pessoa permanece em cada polo ou humor) varia entre os pacientes. Assim também variam outros fatores, como a predominância de um polo, ou seja, se a pessoa tem mais crises de mania (ou hipomania) ou de depressão [é válido lembrar que basta um único episódio de mania completa para ser diagnosticado como tipo 1]. Temos também que alguns bipolares podem ter sintomas psicóticos durante as crises (delírios e alucinações), e outros não. Alguns bipolares podem ter outros transtornos associados à bipolaridade (como transtorno de ansiedade generalizada ou transtorno de personalidade limítrofe), e outros não.

Outras variáveis que influenciam o tratamento dizem respeito à fisiologia do portador: como seu corpo absorve as substâncias e como responde a elas; se possui alguma doença física e se faz uso de outros medicamentos. E, por fim, se o paciente apenas faz tratamento medicamentoso ou se o associa com outros, como psicoterapia e busca por qualidade de vida (já falei sobre isso aqui neste texto).

Falei tudo isso somente para demonstrar por que não seria produtivo eu trazer recomendações de remédios específicos. Mesmo em meu livro sobre bipolaridade, contei minha experiência com medicações não para indicar este ou aquele psicotrópico, mas sim para mostrar que é possível encontrar um tratamento eficaz. E que, quando um remédio não nos faz bem, podemos sempre buscar outras soluções, que sejam melhores para nós.

Ainda que não seja válido indicar medicações, alguns alertas cabem aqui. Primeiro, os medicamentos utilizados para o tratamento de transtornos mentais devem ser receitados somente por psiquiatras. E temos que hoje o número de médicos de outras especialidades que os receitam supera o número de psiquiatras. Vemos ginecologistas e cardiologistas indicando o uso dessas medicações sem fazer o acompanhamento necessário. A utilização destes remédios sempre deve ser acompanhada por um profissional que recomendará o psicotrópico adequado e em quais dosagens. Nunca deve-se abandonar o tratamento sem o aval do médico. Parar de tomar essas medicações de forma abrupta pode causar diversos problemas ao organismo, e isso é extremamente perigoso.

Da mesma forma, deve-se respeitar a dose recomendada e usos próprios de cada medicamento. Um exemplo importante é referente aos benzodiazepínicos (psicotrópicos ansiolíticos e hipnóticos usados no tratamento de insônia, ansiedade, ataques epilépticos, dentre outros usos). Nessa classe de medicamentos encontram-se remédios como o clonazepam (comercializado sob o nome de Rivotril) e diazepam (Valium). Esses medicamentos são indicados para momentos pontuais de crise aguda. Ou seja, não são indicados para o uso contínuo. Vejo, entretanto, o contrário. Muitos portadores de transtornos usam Rivotril e outros de forma contínua e exagerada. É necessário alertar que esses medicamentos causam dependência, no sentido de que a pessoa precisa de doses cada vez maiores para conseguir o mesmo efeito quando são tomados com frequência. O perigo é que a superdosagem deles pode resultar em danos ao cérebro, perda da capacidade de cognição, desenvolvimento de demência, coma e até a morte. Mas são raros os profissionais que orientam de forma adequada. Na verdade, muitos incentivam o uso irresponsável dessas substâncias.

Além disso, não é raro ver médicos indicando tratamentos complementares que não possuem qualquer comprovação científica. Talvez, em algum dia no futuro, estudos mostrem a eficácia de métodos como a homeopatia. Mas hoje a ciência acredita que, nas ocasiões em que aparentam proporcionar melhora ao paciente, trata-se de efeito placebo. O problema de ter psiquiatras receitando esses tratamentos é isso lhes dá validade médica, e alguns pacientes podem optar por fazer somente o tratamento alternativo, o que pode deixá-los num estado vulnerabilidade diante da doença e das crises. No meu livro conto tanto minhas experiências com um psiquiatra que me recomendou o uso diário de Rivotril quanto de outro que indicava homeopatia. Isso realmente acontece, e pode ser muito prejudicial.

Vivemos num mundo agitado e cheio de pressões, o que nos faz sofrer cada vez mais com transtornos mentais. E que também nos faz buscar soluções fáceis, práticas, imediatas – como tomar um comprimido. Basta engolir e nem pensar. Isso nos protege de questionar, de olhar direto para os nossos sofrimentos. Nós remoemos nossas angústias, mas nunca as analisamos. Não paramos para nos perguntar “por que tenho este sofrimento?” ou “o que posso fazer para compreender e mudar minha forma de lidar com estes sintomas?”. A verdade cruel é que custa muito esforço ter um transtorno mental e um movimento simples como levar uma pílula à boca pode ajudar, mas não é uma cura mágica. Os remédios previnem crises, mas não evitam todas elas. Equilibram a química cerebral, mas não impedem que coisas deem errado, nem que sonhos não se realizem, ou que gatilhos não nos atinjam. No fim do dia, é do nosso bem-estar que estamos falando. E é nossa responsabilidade buscar a estabilidade e utilizar as medicações que temos à nossa disposição da melhor forma possível.