Transtorno bipolar: como identificar as crises

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Uma verdade conhecida e aceita pelos portadores de transtorno afetivos é que, por mais que você esteja bem, um dia a crise irá voltar. Sim, é verdade. A doença é feita de ciclos. Períodos de estabilidade se intercalam com períodos de convivência com os sintomas. Mas isso não significa que devamos cruzar os braços e esperar a crise chegar. Não precisamos ser passivos em relação à doença. Podemos, ao contrário, compreendê-la melhor e encontrar formas de aumentar a fase de estabilidade e diminuir a frequência e intensidade das crises. E a primeiro passo para manter a estabilidade é reconhecer os sinais de uma crise que se aproxima.

 

Mas, antes de enumerar os principais sinais, cabe fazer alguns ALERTAS RELEVANTES.

Primeiro, estou falando de transtorno afetivo, de doenças multifatoriais que atingem o indivíduo como um todo (funcionamento físico e mental, influindo em diversos aspectos da vida pessoal e profissional do indivíduo). Doenças mentais não possuem ainda um diagnóstico preciso, mas consideramos que a pessoa possui um transtorno afetivo quando seus sintomas e sofrimentos atrapalham sua vida e, até mesmo, a impedem de viver. Assim, quando alguém diz “hoje estou meio deprê”, esta pessoa definitivamente não está incluída nesta lista. E alguns podem pensar que está na moda usar palavras como “ansiedade”, “depressão” e “bipolar” para tudo e que isso é legal, mas apenas estão sendo ofensivos e mostrando total desconhecimento. Então, aqui irei falar sobre sintomas de crises, e isso é muito mais forte do que acordar um dia se sentindo não muito disposto.

Por outro lado, nem tudo é sintoma num portador de transtorno afetivo. Todas as emoções são experienciadas várias e várias vezes por todas as pessoas durante a vida. Por que com um bipolar seria diferente? Assim é preciso que a pessoa com transtorno e aqueles que convivem com ela parem de ver sintoma em tudo. O bipolar e aqueles que possuem outros transtornos podem ficar tristes se algo ruim acontecer e só porque não estão satisfeitos com a vida, e podem ficar exultantes quando algo bom se concretiza, e, com certeza, podem ficar bravos e irritados com aquilo que os aborrece. Nem tudo é sintoma. Alguns comportamentos são reações diante dos acontecimentos, outros são traços de personalidade.

Mas, no meio disso tudo, como saber quais os sinais de uma crise que se aproxima? Os sinais são o início dos sintomas. Assim, na depressão a pessoa fica desanimada, triste, sem interesse por tudo aquilo que apreciava antes, não vê sentido na vida, se sente sem energia, tem dores de cabeça, se sente fraco. O aparecimento de mais de um desses sintomas, sem estarem relacionados a outra doença, pode indicar o início da depressão. Então não basta acordar desanimado num dia para ser depressão. Mas acordar desanimado e sentir outros sintomas já pode ser considerado um alerta. E, sabendo que uma crise bate à porta, é possível tomar medidas para evitar que ela entre.

O mesmo ocorre com a mania, mas os seus indícios são um humor excessivamente elevado e alegre, excesso de energia, compulsões (alimentar, por compras), fala e pensamento acelerados, comportamento de risco, humor irritado. Tais sintomas, entretanto, podem variar a cada indivíduo. Algumas pessoas, por exemplo, não sentirão compulsão alimentar durante a mania, mas sim deixarão de se alimentar. Alguns ficam irritados, outros ficam extremamente alegres.

Por outro lado, há sinais que aparecem na maioria dos bipolares e começam antes da crise se instalar.

 

Alterações do sono

Este, sem dúvidas, é o primeiro sinal a ser observado. Insônia e ausência da necessidade de sono são indícios da mania, já a dificuldade para dormir e o excesso de sono podem indicar depressão. Além disso, não dormir bem ou não ter o tempo necessário de sono pode ser um gatilho para crises. Então, o sono não apenas indica a chegada de uma crise como pode causá-la.

 

Nível de energia

Na mania a energia é aumentada. Na depressão, ela some. Fique atento se você sentir, sem razões aparentes, que começa a sentir uma mudança acentuada na disposição em relação ao seu nível de energia costumeiro.

 

Velocidade do pensamento

Na depressão há uma queda e lentificação dos pensamentos. Há uma perda de interesse intelectual, a leitura cansa, a criatividade some. Na mania, o oposto. O pensamento é acelerado (o que se torna visível na fala rápida, sem pausas, que interrompe outras, que pula de assunto em assunto, muitas vezes sem concluir um raciocínio).

 

Abandono dos hobbies

Se você tem um hobby, um passatempo que lhe dá prazer e que você adora realizar, e começa a deixá-lo de lado, preste atenção. Este é outro sinal da chegada de uma crise. A depressão nos faz perder o prazer e o interesse nas atividades. A mania traz um aumento tão grande de energia e inflação do ego que costuma-se trocar os passatempos preferidos por outros, mais grandiosos e/ou desafiadores.

 

Vale destacar que essas mudanças devem ser observadas em comparação com o estado de estabilidade do bipolar. E que os sintomas se manisfestam de maneiras próprias em cada indivíduo. A doença possui um conjunto de sintomas, e um portador é uma pessoa que possui a maioria deles, mas a frequência e intensidade com que cada sintoma aparece varia entre os portadores. Acredito até que um sintoma aparecerá mais do que outro num portador de acordo com características de sua personalidade. Não há estudos sobre isso, mas observo que se uma pessoa é mais pessimista este será o principal sintoma de sua depressão. O mesmo pode ocorrer com a agressividade e irritação. Nas minhas fases maníacas, por exemplo, tive dois sintomas muito específicos: hiperestesia e hipergrafia. Hiperestesia ocorre quando os sentidos ficam acentuados. Eu via as cores mais nítidas e vivas, o que combina com o meu gosto por artes. Hipergrafia é compulsão por escrever, sendo que sempre amei escrever. Talvez – e isso é apenas uma teoria que eu tenho, sem comprovação alguma (e posso estar equivocada!) – a doença seja uma ampliação gigantesca de nossas próprias características. E, se for realmente, isso pode explicar por que é tão difícil diferenciar aquilo que é sintoma da doença daquilo que faz parte de nossa personalidade.    

 

 

Este texto é dedicado ao escritor José Waeny, que sugeriu o tema. Espero ter respondido a pergunta 😉

 

Leia mais: Entendendo as oscilações de humor

 

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24 comentários em “Transtorno bipolar: como identificar as crises”

  1. Muito boa sua explicação sobre os sintomas! Estava esperando este texto…
    Sabe, que lendo esta sua explanação sobre tais sintomas, creio que todos nós somos um pouco bipolares; creio que o que caracteriza o mal, é a frequência de polarização extrema, talvez!
    Muito obrigado.

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    1. Obrigada, José! Que bom que você gostou! Ah eu concordo com você: os sintomas bipolares são o extremo do extremo daquilo que todos conhecem. Mas ao invés de isso fazer com que a doença seja mais fácil de compreender, faz justamente o contrário. Como todo mundo sabe o que é alegria, acha a mania é só estar muito alegre, mas é algo bem além, é se colocar em risco, não racionar direito, não dormir durante semanas, etc. O mesmo com a depressão. Como você disse, é a polarização extrema. Por isso ainda é tão importante falar sobre o tema! Obrigada pelo comentário, e se tiver mais sugestões me fala! 🙂 🙂 ❤

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      1. Sou bipolar e tenho passado por surtos de irritabilidade no trabalho, perda de contato com a realidade e cismas de que tudo ocorre de forma orquestrada ao meu redor como um teste para ver como me comporto. Tenho tido dificuldade para dormir tb. Falo muito e meus pensamentos estão acelerados. São mais rápidos do que posso controlar.

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      2. Mônica, o que você descreveu me parece ser uma crise muito forte de mania. É essencial ir ao médico o quanto antes. A dificuldade para dormir pode agravar o quadro e trazer consequências a longo prazo. E você pode acabar colocando suas relações e até mesmo sua vida em risco. Busque ajuda sempre que notar esses sintomas. E conte para seu médico tudo o que sentiu. Desejo de coração que você fique bem!! ❤

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  2. Ótima explicação. Sinto muita coisa assim como você disse, e a importância de destacar como os sintomas variam de pessoa pra pessoa.
    Ah, eu também tenho a mesma percepção que você “a doença seja uma ampliação gigantesca de nossas próprias características”.
    Mais um ótimo texto!

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    1. Obrigada, Tati! Ai amiga, acho que faz sentido mesmo os sintomas serem ampliações das nossas características, pois explica tantas diferenças entre sintomas dos portadores. Há muito ainda a se explorar em transtornos afetivos! Tanta coisa que ainda não sabemos! Mas acho isso fascinante, pois cada descoberta pode ajudar imensamente as pessoas!

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      1. Sim, faz bastante sentido!
        Verdade, tem muitas coisas que não sabemos sobre os transtornos afetivos. Cada descoberta é uma nova porta que se abre 😊

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  3. Ontem, eu li, dei like em mais um texto perfeito e saí correndo p jantar fora pq era o meu aniversário, o dia D, literalmente. 😊
    Eu tenho a sensação q há uma grande possibilidade de erros de diagnósticos, ainda mais se vier numa primeira consulta.
    A chave para um diagnóstico está no q vc disse:” transtorno afetivo quando seus sintomas e sofrimentos atrapalham sua vida e, até mesmo, a impedem de viver.”
    Então, eu sinto que é algo q para definir é preciso ouvir outras pessoas além do paciente. Um processo investigatório.
    É isso.

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    1. Parabéns, Miau!!! Muitas felicidades!
      Sim, há muitos erros. E concordo sobre não se fazer o diagnóstico na primeira consulta. Eu mesma já vi erros deste tipo. E devemos lembrar que os tratamentos dos transtornos são diferentes, ainda que os sintomas possam ser muito parecidos. Por isso é importante esse processo investigatório, Pois ajuda também a negar ou confirmar o diagnóstico. E é importante saber o que se tem. Já ouvi falar de mais de um psiquiatra que não quis dar o diagnóstico a um paciente, sob a justificativa de que o paciente poderia se identificar demais com a doença e o foco deveria ser tratar os sintomas. Vejo isso como sinal de preconceito desses psiquiatras. Um médico jamais diria a um paciente com câncer “olha você não precisa saber o que tem, vamos focar nos sintomas”. Devemos sim ter conhecimento sobre nossa doença. Buscar o entendimento, encontrar estratégias para lidar com as crises, e deixar de lado a passividade de apenas engolir pílulas sem saber o porquê.

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  4. Ótimo texto como sempre Bia, como salientou nos comentários os sintomas são personalizados. Por exemplo, acho que eu escrevo muito, em termos de quantidade e qualidade, quando estou depressiva. Isso porque os “filtros” não são ativados, e o escrever para mim é uma válvula de escape já que não sou muito de falar. Nessas fases acho que é mais dor do que criatividade. Mas, como foi fico com os pensamentos lentos e confusos… Assim vai a carruagem🙋🏽‍♀️

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    1. Obrigada, flor! A depressão tem desvantagens, mas proporciona momentos de introspecção. Acho que esse olhar sobre si e questionamento sobre o mundo leva a ótimos pensamentos e textos. Afinal, nem tudo é alegre né… E é ali nos nossos maiores medos e angústias que estão muitas ferramentas para encontrar nossa essência. Gosto imensamente de Psicologia Analítica. É uma pena que ela seja mal compreendida. Pois traz uma visão muito interessante sobre o ser humano como um todo. Não nega esses pensamentos destrutivos que a depressão traz à tona. Pelo contrário, diz que devemos sim encontrá-los, entendê-los e transformá-los.

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    1. Olá Lu!! Que bom que o blog te ajudou!! 🙂
      Quanto às crises, hoje eu consigo identificar e “reverter” a situação na maioria das vezes. Quando percebo que estou muito desanimada e com pensamentos negativos tento já fazer algo bom, que sei que me faz bem. Quando me vejo muito agitada ou irritada busco logo uma forma de me acalmar. Nem sempre funciona, mas ajuda muito. Acho que autoconhecimento é essencial. ❤

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