Meu (nosso) transtorno bipolar

criança

 

Eu tenho Transtorno Bipolar há pelo menos 21 anos. Disse “pelo menos” porque aos 9 anos comecei a notar os sintomas. E nessas duas décadas eu aprendi muito sobre como é para mim ser bipolar, mas também como a bipolaridade é vista (embora não notada) pela sociedade.

Desde o início percebi que às vezes me sentia triste e desanimada sem motivo algum. Noutros dias já acordava muito animada. Parecia natural as pessoas mudarem de humor, especialmente quando acontecimentos bons e ruins surgiam em suas vidas. Mas não fazia sentido meu humor mudar tanto, tão rápido, de forma tão intensa e sem nada externo que justificasse. Não fazia sentido eu chorar até soluçar num dia porque não queria comprar pão na padaria perto de casa e poucos dias depois achar tão divertido ir ao mesmo lugar. E fazia menos sentido isso se repetir mais de uma vez a cada mês. Também não era coerente passar tardes inteiras felizes mergulhada nos livros e tarefas escolares e depois deixar de fazer algum trabalho importante, mesmo correndo o risco de reprovar a matéria, simplesmente porque não conseguia estudar. Algo não fazia sentido. E, embora não soubesse ainda qual era o problema, era claro para mim que eu não era como as outras pessoas.

Mas aquilo que me parecia óbvio nunca foi notado por outras pessoas. Isso não aconteceu por causa do meu esforço em disfarçar minhas diferenças e oscilações de humor. Não, afinal eu era criança – e quão boa pode ser uma criança em esconder mudanças tão bruscas? A questão aqui, o porquê de todos os adultos à minha volta não notarem os sintomas da minha bipolaridade foi a falta de conhecimento sobre transtornos mentais. Ninguém pensa que uma criança, adolescente ou adulto em sofrimento pode ter um transtorno porque essa possibilidade não entra na lista de problemas cotidianos. O transtorno mental é a exceção, é o “cruz-credo-bate-na-madeira” das doenças. É o “isso-é-coisa-de-louco”, é o “não-diz-isso-você-é-normal”. E toda vez que afastamos algo por medo deixamos de compreender, de aprender, de desmistificar. E se não compreendemos, não temos como identificar.

Mesmo na vida adulta, mesmo cursando Psicologia, ainda havia falta de conhecimento. Eu sempre fui magra. Mas perdi alguns quilos no terceiro ano de faculdade. Eu estava em depressão. Isso para mim era claro como uma manhã de verão. Nas minhas crises perco o apetite. Algumas pessoas comem mais, eu perco a vontade de comer, e emagreço. Mas também fico sem energia, sem vontade de interagir socialmente, sem vontade de fazer coisas novas e interessantes, sem vontade de fazer as coisas conhecidas e prazerosas. Eu com certeza estava em depressão. E não agia da mesma forma que nos dois anos anteriores da faculdade. Eu não chegava animada e comunicativa, eu não saía mais após as aulas para uma cerveja, eu não me aproximava mais das rodinhas de conversas filosóficas ou engraçadas. E então começaram a notar uma mudança em mim. Mas não no meu comportamento. Repararam somente nos 5 quilos a menos.

O meu transtorno bipolar não é só meu. O meu transtorno bipolar é nosso. É de toda a sociedade. Precisamos abrir a mente, os olhos e ouvidos. Precisamos perceber que os transtornos mentais existem, que afetam muitas pessoas, que podem estar ao nosso lado nesse exato instante, nas salas de aula, no trabalho, na fila do caixa do supermercado. E que podemos aprender muito sobre eles, saber identificar seus sinais e sintomas, entender que sofrimento não é loucura. Não para classificar as pessoas, ou dar nome às suas doenças. Não apenas para saber se seu amigo tem ansiedade ou depressão ou as duas juntas. E sim porque trazer os transtornos mentais para nossas conversas e tirar todo o estigma que os cerca pode salvar vidas.

 

 

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20 comentários em “Meu (nosso) transtorno bipolar”

    1. Não, Cris, ninguém percebeu. Nem durante a infância nem na adolescência. Eu mesma marquei consulta com o psiquiatra. O que facilitou foi que muito nova me interessei pela mente humana e entrei na faculdade de Psicologia com 17 anos apenas. Então eu já sabia que era bipolar, embora as pessoas ao meu redor não conhecessem a doença

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      1. Fico imaginando, se muito desses transtornos têm carga genética, a família deveria ficar mais atenta às crianças. Mas hoje é tanta correria que não sei se estão olhando um para os outros. Vejo muito diagnóstico de déficit de atenção, quase não se fala da depressão e bipolaridade nas crianças. Se há preconceito sobre nós adultos, imagina para as crianças…

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      2. Há uma questão genética, mas como essa questão será relevante para os filhos se em muitos casos os pais não conhecem a própria doença, não procuram ajuda e não possuem um diagnóstico? Falta falar mais sobre doença mental, para pais, professores, pediatras e todos os adultos entenderem essas doenças. Para todos nós sabemos como funciona, como identificar. Para sabermos que não tem problema ir ao psicólogo, não é fraqueza buscar ajuda. Para que crianças, adolescentes e adultos possam ter apoio

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  1. O que acontece em geral é isto: transtornos mentais são vistos como “frescura” ou são romantizados.
    No seu caso pelo que percebi, você conseguiu se ajudar por se interessar pelo estudo da mente, certo? Me aconteceu a mesma coisa quando tive depressão há dois anos atrás, eu mesma procurei um psicólogo.
    Mas enfim, também vejo pouca discussão sobre bipolaridade, ao passo que depressão e ansiedade ganham um pequeno espacinho de discussão, ainda temos muito a atentar-se e cuidar.
    Ótimo post como sempre, Bia. ♡

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    1. Obrigada ❤
      É exatamente isso, Maby! Temos um pequeno espacinho, especialmente agora no mês de setembro por causa do setembro amarelo. Mas e o resto do ano? Mais que isso, faltam discussões profundas sobre esses temas! Vivemos numa sociedade caótica! Todo mundo sofre com isso. As pessoas com transtornos sofrem muito. Mas a gente continua focando nos 10 passos para alavancar suas vendas e nos 12 truques para tirar fotos perfeitas para o Instagram. Quando o foco será saúde mental?

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    1. Ah José, não foi fácil, mas eu tinha um sentimento de não ser um problema para os outros. Depois, com 20 anos, as crises estavam muito intensas, e procurei um psiquiatra. Chega uma hora em que precisamos de apoio. Na verdade, heroico é não ter receio de admitir seus sofrimentos. A gente sofre muito em silêncio sem necessidade, por medo, por orgulho. Precisamos falar cada vez mais.

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  2. Muito bom seu texto. Eu procurei terapia por conta também, e cedo também. Com 17 anos. Mas admito que fui mais porque me sentia perdido em relação a faculdade e por causa da minha timidez.
    Depois que entrei em depressão e mais depois ainda que descobri que tinha ciclotimia.
    Enfim, é muito complicado a falta de informação sobre transtornos mentais.

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      1. Sim. E você comentou do diagnóstico, me lembra que eu demorei a ser diagnostica com ciclotimia. Comecei a ir no psiquiatra, com depressao, em 2007. E fui diagnosticada com ciclotimia em 2014.
        Então realmente, demora um pouco até receber o diagnóstico e achar o melhor tratamento.

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  3. Vc percebeu a bipolaridade presente aos 9 anos qdo vc olhou para trás, certo?
    Eu não sei, não tenho formação para isso, mas penso que perceber alguns transtornos na infância seja muito difícil.
    Até mesmo a hiperatividade infantil levanta dúvidas.

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    1. Com 9 anos eu tentei suicídio porque eu sentia uma angústia que não ia embora e eu sabia que não era como as outras pessoas se sentiam ou achavam que eu deveria me sentir. A angústia era um sintoma, assim como outros sintomas que eu já percebia. Claro que eu não sabia o diagnóstico, mas sabia que tinha algo. Com 11 anos comecei a anotar meus sonhos e desabafos num tipo de diário. Então tenho tudo registrado. Na adolescência eu já lia livros de psicologia e percebi que poderia ser bipolar. Com 17 anos entrei na faculdade e tive certeza. Com 20 e poucos recebi o diagnóstico. Foi uma longa jornada. Mas veja só: eu tinha sintomas desde a infância. Pode ser mais difícil notar na infância (confunde-se com birra, etc.), e também o número de pessoas cujos sintomas começam na infância é muito menor. Mas sabe-se que os transtornos podem começar sim na infância

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      1. Que começam na infância não tenho dúvida, mas perceber exatamente se é um transtorno, e ainda mais, qual o transtorno é muito difícil, pelo menos para quem convive.
        Não sei se consigo me explicar, mas há transtornos que podem (talvez) derivar de outras situações, por exemplo, em questões de identidade de gênero, orientação sexual, dentro de uma família ou círculo de amigos com uma mentalidade tradicional. E, assim poderia citar outras situações que foram o gatilho para transtornos.
        Então, quando vejo ou leio os casos, pergunto-me será que o transtorno, por exemplo, ansiedade, não estaria “em parte” solucionada, se a motivação anterior desaparecesse com a aceitação no círculo.

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      2. Entendo o que diz. Também questiono isso. Mas são doenças biopsicossociais. Há uma questão física, genética, em relação à química e funcionamento cerebral. Então com certeza o ambiente, especialmente um ambiente familiar de preconceito e falta de aceitação, pode ser gatilho para crises. E ter um entorno mais saudável pode ajudar muito, fazer com que esse tipo de gatilho não exista. Por outro lado, a vida não é perfeita – então sempre haverá algo que pode desencadear uma crise. A questão é que mesmo sem crises a pessoa continua tendo a doença – na verdade, o diagnóstico se baseia muito (ou deveria se basear) no quanto a pessoa se sente mal apesar de não ter gatilhos. Isso que mostra a diferença de alguém passando por um momento estressante e reagindo a ele e uma pessoa com transtorno.

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