Além do remédio e da terapia: outras formas de cuidar da saúde mental

bem-estar_ blog bipolar

 

Quando falamos em doença mental, logo pensamos em Psiquiatria e Psicologia. Pensamos em medicamentos e psicoterapia. E estes são, de fato, os principais tratamentos para transtornos de humor e de personalidade. Mas, infelizmente, têm se mostrado insuficientes. Muitos pacientes não respondem à medicação, ou tomam e não apresentam melhora significativa. Além do mais, os medicamentos atuam nos sintomas, não nas causas das doenças, que ainda permanecem desconhecidas em sua totalidade pela ciência. Retirada a medicação, os sintomas retornarão. Temos aqui outra questão preocupante: muitos remédios, como os benzodiazepínicos, causam grande prejuízo aos indivíduos quando tomados de forma abusiva e/ou a longo prazo. Outros possuem graves efeitos colaterais, se apresentam de forma mais pronunciada após anos de ingestão.

Quanto à psicoterapia, podemos encontrar outras problemáticas. O tratamento requer um longo período para começar a aliviar os sintomas. As pessoas desanimam antes mesmo de começarem a fazer progressos. Além disso, é necessário que o esforço venha do indivíduo em tratamento – a disposição para compreender os sintomas, aprender a lidar com eles e, até mesmo, “cutucar” as feridas psíquicas. E um paciente em meio a sofrimentos tão incapacitantes normalmente não conseguem enxergar a possibilidade de melhora num prazo tão distante.

Há também outras questão que dificultam essas formas de tratamento, como preço elevado de remédios e consultas com especialistas, grandes falhas no sistema público de saúde e, muitas vezes, uma formação e atuação deficientes nas duas áreas. Claro que também podemos encontrar o oposto – bons profissionais que indicam e orientam os pacientes em tratamentos que trazem grande melhoria à sua qualidade de vida. Mas, pelo que observo, ainda que em tratamento, as pessoas não estão se sentindo melhores, suas crises não se mostram menos intensas e mais administráveis, o risco de suicídio não está diminuindo, e as pessoas não estão recuperando o controle de suas vidas.

Observo também uma busca e indagação maior acerca de outras formas de tratamento, que podem ser complementares aos medicamentos e psicoterapia. Tais práticas atuam na melhora da saúde mental e podem tanto ajudar a aliviar sintomas quanto prevenir o aparecimento de doenças mentais. Por isso trago hoje uma lista de hábitos saudáveis para uma boa saúde mental.

 

Sono de qualidade

Dormir bem é o principal fator para começar a falar de saúde mental. A falta de boas noites de sono causa irritação, confusão mental e mal-estar, e, em muitos casos, desencadeia crises em portadores de transtorno bipolar, depressão, ansiedade e outras doenças. É também a falta de sono que leva ao abuso de medicamentos, o que pode comprometer a saúde como um todo. Dessa forma, é importante valorizar uma rotina de sono – se possível, sem o uso de remédios – e criar suas próprias estratégias para dormir melhor. Recomendo deixar o celular de lado e ler um livro antes de dormir. Também é válido deixar as preocupações de lado. Se a mente não conseguir parar de remoer tristezas, preocupações e arrependimentos, escreva os principais num papel. É sinal para a mente de que aquilo tudo está agendado para outro momento. Então pense numa cena tranquila, uma paisagem ou imagem que traga relaxamento – e bom sono!

 

Boa alimentação

Estamos cansados de ouvir que uma alimentação ruim, cheia de gorduras e composta de fast food e frituras, faz muito mal ao nosso organismo. Mas já parou para pensar que esse tipo de alimentação nada nutritiva pode fazer mal à sua mente também? E se eu disser que uma alimentação equilibrada pode fazer o oposto e promover bem-estar físico e mental? Há algum tempo compartilhei aqui no blog minha experiência com a ingestão de açaí para melhorar os sintomas do transtorno bipolar – Eu testei: açaí para bipolaridade e Eu testei: açaí para bipolaridade (parte 2). Mas muitos outros alimentos podem melhorar o nosso humor, como os ricos em triptofano (leite e derivados, banana, abacate, ovos e outros), os com poder anti-inflamatório (os ricos em ômega 3, frutas cítricas, alho, gengibre e outros) e os probióticos. De qualquer forma, vale lembrar que o que faz bem ao nosso corpo pode fazer bem à nossa mente.

 

Exercícios físicos

Praticar atividades físicas e esportes é uma maneira eficaz de cuidar da saúde mental. Dentre os benefícios estão: previne a demência, melhora o humor, diminui o risco de acidente vascular cerebral e promove mais energia e motivação. São várias as modalidades de esportes que podemos praticar – tanto em ambiente fechado, como academias, quanto ao ar livre. É válido encontrar as atividades que combinem com suas preferências e rotinas, para evitar abandonar a prática após pouco tempo.

 

Arteterapia

Temos aqui outra forma de terapia, conduzida por um profissional. Produzir arte é sempre benéfico – seja pintar, escrever, desenhar, produzir artesanatos, tocar instrumentos, atuar, etc. – mas na arteterapia o foco está em tratar as questões psíquicas através da arte. Dessa forma, o ato de interagir com a arte facilita que os conteúdos do inconsciente apareçam e possam ser analisados e compreendidos.

 

Hobbies e aprender algo novo

Ter aquele tempinho de lazer para fazer aquilo que faz bem é essencial. Pode ser desde ler um livro a cuidar de um jardim, passando por todo passatempo que lhe traga satisfação e possibilite ter um tempo para se desconectar dos problemas e recarregar a bateria. O aprendizado e a descoberta de novas atividades é tão saudável quanto praticar um hobby, e pode levar à descoberta de outras atividades estimulantes.

 

Animais de estimação

Ter um pet pode ser como ter um melhor amigo morando na mesma casa. E também nos ajuda a ter uma boa saúde mental. Os animais que nos fazem companhia afastam a solidão, nos dão amor e carinho e criam em nós um senso de responsabilidade – temos ali um ser vivo que precisa que estejamos bem para cuidar dele.

 

Meditação

Muitas pesquisas científicas foram realizadas para comprovar os efeitos da meditação em nossos corpos e mentes. Hoje sabemos que a meditação pode melhorar o sono, diminuir a ansiedade, melhorar o humor e reduzir o estresse. A meditação também atua no cérebro nas áreas ligadas à cognição e memória, retardando o envelhecimento. A prática de meditação, assim como observado em algumas práticas de oração, estimula o hipotálamo, gerando uma sensação de prazer. E aumenta a interconexão entre as áreas cerebrais, o que promove maior equilíbrio emocional.

 

Laços sociais

Nós somos seres sociais. Precisamos estar em contato com o outro. Mas vemos uma mudança significativa em nossa forma de criar laços. Antes vivíamos em pequenas comunidades onde todos se conheciam e apoiavam. Hoje vivemos em metrópoles, megalópoles, imensos centros urbanos nos quais vivemos isolados, cada um em sua própria bolha de espaço pessoal. A tecnologia também trouxe mudanças em nossos relacionamentos – por um lado, encurtou distâncias e aproximou os que estavam longe; por outro, diminuiu o contato físico e colocou as interações no campo do virtual, do impalpável. Talvez tais mudanças estejam contribuindo para o adoecimento e o aumento do sofrimento das pessoas. O que posso afirmar, sem dúvida, é que uma rede de apoio – ter pessoas queridas e presentes que forneçam apoio, carinho e compreensão – é essencial para a recuperação daqueles que possuem um transtorno afetivo e para garantir uma boa saúde mental.

 

Significado e lugar no mundo

Trabalhar é importante. É mais do que poder pagar as contas todo mês. É mais do que ter uma renda que possibilite comprar algo que queira ou pode viajar nas férias. Mais do que ter um salário que permita sair para comemorar com amigos e pagar aquela pizza da sexta ou sábado à noite. Mais do que criar laços com colegas de trabalho. É ter um propósito e ser produtivo. É sentir-se útil na sociedade. Mas nem todos os empregos proporcionam esse significado. Às vezes só enxergamos neles a possibilidade de pagar as contas. Noutras vezes desempenhamos uma função que até nos causa desconforto e mal-estar. Mas sempre há uma forma de nos sentir fazendo o bem através de nosso trabalho, através do nosso esforço. Podemos criar algo que traga melhorias para a sociedade, ou buscar uma forma de ajudar outras pessoas (talvez, quem sabe, escrever sobre saúde mental rs). E podemos fazer trabalho voluntário – o que pode, além de promover uma boa causa e ajudar quem precisa, nos fazer muito bem.

 

Atitude mental

Sim, a vida pode ser terrível, destrutiva, desoladora. Pode dar tudo errado, e você pode se sentir péssimo o tempo todo. Mais que isso, você pode ter uma doença mental que distorce suas emoções, paralisa sua vida, rouba sua alegria e disposição. Mas não será possível enfrentar tudo isso sem desejar de verdade ficar bem. É uma batalha, e só é possível vencê-la usando todas as armas. E isso inclui desenvolver uma atitude mental positiva. É evitar ficar reclamando dos problemas. É começar a dar valor a pequenas coisas que nos fazem bem: um belo dia de sol, um chocolate quente antes de dormir… Não digo que seja fácil. Vou logo avisando, requer esforço diário e gigantesco. Mas é possível. E vai ficando cada vez menos difícil. É começar a correr: no primeiro dia você desaba após poucos metros, totalmente sem fôlego; no segundo, consegue um pouco mais; e depois, com muito treino, é capaz de correr uma maratona.

 

São inúmeros os caminhos para aprender a correr esta maratona. Em meu livro eu cito a importância da fé e da religião para lidar com doença mental, no sentido que promovem uma confiança na recuperação e uma comunidade com as quais as pessoas podem se relacionar e encontrar apoio. Terapias alternativas também estão sendo muito difundidas e, embora não haja comprovação científica de sua eficácia, quando falamos em saúde mental não podemos descartar o valor daquilo que pode trazer conforto e bem-estar. Conforto é uma das palavras-chave do Hygge, conceito trazido da Dinamarca, que fala sobre encontrar prazer e felicidade nas pequenas coisas (algo bem parecido com o que citei acima, mas que vai além e busca ativamente trazer o conforto para nossas vidas). O importante é saber que não precisamos escolher um único caminho, uma única prática, um único tratamento. A maravilha desses hábitos é que podemos incluir quantos quisermos em nossas vidas, que eles podem ser complementares à medicação e psicoterapia, e que quanto mais pontos de apoio tivermos mais rápida e fácil será a recuperação de nossa saúde mental.

 

 

***

Este post é dedicado à minha amiga Cristileine Leão, do blog Depressão com Poesia ❤

 

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27 comentários em “Além do remédio e da terapia: outras formas de cuidar da saúde mental”

  1. Texto de utilidade pública, Bia. As coisas só começaram a melhorar pro meu lado quando passei a me exercitar, me alimentar melhor e meditar. Senti os efeitos positivos disso em tudo na minha vida, mas principalmente no meu sono. Hoje, durmo quando bem entendo e não levo 5 minutos pra pegar no sono. A combinação dessas práticas e a adoção das outras coisas que você cita no texto com os tratamentos médico e psicológico é o que faz a diferença. Mas exige um esforço absurdo, além de quase tudo ter um custo pouco acessível à maioria. Entendo melhor do que nunca o que faz tanta gente desistir pelo meio do caminho.

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    1. Sim, precisamos nos esforçar muito! Mas vale a pena né. Que bom que você já está sentindo os efeitos positivos de mudar os hábitos! Quanto aos custos, vai depender de como administramos nossos gastos, e do nosso acesso a atividades promovidas pelo Estado. Em alguns lugares há uma variedade de palestras, shows, cursos, esportes, etc., de forma gratuita. Sem contar que às vezes gastamos mais no fast food do que fazendo uma refeição saudável, e compramos um monte de doces industrializados ao invés de comer uma fruta. Algumas mudanças simples já podem fazer grande diferença 🙂

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    1. Com qual você não concorda, Miau?
      Os efeitos colaterais da ingestão a longo prazo de alguns psicotrópicos são diversos e variam de acordo com quantidade ingerida, tempo de uso e tipo de medicação. Mas posso citar alguns como problemas renais e no fígado, confusão mental, perda de memória, aumento do risco de demência.

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      1. Não concordo para minha mente, para minha vida, e sobretudo para a minha razão, mas compreendo e RESPEITO que as pessoas vejam na religião e fé (ligada à religião) uma ajuda.
        Às vezes, um placebo opera milagres. O importante é que funcione para aquela pessoa.

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      2. Ah sim, fé e religião são pessoais. Por isso mesmo são tantos os caminhos disponíveis: cada pessoa terá suas preferências, suas crenças, suas escolhas. Além disso, cada hábito e terapia pode funcionar muito bem para alguns, mas não para outros. O importante é respeitar as escolhas de todos e encontrar aquilo que te faz bem! 🙂 ❤

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      3. Sim, isso mesmo, disse tudo. Agora ficou 100%. 😀
        Apesar de me considerar agnóstica, sigo alguns comportamentos que ditam algumas religiões, porque fazem bem apesar de não ter fé nas suas convicções.

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      4. É ótimo reconhecer os bons conselhos e olhar além dos estereótipos! Parabéns por ter um olhar de respeito
        E acho que sempre podemos aprender algo bom. Mesmo sem seguir uma religião podemos aprender com ela. 🙂

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  2. O seu texto aplica-se ao público em geral, aliás, eu mesmo já usei algumas destas técnicas, para viver melhor. Acredito que talvez, o alivio em quem possui distúrbios mentais, e melhor qualidade de vida, tenham mais impacto sobre si mesmos…
    De qualquer forma, muitos que se encontram no famoso buraco da depressão, podem se iluminar com suas palavras, e se sentir melhor, só de pensar nos resultados destas técnicas apresentadas!
    Muito gentil esta sua atitude em informar! Grande abraço.

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  3. Bia, primeiro obrigada por mostrar diversos caminhos dos quais você já passou e estudou. Segundo e terceiro, gosto muito do jeito focado e certeiro que você descreve. Me atingiu em cheio. Alimentação, sono e exercícios fazem toda diferença tanto na vida de quem tem quanto da que não tem transtorno de humor. Só praticando para saber. Agora minha meta é meditar e socializar… tenho falhado nas 2, mas descobri um ponto forte em mim que é a persistência. Nesses dias vi o Café Filósofo com Alfredo Simonetti, cujo tema A invenção dos Remédios, confesso que minha cabeça deu um nó… Hoje sinto que preciso de antidepressivo e terapia, mas não sei se concordo com isso por um longo tempo. Grata por sua existência Bia⚘

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    1. Muito obrigada pelo comentário, Cris! Fico feliz por saber que você gostou 🙂
      E persistência é tudo, né! Especialmente quando se trata de algo tão importante! A vantagem é que não existe um número limitado de tentativas que podemos fazer. Podemos, ao contrário, tentar e tentar e tentar até funcionar rs!!
      Já coloquei aqui esse Café Filosófico para assistir! Obrigada pela dica ❤

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  4. Excelente texto! Posso dizer que, para mim, saúde (física e mental) é um conjunto de fatores. Acredito que, sem terapia, sem buscar um propósito, sem os hobbies e laços sociais, de nada adiantaria tomar uma medicação – como você disse, a medicação pode, muitas vezes, não tratar a causa de nossos transtornos. Precisamos nos ver (e os médicos deveriam nos tratar) em todos esses aspectos – só assim conseguimos alcançar o equilíbrio. É bem nítido o efeito que uma noite mal dormida ou um dia de má alimentação causa no meu corpo e na minha mente, mas eu demorei anos e anos para reconhecer e validar isso, pois achava que era tudo “culpa” do transtorno de ansiedade. Depois que passei a atentar para essas alterações, adquiri maior controle sobre minhas crises. Que a gente possa sempre prestar atenção aos diversos fatores que compõem a nossa saúde 🙂

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    1. Verdade, Mariana!! Somos um ser integrado – mente e corpo estão ligados. Tratar de forma separada só complica nosso entendimento e nos impede de ver como um sintoma ou ação tem influência sobre nós como um todo.
      Obrigada pelo comentário! ❤

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  5. Sou muito fã do seu site. Parabéns por escrever e se expressar tão bem. Não sou bipolar, mas tenho um TOC bem “chatinho “que me incomoda demais. Felizmente existem espaços como o seu pra falar sobre as doenças mentais, tão estigmatizadas.

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    1. Obrigada!! Sim, é importante ter esses espaços e usá-los para falar sobre saúde mental, como nós fazemos, para diminuir o preconceito e ajudar outras pessoas. Independente do transtorno, todos enfrentamos esse mesmo estigma.

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  6. Olha, eu não gosto de me gabar, não — mas essa MINHA AMIGA escritora “manja muito das psicologias”!
    Cara! meus comentários já estão virando repetitivos — falta adjetivos!
    Acho ótimo quem busca meios, além dos psicofármacos, para o tratamento…

    Curtido por 2 pessoas

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