Dicas de livros

Quando falamos em doença mental, infelizmente reina a falta de informação. Caminhamos nas sombras, nas quais transtornos se confundem, sintomas parecem nebulosos e não é possível distinguir o indivíduo da doença, a verdade da psicofobia. Para afastar as trevas é necessário trazer o conhecimento. E este repousa dentro dos livros – os objetos quase sagrados. No início o homem dedicou esforços gigantescos no desenvolvimento da escrita e preservação de suas histórias para a posteridade. Tempos atrás, escrever um livro traria imediato respeito; somente os artistas e os intelectuais eram capazes de tal feito. Hoje todos nós podemos escrever (eu mesma já escrevi um livro), digitando letra após letra numa tela brilhante, na qual podemos apagar, corrigir e reescrever incontáveis vezes. Mas aqui trago somente a lista daqueles que considero verdadeiras obras-primas sobre saúde mental.

 

 

solomon

 

O Demônio do Meio-Dia: Uma Anatomia da Depressão

Este livro, finalista do Prêmio Pulitzer de 2002, é um completo manual sobre a depressão. Andrew Solomon aborda a doença sob diversos aspectos: sua experiência pessoal, entrevistas com outros portadores no decorrer de anos, entrevistas com profissionais da área de saúde mental, análise de estudos, contato com a doença à partir da perspectiva de outras culturas. Andrew inclusive testou, nele mesmo, vários tratamentos, e fez uma lista deles. O autor ainda se debruça com dedicação sobre temas pouco discutidos como a incidência da depressão em populações pobres, o que costuma ser ignorado e tratado como mera consequência emocional da situação de pobreza.

Andrew fez perguntas e interpretações precisas sobre o sofrimento alheio, dado que passou pelas mesmas angústias. É tocante o relato acerca de sua própria doença, e do quanto o apoio de seu pai foi vital para sua recuperação. Além disso, a experiência pessoal possibilitou que o autor fizesse reflexões profundas sobre o que é a depressão, como sua célebre afirmação de que o oposto da depressão não é a felicidade, mas sim a vitalidade.

 

“O nascimento e a morte que constituem a depressão ocorrem simultaneamente. Há pouco tempo, voltei a um bosque em que brincara quando criança e vi um carvalho, enobrecido por cem anos, em cuja sombra eu costumava brincar com meu irmão. Em vinte anos, uma enorme trepadeira grudara-se a essa árvore sólida e quase a sufocara. Era difícil dizer onde a terminava e a trepadeira começava. Esta enrola-se tão completamente em torno da estrutura dos galhos da árvore que suas folhas pareciam à distância ser as da árvore. Só bem de perto podia-se ver como haviam sobrado poucos ramos vivos e quão poucos gravetos desesperados brotavam do carvalho. […] Tendo acabado de sair de uma depressão severa, na qual eu dificilmente acolhia os problemas de outras pessoas, me senti cúmplice daquela árvore. Minha depressão havia tomado conta de mim como aquela trepadeira dominara o carvalho.”

 

 

plath

 

A Redoma de Vidro

A Redoma de Vidro é uma mistura perfeita de realidade e ficção. A autora, Sylvia Plath, tinha depressão e se suicidou com apenas 30 anos. Esta sua última obra seria, talvez, um belo exemplo do que conhecemos como autoficção – quando o autor mescla eventos e experiências pessoais com outros, inventados. Mas o sentimento expresso é aquele que tira o sono do escritor, que habita seu ser. Talvez todo livro tenha um pouco de autoficção. Em A Redoma de Vidro, o primeiro pensamento que tive foi que as emoções descritas eram precisas demais para terem sido criadas.

É justamente essa proximidade com a personagem principal, estar dentro de sua mente, que nos permite compreender como pode ser sorrateira a depressão, que vai se aproximando pouco a pouco, se instalando lentamente, sem que a pessoa perceba sua presença até ser expulsa de seu próprio ser.

 

“O silêncio me deprimia. Não era o silêncio do silêncio. Era o meu próprio silêncio. Eu sabia perfeitamente que os carros estavam fazendo barulho, e que as pessoas dentro deles e atrás das janelas iluminadas dos prédios estavam fazendo barulho, e que o rio estava fazendo barulho, mas eu não conseguia ouvir nada. A cidade estava dependurada na minha janela, achatada como um pôster, brilhando e piscando, mas poderia perfeitamente não estar lá, já que não me afetava em nada.”

 

 

arbex

 

Holocausto Brasileiro: Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil

Se eu tivesse que escolher um livro sobre doença mental para que todas as pessoas no mundo pudessem ler certamente seria este. A jornalista Daniela Arbex disseca com sua fantástica pesquisa e exposição os abusos cometidos contra doentes mentais no Estado de Minas Gerais, principalmente no hospício da cidade de Barbacena. Homens, mulheres e crianças foram submetidos a condições de vida desumanas, foram aniquilados e destituídos de autonomia e humanidade, tiveram sua história pessoal apagada, destruída, foram eles mesmos apagados, assassinados.

Contra a barbárie, a autora usa uma linguagem direta e suave, que faz a leitura fluir, de forma que pensamos ser possível ler o livro inteiro de uma só vez, sem intervalos. Mas não é. É preciso parar a cada capítulo para enxugar as lágrimas e refletir sobre as atrocidades cometidas pelos considerados “normais” contra pessoas, pele, carne, osso, seres vivos, pensamentos e emoções.

 

“Quando se viu fora dos muros do hospital, não sabia como sobreviver sem amarras.

“— A que horas as luzes se apagam aqui? — perguntou na primeira noite liberto do cativeiro.

“Retirado do convívio social por quase meio século, ele jamais poderia imaginar que agora era dono do seu tempo e que tinha ele mesmo o poder de clarear ou escurecer o ambiente com um simples toque no interruptor. Além de nunca ter visto um apagador de luz, ser dono de si era uma novidade para quem viveu décadas de institucionalização. […] O hospital estava ali, marcado não só em seu corpo, mas também impregnado em sua alma. Por isso, os pesadelos tornavam seu sono sobressaltado e se repetiam noite após noite. Acordava com o suor umedecendo o pijama e sempre com a mesma sensação de terror.”

 

E quais são suas obras-primas sobre transtornos afetivos? Quais livros clarearam e mudaram sua percepção sobre doença e saúde? Compartilhe sua lista nos comentários!

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12 comentários em “Dicas de livros”

  1. Estou lendo O livro do desassossego de Fernando Pessoa, não é um livro científico como o Demônio do meio-dia, mas, na minha percepção, descreve intensamente a depressão. O livro Mentes Depressivas é digamos café com leite, mais explicativo da visão médica…

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