A felicidade obrigatória

felicidade obrigatoria bipolar e afins

 

Braços abertos, sorriso no rosto, no meio de um pulo de alegria e, claro, num local paradisíaco. Essa é cara da felicidade. Mas não de qualquer felicidade. É aquela que nos empurram goela abaixo desde os contos de fadas e comerciais de brinquedos até anúncios de passagens aéreas e livros de autoajuda. É aquela felicidade obrigatória que aceitamos em fotos do Instagram e em almoços de família. É aquela felicidade com cheirinho de Natal, música de Carnaval e fogos de Ano Novo – todo dia, o tempo todo. É o almejado “felizes para sempre” sob o pôr-do-sol.

A felicidade se tornou o objetivo supremo da vida. Acreditamos na alegria contagiante. Invejamos a celebridade sempre de bem com vida, cercada de sucesso, beleza e riqueza. Copiamos, tal como crianças, o sorriso daqueles que aparentam ser felizes. Acreditamos ser possível viver o deleite da positividade. E, quando nos deparamos com o impossível, tomamos o fracasso como nosso. Mais que isso, acreditamos que buscar uma felicidade que dure 24 horas é algo bom e benéfico. Mesmo com as evidências bem diante de nossos olhos. Ainda que os números mostrem que quanto mais uma sociedade persegue a felicidade maiores são os índices de depressão.

Negamos que tudo no mundo é cíclico. Fingimos que, neste caso, equilíbrio não conta. Esquecemos que todos os dias o sol nasce e morre no horizonte. Que às vezes faz calor, e às vezes chove. Que inverno nunca impede a volta do verão. Talvez nem seja nossa culpa. Nunca aprendemos que todas as emoções são necessárias. O riso nos faz bem, mas geralmente é o medo que nos protege. A paixão nos encanta, mas a saudade também faz parte do amor. Até a tristeza tem sua função importante na construção do humano. Além disso, não nos ensinaram que as emoções são inevitáveis. Afinal, como não se sentir devastado quando o descaso público queima nossos bens inestimáveis?* Nas tragédias as lágrimas se fazem necessárias.

Se existe uma felicidade duradoura, ela não é esfuziante e magnífica como se prega. Não está relacionada a dentes à mostra, muito menos ao corpo perfeito, à riqueza ou a um passeio no paraíso. Essa felicidade, essa outra felicidade, é mais como uma força interna, que permite que você passe por todos momentos decisivos da vida experimentando alegria ou tristeza, mas sem se desintegrar.

 

* A frase é uma referência ao incêndio do Museu Nacional neste último domingo (02/09), bem como à destruição do prédio histórico e seu acervo com mais de 20 milhões de itens catalogados em 200 anos de história.

 

 

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7 comentários em “A felicidade obrigatória”

  1. É verdade Bia, somos seres num constante ritmo de emoções ora felizes, ora menos felizes… Não temos que encarar isso como algo bom ou mau, somos o que somos, um dia estamos mal no outro estaremos melhor. Creio que, se escolhermos o caminho “mais fácil” que é deixar ir nos dias menos bons, quando estivermos num dia bom já nem o conseguimos ver direito…
    Temos dias maus, sim, mas temos que lutar, porque está em nós e por vezes em pessoas certas à nossa volta a forma de ajudar a lidar com isso.
    Um beijinho.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Exatamente, Irina, não precisamos encarar isso como algo bom ou mau. Nem mesmo esperar que todos os dias sejam felizes e maravilhosos. Muito menos sofrer por não ser tudo perfeito. Podemos apenas viver e valorizar todos os estágios e aprendizados, os dos dias felizes, tristes, cansativos, entediantes, legais, horríveis, maravilhosos…. 🙂 🙂

      Curtido por 3 pessoas

  2. Sinto muito por vivermos nessa realidade inventada, onde já não sentimos as reais emoções. As tristes (choro) precisam ser escondidas e o sorriso deve fazer parte da nossa feição no cotidiano. Isso acaba com nossa saúde mental/emocional, ao ponto de já não sentirmos mais nada.
    Parabéns pelo seu texto, depois que me envolvi demais com redes sociais eu tive esse relapso de que só se possuise tal coisa, tal habilidade eu poderia ser realmente feliz, e isso me fez mergulhar num profundo poço.
    Abraços de luz♥

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada, Karol! Você falou sobre um ponto muito importante: toda essa realidade inventada tem um enorme impacto na nossa saúde mental! Precisamos mesmo rever nosso envolvimento com as redes sociais e com essa ideia de felicidade
      Abraços! 🙂

      Curtido por 1 pessoa

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