A senhora na Espanha: um texto sobre solidão

solidão_blog bipolar e afins

 

Morreu sozinha em seu apartamento. A boca seca e os olhos sem lágrimas. Caiu de mal súbito ou intencionalmente, jamais saberemos. O tempo, que para ela passava tão lento, em décadas de solidão, parou novamente. Seu corpo magro permaneceu em sua residência por mais quatro anos, sem que ninguém notasse.

Morreu como viveu – sozinha e sem causar incômodos. Viúva e sem filhos, sem parentes nem amigos, pouco pensava na solidão. Estava velha, pensava, fazendo seu crochê, e velhos não precisam de diversão. Não incomodar, por outro lado, era o resquício de seu orgulho. Cozinhava a própria comida, lavava a própria roupa, e nunca pediu ajuda. Triste seria estar prostrada na cama, cercada de rostos preocupados, cansados. Rostos daqueles que não existiam em sua vida. Era por orgulho – e necessidade – que saía uma vez por semana para comprar alimentos. E era com desgosto que andava pelas ruas da vizinhança que outrora fora agradável. Hoje era mesmo preferível ficar em seu apartamento, e mais seguro, concluía a cada passo dado à luz do dia.

Seguiu fazendo seu crochê em sua poltrona preferida, e quase sem ligar a televisão. Pouco importavam as notícias repetidas de todos os dias. Leu e releu seus livros favoritos. E nunca comprou um novo: já sabia quais eram bons, aqueles poucos em sua estante. E rezava sem saber por que, murmurando as orações que aprendeu na juventude. Mas, com frequência, apenas olhava para o vazio, esperando o fim de mais um demorado dia.

Viveu sem chamar atenção. Mas sua morte causou rebuliço. Logo chagaram os policiais. E em seguida chegaram os primeiros jornalistas, buscando preencher páginas dos jornais locais com a história da senhora que ficou morta durante quatro anos em sua residência. A notícia, entretanto, era sobre a solidão de toda a sociedade, não sobre apenas uma idosa de quem ninguém deu falta. E como alguém morre e some durante tanto tempo sem que nenhuma outra pessoa perceba?

Os policiais averiguaram que tanto sua aposentadoria quanto o pagamento das despesas mensais – aluguel, água e luz – caíam e saíam automaticamente de sua conta bancária. Mistério solucionado.

Os jornalistas, um pouco inconformados, ou apenas para alongar o texto, ou ainda porque já estavam ali, foram um pouco mais longe. Entrevistaram o senhorio e os vizinhos, e qualquer um que daquela senhora se lembrasse. Os poucos que sabiam algo tinham pouco a dizer – que quase não saía, que não recebia visitas, que era discreta e reclusa. E a pintaram como mais uma idosa solitária, abandonada, invisível. Nem ao menos disseram que ela se orgulhava em não incomodar.

Uma vizinha afirmou que até pensou que a senhora havia se mudado. Não, na verdade não pensou em nada. Aquela era apenas uma conclusão lógica que surgiu em sua mente naquele instante. Não pensaram em sua ausência maior do que a de costume, não deram falta de seu silêncio habitual, não interromperam suas vidas cheias de problemas para indagar por onde andava a velha senhora. Apenas uma pessoa notou o sumiço: o dono do velho mercadinho local, onde todos, incluindo a senhora, compravam seu alimentos. Mas a vida era assim, ele pensou, alguns clientes somem e novos clientes chegam. Sim, a vida é assim: algumas pessoas morrem e outras não percebem sua falta.

 

Texto inspirado nesta notícia: Quando a solidão mata: o fantasma da mulher que virou múmia

 

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20 comentários em “A senhora na Espanha: um texto sobre solidão”

  1. São tantos casos assim na Europa.
    Normalmente, culpam a família, os vizinhos,… Só q, por vezes, a situação é a referida no comentário anterior. Por vezes, a dificuldade de se desprender dos seus bens para ir para um lar.
    Seja qual for a razão é uma situação muito triste, e não deixamos de sentir cupla, de pensar p onde caminha a nossa sociedade.

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    1. Muito triste mesmo! Mas, por mais que o isolamento não seja em decorrência de somente uma das partes, eu também não gostaria de viver num lar se tivesse condições de continuar em minha própria casa. O que vejo, além disso, é pessoas que não possuem convivência com ninguém. Não se cria elos em nossa sociedade. Familiares não se visitam, amigos não se telefonam (só trocam mensagens), vizinhos não se conhecem, e a sociedade como um todo trata idosos como pessoas que perderam o valor

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      1. Bem, um lar na Europa do Norte tem um conceito bem diferente de Espanha e Poetugal, por exemplo. Há exceções, mas o normal é q criam um ambiente de flat, ou mesmo de pequenas casas.
        Na Bélgica muitos idosos vivem só e vai em casa um serviço de enfermagem ou cuidados. A minha vizinha vivia numa casa de 2 andares e tinha esse serviço, mas chegou uma idade q era perigoso estar sozinha e foi para um lar. Eu não tinha contato contato com ela, mas eu estava atenta a qq anomalia, mas sem dar nas vistas, pq a cultura é diferente. Não há o calor humano.

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      2. Muito interessante essa forma de lar com várias pequenas casas. Acho importante preservar certa autonomia e privacidade. Aqui no Brasil pagasse caro para viver em lares nos quais se tem apenas o quarto, sendo que mesmo o quarto muitas vezes é compartilhado… Mas há esse outro lado, como você disse, da falta de calor humano…

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      3. Por isso acho tão importante cuidar da saúde mental e da saúde física. Para podermos escolher como viver depois. Na cidade onde moro há programas de emprego para idosos, faculdade para terceira idade, atividades físicas, artesanato, palestras, cursos – tudo gratuito para a população, em especial para idosos, pois a expectativa de vida é elevada. E essa é a tendência mundial – que a gente viva cada vez mais

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  2. Gostei muito, Bia, e, sabes, tenho pensado bastante sobre isso que escreveste porque às vezes a vida nos convida para reflexões de uma realidade que não é nossa, mas, quiçá, poderá ser… Esta cena que descreveste é comum hoje em dia e este texto escrito hoje, no dia de combate à violência contra idosos, foi simbólico e importante! Beijos.

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    1. Muito obrigada!! Exatamente o que você disse: uma realidade que não é a nossa hoje, mas poderá ser um dia. Além disso, quantos de nós temos familiares idosos, que precisam de atenção. Ou até mesmo uma vizinha com quem podemos compartilhar um pedaço de bolo, conversar no elevador..

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  3. Levando em conta a vida que ela escolheu, pode-se dizer que até mesmo a forma que morreu estava nos seus planos. Ela era orgulhosa, não queria incomodar ninguém. Não incomodou. Quando perceberam, já não haveria mais necessidade de correria, nem de burocracia, ou alardes.
    Sinceramente, mesmo já estando no além, ganhou um fã.

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  4. O texto ficou incrível, tive que ir até a notícia para saber o que os jornalistas disseram sobre ela.
    Lendo seu texto e lendo a notícia, me veio muito a mente sobre a depressão, pode ser ou pode nao ser, mas comigo ela faz isso sabe, uma pessoa isolada, sem amigos e que sai pouco (por isso estou em tratamento), e ainda pensando sobre isso, fiquei tao triste, não quero acabar assim sabe… Sozinha
    … Ai sei la… To bem pensativa agora.

    Sou nova no wordpress, ainda nao postei nada, mas pretendo expor alguns de meus pensamentos. ❤

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    1. Olá!!! Obrigada pelo seu comentário!
      Sim, pode estar relacionado com depressão. A depressão na terceira idade é extremamente preocupante. Isso porque atinge um número cada vez maior de pessoas, e também porque muitos não procuram ajuda. E isso acontece justamente por viverem isolados, sem trabalho, sem lazer, sem amigos, recebendo poucas ou nenhuma visita de familiares. Mas não precisa ser assim. Tem uma série que eu adoro chamada Grace & Frankie que fala como a velhice pode ser uma ótima fase (ainda vou escrever sobre essa série aqui no blog). Mas por isso devemos começar a nos cuidar o quanto antes. E você começar um blog é uma forma ótima de terapia. Escrever ajuda muito mesmo! Abraços!!

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