Fragmentos #8

carta-de-amor

 

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Todas as cartas de amor são ridículas. E algumas são acompanhadas de certo mistério. Como aquela que eu e minhas amigas encontramos, rasgada em pedacinhos no chão de um estacionamento, há — nossa! — mais de 15 anos. Havia esse estacionamento ao lado do colégio, e nem preciso dizer que era nosso ponto de encontro antes e após as aulas. Tentaram nos proibir, certamente, pois o estacionamento pertencia a uma igreja evangélica cuja existência nem conhecíamos, bem ali do outro lado do estacionamento, e éramos jovens, com cigarro e latinha de cerveja nas tardes de verão de fim de ano, quando ficávamos na escola até mais tarde para aulas complementares e/ou recuperação. Não gostavam de nossa presença, de nossas conversas e nossas risadas mais na calçada do que no estacionamento propriamente dito. Um pé aqui e outro acolá. Ainda éramos como invasoras, criminosas, reclamaram com a escola, até contaram fake news. Parecia algo pessoal. Será que era porque uma das meninas tinha piercing na língua? Seria por causa de outra que às vezes pintava as unhas de preto? Devia ser, pois não víamos mais ninguém ali no nosso cantinho. Acho que cada turma de amigos estabelecia sua própria base, seu próprio local de encontro. Mas mais alguém esteve no nosso. Pois certa vez encontramos uns pedacinhos de papel. A letra grande e redonda. A nossa curiosidade maior. Era uma carta — uma carta de amor, logo percebemos. Juntamos todos os pedacinhos. O sinal alto indicou a hora de entrar nas salas. As amigas se reuniram ao meu redor, os papéis espalhados na minha mesa. Alguém surgiu com uma fita adesiva transparente. Eu era boa com quebra-cabeças. Faltavam alguns pedaços, mas a reconstrução ficou ótima. Como arqueólogas, desvendamos parte daquela história.  O conteúdo da carta, que já não recordo, uma declaração de amor. Não, não de amor. De paixão adolescente. Resquícios de outras vidas ali tão perto, e ao mesmo tempo tão distantes quanto o Antigo Egito, Creta ou a Civilização Maia. Levantamos muitas hipóteses no intervalo daquele dia, sentadas em círculo, com lanches e refrigerantes. Nunca descobrimos nem remetente nem destinatário. Muito menos o porquê de rasgarem a carta. Observamos atentamente cada aluno do colégio, mas nunca havia uma combinação perfeita de nome e interesse amoroso. Na época não cogitamos, mas a carta de amor podia ter saído das mãos de uma moça da igreja. Rasgada como sinal de uma paixão proibida. E resgatada justamente pelas inimigas, as meninas do colégio, as garotas rebeldes. Que tiveram mais carinho e cuidado do que aquele para quem prometeu seu coração.

 

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4 comentários em “Fragmentos #8”

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