Luta antimanicomial

antimanicomial

 

Eu sempre me senti intrigada com o conceito de loucura. O que significa ser louco? Uns podem dizer que louco é aquele que ouve e vê algo que não existe. Mas assim não seríamos todos loucos? Afinal, quem nunca ouviu o próprio celular tocando ou vibrando sendo que estava em silêncio? E aqueles que ouvem o próprio nome ser chamado quando não há ninguém por perto? Vemos imagens e vultos, sentimos cheiros e ouvimos sons que muitas vezes não existem; nossos sentidos nos confundem, mas a maioria das pessoas não é discriminada por conta disso.

E que mais poderia definir a diferença entre loucura e sanidade? Há aqueles que afirmam que loucura é ter uma visão distorcida da realidade. Ah, quantos vejo todos os dias gritando aos 4 ventos suas ideologias sem sentido, suas ideias preconceituosas, suas opiniões enraizadas e violentas, nas ruas, nos espaços da internet. Muitos inclusive ganham dinheiro (muito dinheiro) por causa ou apesar de suas visões distorcidas da realidade (podemos citar aqui a maioria dos políticos).

Onde está então a linha que separa os “normais” dos “doidos”? Mais que isso, o que justifica aprisionar aqueles que enxergam a vida de forma diferente? Os que sonham acordados, os que devaneiam como todos, mas acreditam em seus delírios, os que ouvem a voz da consciência como todos, mas acreditam que ela vem de fora.

Uma lembrança muito vívida que tenho de quando estudei Psicologia é das duas visitas que realizei a um hospital psiquiátrico. Vi dezenas de pacientes saindo das construções rumo ao jardim, para sua hora de sol, vestindo idênticos uniformes que os despersonalizam, exatamente como uma prisão. Totalmente destituídos de sua identidade e individualidade, e também de suas faculdades mentais, não em decorrência da doença, como era de se esperar, mas por conta do excesso de medicação. Completamente dopados, saem andando sem rumo, pronunciam frases desconexas, perdem a capacidade de interagir com outras pessoas. Mas ficam dóceis: incoerentes e calmos. O tratamento é muito mais eficaz para quem trata do que para quem o recebe. Fica claro que a internação e o excesso de medicação não ajudam a reintegrar o paciente ao convívio em sociedade, mas apenas reforçam os aspectos relacionados aos preconceitos diante da doença mental.

Hoje, dia 18 de maio, celebra-se o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, justamente porque pessoas passaram a questionar o que é a loucura, como lidar com os comportamentos que saem do padrão socialmente aceito e como de fato ajudar as pessoas com um sofrimento psíquico. E fica nítido, ao averiguar estes fatores, que a internação no antigo modelo, no hospital psiquiátrico, só estigmatiza e prejudica os indivíduos que necessitam de ajuda.

Deixo abaixo duas reportagens que falam sobre o movimento antimanicomial, a origem da data de hoje e sua importância:

Luta antimanicomial: você sabe o que é?

O que é a Carta de Bauru, marco na luta antimanicomial no Brasil

13 comentários em “Luta antimanicomial”

  1. Olha, eu vi um filme brasileiro q retrata a história de uma pioneira no tratamento dos doentes psiquiátricos, e fala um pouco sobre o q vc escreveu. O filme é muito bom, na minha opinião. A interpretação de Glória Pires está impecável para alguém que não é profissional de saúde. O filme chama-se Nise – no coração da loucura. Penso q não errei o nome.
    E Um Estranho no Ninho? Fantástico!

    Curtido por 1 pessoa

      1. Uau, q intuição telepática.
        Adorei o filme e a história de Nise. Como estou longe, não sei até q ponto foi divulgado o filme no Brasil. Na verdade, penso q ela não era médica, mas sim, terapeuta ocupacional. Um curso pouco valorizado no Brasil.

        Curtido por 1 pessoa

      2. Como eu estudei psicologia, sempre tive contato com a história da Nise, a psicologia analítica e a arteterapia. Mas com certeza poderiam falar mais sobre a história dela, e sobre esse filme, que é fantástico!

        Curtido por 1 pessoa

  2. Bia existe um livro escrito por Dr. Bezerra de Menezes, quando vivo, cujo o nome é A loucura sob um novo prisma. E ele chama à atenção sobre a loucura patológica e a loucura que não é loucura e sim uma obsessão. E precisa-se ter cuidado com os diagnósticos que enquadram o sujeito que se expressam fora de um quadrado pré estabelecido. No meu livre pensar, todos nós temos um nível de loucura e que precisa ser respeitado, caso contrário teremos figuras como essas que nos apresenta em seu relato. bjs

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sim, respeito acima de tudo né! Infelizmente barbaridades já foram cometidas quando falamos de doença mental. Então é importantíssimo haver movimentos como o antimanicomial que lutam pelo respeito e pela dignidade no atendimento

      Curtir

  3. Chorei tanto no Nise, principalmente na parte dos cachorros 🙊spoiler. Logo quando comecei a tratamento psicóloga pediu para eu ver. Aí entendi a minha ligação com as artes, e nossa insignificância achando que conhecemos e dominados tudo. Tem um documentário muito bom chamado “Saúde mental e dignidade humana” é um tanto institucional, mas faz nos entender sobre injustiça.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Muito boa argumentação. Engraçado que meu medo sempre foi ser considerada louca. Eu não tinha (ou pelo menos achava que não) vergonha/ preconceito em dizer que sofria com o transtorno bipolar, mas fazia questão de dissociar meus sintomas daqueles vivenciados por pessoas já “estigmatizadas como loucas”.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu também tinha esse medo!
      Mas separar é uma forma de manter-se longe do estigma. E ainda hoje há uma certa separação entre os portadores de doença mental em psicóticos (esquizofrênicos, esquizoafetivos e outros) e depressivos (pessoas com depressão, bipolaridade, ansiedade, etc.). Como se fossem escalas de loucura. Mas na verdade temos que a maioria dos pacientes possuem mais de uma condição: há ansiedade com esquizofrenia, depressão com toc, bipolaridade e borderline. Temos também sintomas que aparecem em mais de uma condição: muitos bipolares, por exemplo, possuem características psicóticas, e sofrem alucinações durante as crises. Ou seja, não existe uma linha divisória entre as doenças, e nem mesmo entre doença e “normalidade”.

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s